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o ribeiro

por jorge c., em 13.09.16

Durante aquela idade em que não somos nem carne nem peixe e em que a tendência para a inconsciência é maior do que o habitual, descobrimos um ribeiro dentro do bairro. Havia, aliás, alguns ribeiros que desapareciam com a nova construção que ali começou a crescer, para nossa infinita tristeza. Alguns deles serviam os campos, mas este servia sobretudo um tanque de lavadeiras. Descia a encosta, passava por debaixo de uma pequena ponte de betão inacabada e terminava no tanque onde, por regra, passávamos as tardes de domingo, a ver as cores que nele se formavam. Era raro ser sempre a mesma. O cheiro do sabão confundia-se com outros odores mais duvidosos. Por vezes, ficava-se com a sensação de estar perante um esgoto aberto.

As casas em volta, nesse lado do bairro, formavam pequenas ilhas de construções clandestinas, onde viviam famílias de seis ou oito pessoas e onde existiu durante muitos anos uma panificação sobre a qual recaía o mito das caganitas de rato no produto final. O ribeiro atravessava a encosta que dividia as casas, como se fosse a Veneza dos pobres. Dentro das que conheci, o mobiliário não tinha um estilo uniforme e, para disfarçar a falta de luz, era feito de madeiras claras e frágeis e as prateleiras estavam sempre despidas. Os quartos eram divididos entre os membros da família, estando o espaço mais reservado destinado ao chefe de família e à mulher. Os miúdos partilhavam o quarto com os avós e, por vezes, nalguns casos, a sala acabava por servir duas funções. As cozinhas eram pequenas e as casas de banho interiores recentes e igualmente exíguas. A fossa que servia as casas também era partilhada e mais tarde até surgiu, sem se saber bem como, uma antena parabólica onde durante as férias tentávamos ver pornografia na RTL.

Certo dia, apercebemo-nos de que a água do ribeiro não morria ali e continuava por um cano. Intrigados, decidimos tentar seguir o curso da água e acabámos por descobrir um furo no campo do Sr. António - o nosso maior rival. Para escapar aos chumbos da espingarda com que habitualmente nos recebia, trepámos por um muro mais discreto para ir à chinchada e acabámos por cair num charco de lama e estrume que não parecia secar. Do outro lado do muro, uma linha de água suja parecia ser o que restava do ribeiro que saía do tanque. Nunca mais roubámos ameixas.

O Ribeiro da Maínça foi durante a minha infância e pré-adolescência a minha imagem íntima da miséria escondida. Quando deixei o bairro, nunca mais lá voltei. Mas às vezes, nos primeiros dias da Primavera, ainda lhe sinto o cheiro e a resignação. Depois das últimas urbanizações que tentaram fazer do meu bairro da infância uma zona mais urbana e sofisticada, a encosta por onde passava o ribeiro desapareceu da vista dos demais. Por vezes, quando me lembro dos rapazes, penso no quanto a vida nos sorria enquanto estávamos juntos, à procura da felicidade.

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instantâneo

por jorge c., em 07.09.16

Rasga-se a tela presa na janela com o vento e um pequeno barco de porcelana cai e quebra-se no chão e as mulheres na secretaria falam falam falam falam falam de tudo o que interessa e não interessa seja de casa do trabalho da televisão a entrar dentro de casa e os operários aproveitam a corrente de ar que interrompeu a vaga de calor e paz no mundo mas logo regressam à obra de berbequim ligado intercalando ou em simultâneo com o toque dos telefones "está lá? só um momentinho que eu vou ver se ela ainda está na casa de banho" um sítio outrora privado mas que agora passa a informação transmitida a desconhecido como se as desculpas as razões os motivos as palavras a verdade fossem assim tão necessárias na conta corrente dos dias que vão passando assim com todo este ruído e com os termómetros a marcar trinta de mínima e quarenta de máxima em portugal continental e na madeira e em todo o lado menos nos açores onde ainda resta um bocadinho de civilidade de silêncio de natureza de vida porra!

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espião acidental

por jorge c., em 01.09.16

O início nunca é claro. Desta vez, chegava a um terreno com uma casa semi-abandonada. Sabia da morte de um amigo do meu pai. De seguida, um outro era assassinado e depois um terceiro. A polícia chega e admito reconhecer um padrão. Talvez saiba quem é o assassino.

Por esta altura surge uma ex-namorada que passeia serena com uma capa vermelha de burel. Os olhos verdes condizem com as cores do outono. Conversamos um pouco e fazemos as pazes de desencontros demasiado passados. Nada mais.

Apanho um autocarro melancólico que atravessa o bairro da minha infância e recebo uma chamada. Um 96 que não se encontra registado.

- Estou?

Uma voz ensonada do outro lado responde como se eu a conseguisse reconhecer:

- Então a malta diz que tu andas todo maluco e passas a vida a escrever cenas estranhas?

- Qual malta?

- O pessoal da faculdade.

- Eh pá, já tentei explicar mil vezes... Mas quem é que está a falar?

Insisto na pergunta várias vezes e explico que perdi os contactos. Lanço uns nomes de amigos mais próximos com quem o contacto tem sido cada vez mais escasso. Do outro lado, o tipo liga a aparelhagem e ouve-se Welcome to the Jungle. "Está lá, está lá" e nada. Depois Night Train. "Estou? Estou?"

- É o Axl, meu.

- Axl? Mas tu estás cá?

Era o Axl Rose, amigo de longa data a dar a boa nova. Lá fui ter ao bar dele, naquele mesmo bairro, lembrando um pouco o Cais na Ribeira do Porto. Ao balcão, fomos pondo a conversa em dia. Desafiou-me para o ajudar aí com uns negócios. Nada de especial. Mas, primeiro, tinha de confirmar que ia à passagem de ano. Oitenta euros - duas pessoas. Confirmei-me imediatamente e disse que ia falar com a tal ex-namorada confiante de que haveria ali uma aproximação. Desabafei ali um bocadinho com o meu amigalhaço. Saí do bar e pelo caminho segurava no telefone hesitando na sms.

Sem saber porquê encontro uns tipos mais velhotes acompanhados por um sujeito com ar de carteirista. Ficamos os dois a conversar sobre língua portuguesa mas entretanto passa a mulher do Presidente da Câmara e eu tenho de me ir embora para me encontrar de novo com o Axl.

Estamos três no elevador. O terceiro já não sei quem é, mas de repente fui eu que o levei até lá. O contacto era meu. Vamos para a Penthouse. Pelo que me apercebo, envolve putas. Não me faltava mais nada. Aquilo já não me parecia uma coisa assim tão simples como ele a pintara. Lá chegados, avançamos pelo corredor. Três jovens semi-nuas abrem três portas diferentes e sorriem com um ar atrevidote. De repente, tiros de metralhadora por todo o lado, o cliente é assassinado por uns tipos que o Axl revela serem russos. Quando este amigo da onça me contou que lhes devia dinheiro e tinha de fazer favores, o despertador começou a tocar. Como sabia que eu conhecia toda a gente... E pronto, o gato começou a miar e acordei definitivamente.

Há alguns anos que não me lembrava tão nitidamente de um sonho.

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manhã ocidental

por jorge c., em 30.08.16

Sombria, a guitarra de Polly Jean rasga o Agosto passado e tenta romper por Setembro dentro, sem pressa, num compasso com tanto de lânguido como de sádico. Na sua página oficial, um artista queixa-se da falta de reconhecimento pelos seus pares, pelo público e pelo cosmos. Dois jornalistas discutem o estado do setor no Facebook, invocando as razões iniciais que os levaram à profissão. Um cínico faz uma revista dos posts, deixando comentários como um pombo que larga dejetos nas praças ao longo da cidade, voltando depois à sua aborrecida realidade. Cidadãos anónimos esfregam os olhos nos transportes públicos na ressaca dos dias quentes e da água tépida. As chefias chegam depois da hora; outras já lá estão desde ontem. Pisa-se o passeio com mais convicção do que antes, com a substituição da calçada. Há buzinas e travagens bruscas. Um estafeta consulta o Whatsapp numa paragem de autocarro e o empregado do snack-bar Maré Alta acaba um Filtro enquanto arruma o resto da esplanada. Um homem discute com ele a mão na bola e um outro lê as notícias num jornal onde os jornalistas já nem discutem o estado do setor. Num quarto arrendado, uma desconhecida celebridade da cultura nacional dorme abraçada a um jovem Erasmus. A guitarra e a voz de Polly Jean estendem-se pela minha manhã ocidental.

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balada da dependência*

por jorge c., em 23.08.16

Era já tarde quando o amor se esgotou. Foi um estranho que entrou no quarto de madrugada. Trazia o cheiro azedo da cerveja bebida e entornada sobre o perfume enjoativo do vestido e a indiferença dos excessos. Poucos minutos após se deitar, a meio da minha insónia escaldante, caiu nas profundezas de um inevitável cansaço, demasiado ruidoso. Levantei-me e saí pela praia com os impulsos a conspirar. Estava tudo quente: as pedras, o mar, o céu, o corpo. Sem sobressaltos, fiquei na beira da praia até acabarem os cigarros. Quando o sono insistiu, deixei-me levar pela resignação e regressei a casa. Os olhos fecharam-se como num cadáver alado que deixava o corpo à mercê da manhã.

 

 

*inspirado em Nan Goldin

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uma crueldade por dentro

por jorge c., em 05.08.16

Passei os melhores anos da minha vida na cama. O corpo e o cérebro não se entendiam. No tempo em que aproveitamos para correr todos os caminhos e construir pontes eu estava na cama, a olhar para cima ou de olhos fechados. Lembro-me das sombras e do calor no quarto, dos filmes banais, da falta de comida, de um cheiro constante a tédio, da resignação. Não me posso arrepender, porém, de nada disso. Não nos podemos arrepender daquilo que não temos culpa. É uma doença cruel. 

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as férias de sardinha

por jorge c., em 26.07.16

- Quinze dias de férias! - exclamou num alívio tal que, ao recostar-se na cadeira, tombou, batendo com a cabeça no aparador da sala e derrubando uma jarra que lhes fora oferecida por uma prima afastada no dia do casamento. Pronto, estavam as férias feitas. Resignou-se com o facto de nas próximas duas semanas as suas manhãs começarem invariavelmente com a lembrança da tragédia que foi ter quebrado aquela jarra, de como é um irresponsável que não valoriza as coisas, de como a prima lhe era querida, apesar das distâncias, e lhes comprou aquela obra de arte por considerar que tinha tudo a ver com ela e que aquela era a única forma que tinha de se recordar da família que havia abandonado para se dedicar a um marido incompetente, inútil e desinteressante. Nem tudo era mentira.

Quando Sardinha casou, tinha começado a trabalhar na propaganda médica havia pouco mais de um ano, com direito a carro e a cartão de crédito para os almoços e jantares de negócios que acabariam por nunca acontecer devido à sua timidez, apesar de o chefe acreditar que tudo aquilo se devia mais ao facto de ele ser uma pessoa absolutamente desinteressante, inoportuna e, por consequência, inútil em qualquer empresa. Talvez tenha sido por isso que mudou de ramo, nunca afastando a convicção de que teria talento para as vendas. E com isto tudo já eram doze anos nos seguros. Muita gente passou por ali; entravam, saíam, e ele sempre lá, sempre a trabalhar; férias, nem vê-las. Chegava, por isso, a altura de gozar quinze dias, que seriam agora assombrados pela tragédia da jarra.

Portanto, se descontasse os telefonemas que iria receber, o massacre diário da jarra, a jardinagem e as compras, estaríamos a falar de um valor líquido de três dias de férias. Não desmoralizou. Talvez um bocadinho. Talvez tenha ficado a pensar que se fosse rico é que eles iam ver o que eram férias, na Polinésia Francesa, como um cliente que lhe contou que na Polinésia Francesa até uma tipa com um abanico a dar-a-dar para suavizar o calor havia; a água, transparente; nunca precisaria de se mexer para fazer o que quer que fosse excepto, claro, se a tipa do abanico quisesse brincar aos colonizadores, que era algo que também se podia arranjar. Quando um tipo tem dinheiro, tudo se arranja. E em vez de passar umas férias inteiras a podar arbustos, a aparar relva e a recolher pinhas e folhas de loureiro, passaria todas as tardes como se fossem aqueles sunsets onde os ricalhaços aparecem a beber gins e outras bebidas cujo nome agora não se recordava mas que o cunhado, que era um purista, sabia de trás para a frente. Ele é que lhe dava os conselhos: "Aquilo é uma maravilha. Mas não são aqueles patés manhosos do supermercado. É foie gras a sério, francês. O da Rússia também é muito bom. E bebes um ginzinho a seguir, com zimbro, pimenta rosa e hortelã. Vais ver como não queres outra coisa." Há gente que sabe viver, pensava. O cunhado, por exemplo. Admirava-o tanto que era raro não começar as frases com a formulação "o meu cunhado", o que depois, pelo excesso, acabaria por ser motivo de comentários menos simpáticos dos colegas. 

Foi precisamente o cunhado que os convenceu a arrendar uma casa na Malveira para passarem as férias e os fins-de-semana. Claro que fins-de-semana era para esquecer. É a bola do puto, a ginástica da miúda, o negócio que não dorme nem tira férias, o Benfica... enfim, ficava difícil. Quando lá iam, eram dois dias a limpar a casa e o jardim e na segunda-feira ninguém ia trabalhar por ele. Por isso, quinze dias de férias vinham mesmo a calhar para que na sua cabeça se justificasse um arrendamento anual de uma casa na Malveira. 

Três dias depois de terem chegado, já só faltava limpar o anexo, recolher as folhas caídas e cortar a relva. Mais dois dias e estava tudo pronto. Para agilizar o processo, decidiu substituir os sacos onde colocava as folhas secas de loureiro por um bidão grande onde as colocaria todas. Como acabou por ficar um bocado pesado, lembrou-se que se queimasse aquilo tudo ficava o problema resolvido. 

Quando a polícia chegou por volta das 16h00, o fogo alastrava já pela parte de trás da casa. Meteram-no no carro e levaram-no para a esquadra. Pelas 18h00, os bombeiros já tinham a situação controlada. Convencido de que ainda estava no papel de vítima, Sardinha desabafou com o polícia que, felizmente, o seguro cobria aquelas coisas, que não fosse ele um dos maiores especialistas de seguros do país de certeza que já lhe tinham estragado a vida, que a empresa é muito experiente nestes assuntos...

Foi já nos calabouços da PJ que se lembrou da jarra. Na verdade, desde que havia chegado à Malveira a mulher não tinha tocado no assunto. No fundo, até estavam a ser umas belíssimas férias. 

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o tempo das formigas

por jorge c., em 18.07.16

Todas as virgens do meu bairro deixaram de o ser sem que eu tivesse dado por isso. E tal como as virgens e os virgens, a vida no bairro foi crescendo comigo, tomando passos tantas vezes divergentes, e assim nos fomos separando. Ficou na memória um tempo de cumplicidades, de íntima relação com os muros das casas, com os bancos dos jardins, com a virgindade de todos os elementos que compunham o bairro e que com ele pareciam estar sempre a preparar as férias. Mas no Verão de 95, demoliram a casa do lavrador e todo o terreno foi ocupado por máquinas de construção. Durante esses dias, desapareceram os pessegueiros e as ameixoeiras, e com eles as raparigas de vestidos de algodão e o cheiro frutado dos corpos. Desapareceram também os formigueiros por detrás dos muros do prédio da minha infância que anunciavam o início do campo, quando trepávamos à descoberta do dia. Quando mudámos de casa, já não havia sinais da minha infância. As raparigas já não eram virgens e os rapazes eram tontos profissionais, ansiosos pela adultícia. Nos anos em que vivi sozinho nessa memória, descobri três ou quatro pormenores que ainda hoje, atravessando as mais elementares leis da física, me permitem viajar no tempo.

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o spleen da borda d'água

por jorge c., em 15.07.16

O cenário das ruas tem mudado. O mundo que chegou à pátria orgulhosamente só trouxe consigo outros hábitos. Cruzei-me, há dias, com uma mulher que caminhava enquanto fazia uma vídeo-chamada. Nas mercearias que são, agora, propriedade de mulheres e homens vindos de toda a parte, vemos e ouvimos as cores desses lugares distantes a saírem dos dispositivos, e com eles as reações, umas vezes alegres, outras apreensivas, destes novos vizinhos. É então que reparo em dois homens - portugueses, suponho - de telefone em riste, apontando para uma parede da cidade. A imagem, ainda que estranha, deverá ser, em breve, uma constante. A partir de hoje, muitos serão os diletantes desse jogo que encontra pequenos bonecos nos sítios mais improváveis. Chamam-lhes Pokémon. Poderia lá a história da Borda d'Água ficar indiferente.

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on the beach

por jorge c., em 12.07.16

Com a morte da mulher, Kasper já havia decidido deixar a cidade, afastando-se da preocupação alheia, dos pequenos dramas alheios que conspurcam o ar de banalidade, da alegria forçada e dos fretes. Anos mais tarde, o acidente do filho deixou-o sozinho no mundo e partiu para uma pontinha de Portugal onde dificilmente teria de se justificar. Dos anos que viveu em Vila do Bispo tem saudades da praia vazia, do vento e das ondas a impulsionar a dor para os céus, da estrada vazia, do pão fresco e carinhoso que lhe devolvia a manhã, do silêncio crepuscular do verão e do olhar melancólico dos turistas quando regressavam a casa. 

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Já se cuspiu mais sangue do que vómito na noite de S. João. Histórias antigas resolvem-se na noite maior dos excessos. Foi sempre assim. Lembro-me ainda dos desacatos simples: os carros cercados, os empurrões e os gritos a forçar o beijo entre os tripulantes; o assédio à miúda errada; a cerveja entornada por cima do tipo errado; um sócio que não dispensa um cigarro nem vinte paus. Uma vez, em S. Bento, o campo de batalha era toda a praça, formando-se não uma multidão, mas círculos de hooligans como nos concertos de metal que naquela altura se faziam no parque de exposições, do outro lado do rio. Um dia, dei por mim a acordar na praia no meio da ressaca da vida. À volta, a manhã ainda fumegava resíduos de violência, entre descargas de esgoto e de estômago. Ninguém parecia estar em condições de prosseguir a vida como se nada fosse, excepto o casalinho que encontrara o amor durante a noite e que continuava a conversar na descoberta do novo dia, do futuro a dois, quem sabe - outras manhãs sem que ninguém por perto seja visto a cuspir sangue ou bílis. As marcas profundas das coisas esquecidas arrastavam-se pelos passeios e as pastelarias enchiam-se de zombies esfaimados que, no regresso a casa, ostentavam orgulhosos a resistência à noite derradeira. 

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das revelações

por jorge c., em 21.06.16

Não perguntarei o que é a Verdade mas, antes, o que fazer quando a Verdade mudar. Quando chegar o momento em que o que era a Verdade deixa de o ser, como receber a revelação: aceitá-la com entusiasmo, aceitá-la com resignação ou reagir consciente de que a Verdade anterior é, agora, mentira?

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sobre evoluções

por jorge c., em 17.06.16

O conservadorismo é uma procrastinação moral da evolução. 

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going underground

por jorge c., em 30.05.16

No princípio era a verba. E então, entre a utilidade e o prazer, escolheram a primeira porque a segunda não era tangível. O prazer tornou-se deboche e os hedonistas parasitas. Todas as coisas espontâneas padronizaram-se e institucionalizou-se a noite e as manhãs ficaram artificiais e as salas dos restaurantes cheias de memórias inventadas pelo patriotismo romântico e as esplanadas violadas com a música que vende a mesma estética do prazer e a tarde a ter que ser produtiva. Quando a cultura do mundo morrer, será por decreto da lei do mercado, das novas tendências do cliente ou pelas regras de higiene e segurança do emprego. O cliente, que somos nós, é esse ser caprichoso que finge o que sente e que por preguiça deixou de gozar a vida.

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a ficção do mundo

por jorge c., em 25.05.16

Vou lendo, por aí, histórias de gente que se entrenha nas paredes do mundo. Ficções que acontecem à realidade. Penso nelas com uma inveja carinhosa. Queria escrevê-las, inventá-las, mas elas existem e foram contadas. Agora só me restam estas linhas trôpegas. 

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everything must go

por jorge c., em 20.05.16

Puristas, românticos de quaisquer construções, sempre os houve. Inventaram o nacionalismo, o autêntico, o verdadeiro, o original. O puro, lá está. Arrastam consigo, através da humanidade, os limites da imaginação. São os escravos do ressentimento, os fiéis guardiões da velha caverna. Não lhes devemos absolutamente nada. 

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uma homenagem

por jorge c., em 08.05.16

Se houver uma geração x em Portugal, ela é filha de uma inquietação sonâmbula que andou pelas ruas durante duas décadas, sem saber muito bem o que escolher. Se houver uma banda sonora para essa geração, ela tem letras de Rui Reininho.

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sonhos de salário mínimo

por jorge c., em 06.05.16

Já mal se recordam dos dias como eles eram há quinze anos. Aquela discussão no concerto dos Guano Apes, as férias em Milfontes, os planos para viver no centro da cidade num T0 sempre cheio de amigos, copos de vinho e música do agrado de ambos. O longo namoro deu em casório e a grande estratégia para a felicidade conjugal limitou-se, afinal, ao salário de seiscentos euros, já com os descontos, ao T2 nos subúrbios, a preço razoável, às aulas de Zumba e aos dias de jogo com direito a tolerância de ponto. Aos fins-de-semana é a catequese da miúda ou são os jogos do rapaz pequeno. Às vezes lá dá para uma jantarada no Mister Picanha e uma saída para um sítio onde dê para dançar, acabando a noite pela uma da manhã no Sabor a Recife - o mais próximo de umas tão desejadas férias no Brasil. Se pudessem voltar atrás, Carla e Bruno não mudariam muita coisa. Na verdade, nem pensaram muito nisso. 

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cobranças difíceis

por jorge c., em 04.05.16

Não há nada que inquiete mais a existência do que a incerteza sobre o que os outros pensam de nós. Podemos fugir, inventar uma retórica de auto-confiança, defender o individualismo ou entrar numa personagem que nos pareça mais conveniente. A verdade é que todos nos preocupamos. O que pensarão eles sobre mim? A dúvida é existencial. Toda a dúvida é existencial. É ela que me assalta quando vejo que os amigos não me visitam, que não têm curiosidade sobre o mundo que me rodeia, que não manifestam interesse pela minha cultura. Ao mesmo tempo, os amigos mostram-se incomodados pela a minha ausência. "Estás diferente", dizem. Eu, que aqui me encontro arredado do mundo, sem teatro, cinema e poesia, com pouca música e um difícil acesso a tantas outras coisas; eu, que vivo com pouco sem me queixar, apesar deste queixume; eu, que abandonei a casa e as gentes; eu, que sinto a falta de todas as coisas, como uma nostalgia perpétua. A que se deverá tal crueldade dos amigos? Isso, à necessidade que têm de ser gostados. Todos têm. Temos. Não me cobrem. 

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branda violência

por jorge c., em 20.04.16

Meia-estação. Sempre a meia-estação. Lembro-me dos domingos de meia-estação, o cheiro das velas na igreja, o incenso que julgava afastar o cheiro do suor quente-e-frio dos corpos que derretiam como cera, debaixo do sol da eucaristia, e depois gelavam com a sombra das nuvens saudosistas. Pela tarde, as ruas ficavam vazias e sobravam os restos do mundo embrulhados em sobretudos de fazenda, como zombies imunes à temperatura, e duas ou três tendas a vender cavacas e bugigangas na esperança de que todos os domingos fossem como em Jesus Cristo Superstar. Achei sempre que essa relação entre a missa dominical, os indolentes e a venda ambulante era um encontro cósmico de toda a decadência, abençoado pela temperatura falsamente amena da meia-estação e pela música de Nelson Ned. Mais tarde, quando a indolência me venceu, dei por mim a subir os montes num domingo à tarde, o sol a derreter a pele como se fosse a cera das mezinhas, os insectos, a terra seca e o pó a invadir as narinas já ressequidas do tabaco e do brandy. Foi outro desespero de tardes iguais, outro calor, a mesma estação, nem carne nem peixe, o compasso marcado pelos passos enterrados e o romper das silvas. Do chão parecia que se levantavam os mortos para completar o cenário de inferno brando. Não me recordo de outras visões. Ao fim do dia, quando regressava ao bairro, com o frio, o pânico da meia-estação encerrava-se no rosto pálido de Sónia, como numa balada de Violent Femmes. 

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uma cultura de alheamento

por jorge c., em 02.03.16

A civilização ocidental associou a legitimidade da opinião à ideia de liberdade de expressão. Uma vez que há matérias da realidade que são factos, não estão sujeitas a opinião, que é uma manifestação de subjectividade, limitada à experiência e às preferências do indivíduo. De certo modo, parece que se gera uma confusão entre a escolha e a projecção dessa escolha em todos os movimentos do mundo. A escolha do indivíduo é legítima, não a projecção para o resto do mundo. Mas a cultura do solipsismo instalou-se de tal forma que a opinião infundada é assumida como legitimadora de coisas tão distintas como o juízo sobre os outros ou os comportamentos quotidianos simples, como a forma como nos deslocamos na rua ou como prestamos, ou não, atenção ao que nos rodeia. O indivíduo que pára no meio do passeio e interrompe a circulação dos demais não é um individualista mas, antes, um solipsista que ignora voluntária ou involuntairamente a dinâmica do mundo. Aquele que ignora o conhecimento científico em benefício da sua própria experiência para emitir juízos tem mais de solipsista do que de ignorante. Muitos destes comportamentos vão ao encontro daquilo que o indivíduo entende como opinião, ou seja, a sua percepção do mundo. A cultura do solipsismo poderá, então, ser vista como uma cultura de alheamento e, como tal, de desintegração social. Ou, se quisermos ser mais fatalistas, pode conduzir ao fim da comunidade como a conhecemos.

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faena em memória de paco de lucia

por jorge c., em 25.02.16

Numa pequena taberna madrileña, um grupo de homens junta-se à volta de um guitarrista de semblante impenetrável. O rapaz toca uma buleria que se vai espalhando pela mesa e pelos cantos da sala, por entre o tabaco e os copos de 3. A música cresce como uma fonte que se transforma em grande rio e o peito sente uma liberdade latente, ainda sufocada pela angústia das coisas simples, anestesiando a realidade. Como numa faena

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in memoriam

por jorge c., em 25.01.16

Tem sido um Janeiro de despedidas. Encontramo-nos muitas vezes na elegia colectiva quando a figura é grande, universal, inspiradora. No meio das sucessivas despedidas, há um homem que terá passado despercebido ao mundo, mas cuja magnitude inspirou gerações de raparigas e rapazes, nessas idades em que a nossa intimidade luta entre o que somos e o que os outros querem de nós. É nesse tempo que surgem indivíduos que mudam a nossa vida; que - lá está - nos inspiram. 

Não fui um desses rapazes. Não o conheci. Mas foi numa tarde como a de hoje que me emocionei com o reconhecimento de um homem que, até então, desconhecia.

João Chaves - o Joãozinho da voz doce, como lhe chamavam - foi professor na D. Pedro V, tendo atravessado algumas gerações de alunos, entre o antigo regime e o pós 25 de Abril. Durante esses anos, ergueu um grupo coral por onde passaram centenas, senão milhares, de alunos de origens tão distintas que o resultado não poderia ser outro senão uma das mais belas expressões da identidade colectiva, da solidariedade e da comunhão. Só um homem com um raro espírito de humanidade poderia, então, tantos anos depois, numa tarde de chuva, reunir à sua volta um reconhecimento tão profundo. 

Soube, por estes dias, da morte do grande maestro dos alunos da D. Pedro V, escola com a qual eu não tinha qualquer relação até àquele dia. Quando a notícia me chegou, lembrei-me, com a inevitabilidade com que a música me visita, dessa tarde e da emoção que senti ao ouvir as palavras de Gomes Ferreira na música de Lopes Graça, cantadas por aquelas mulheres e homens que traziam, então, o brilho da adolescência nos olhos. Esse brilho que acende de almas e de sóis os mares sem cais e imortaliza os nossos heróis que dormem nos covais.

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rapazes

por jorge c., em 28.12.15

Nestes dias mais intensos do Inverno, a memória tem-se passeado por pequenos episódios e lugares onde julguei que o esquecimento se instalara. Mas o confronto quotidiano com as coisas do mundo faz-nos sempre regressar a casa. Ou às coisas que são como casa: o recinto da escola, o cheiro dos plátanos, os toldos dos cafés, os muros medievais das boiças, as urbanizações que cresciam ao mesmo tempo que nós e a luz ou o corpo a aquecer no fim da manhã. Às vezes, ainda sinto a adrenalina da espera do toque, dos corredores vazios sob a chuva de Janeiro, dos cheiros dos casacos encharcados misturado com o das hormonas quentes, e com eles essa pressão para sermos rapazes. Dá-lhe um apalpão que elas gostam. Se não deres tu, há outro que dá. Não sejas mariquinhas. E lá a medo, para não sermos diferentes, traíamos a espinha e condenávamos a memória a essa vergonha abissal que durante o resto dos dias tentaríamos esconder.

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manifesto conservador

por jorge c., em 22.12.15

Ao contrário do reaccionário, o conservador não reage ao progresso, resigna-se. Mas essa resignação não tem que se manifestar através do pessimismo. O conservador pode, hoje, ser optimista se for, simultaneamente, libertário. Chamemos conservadorismo libertário à modalidade do conservadorismo que, não abandonando a sua natureza institucionalista, distingue entre intervenientes e beneficiários das instituições e, com isso, prefere a implosão das instituições à tolerância da sua subversão. 

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estranhos em casa

por jorge c., em 10.12.15

A abnegação também é uma vanglória. Desapegamo-nos das coisas não como uma demonstração de indiferença, mas sim de coragem. Enquanto virtude, a abenegação dar-nos-á dissabores, com o tempo. Todos esses lugares que deixámos para trás serão ocupados por outros. Por mais que acreditemos que os lugares não são de ninguém, há um dia em que regressamos e observamos os outros a comportarem-se como proprietários desses lugares que quisemos livres. E então sentimo-nos deslocados, estranhos em casa. Uma nostalgia ressentida consome-nos o espírito e põe a virtude da abnegação em causa. Já nem a luz ou a intimidade nos pertencem. No jardim da Cordoaria. No Twitter. E já não é apenas a sensação de sermos estrangeiros. É a sensação de não sermos bem-vindos.

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da felicidade

por jorge c., em 02.12.15

Em dezembro, nem sempre assim. O rapaz dos serviços administrativos continua a vir trabalhar para passar o tempo. Faz a sua parte, corre de um lado para o outro como se estivesse a fazer exercício físico, repete palavras e toques de telefone que ouve e vai cantarolando ao longo do dia, enquanto insere os dados na plataforma pública. A rádio de serviço nunca é interrompida com notícias e outras chatices. Farto de chatices está ele, só problemas, a vida. A essa hora, precisamente a essa hora, uma bomba rebenta em Istambul e faz 80 mortos. Easy Living de Billie Holiday surge com a naturalidade dos dias de dezembro. O parlamento discute a idade das reformas e os correspondentes cortes nos que se atrevem a antecipar, que isso da velhice é sobrevalorizado. Back in your own backyard dispara num arrepio. O rapaz vai abanando a cabeça ao som do swing do contrabaixo. Trav'lin' all alone. O Natal à porta e a felicidade nas pequenas coisas, no trombone tonto, na hora certa, na burocracia, até que a reforma nos separe. 

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da personalidade

por jorge c., em 01.12.15

Anthony Giddens definiu dois estádios que influenciam a vida do homem em sociedade. Chamou-lhes Sociabilização Primária e Secundária. A Primária será a fase da primeira infância, a educação de casa, o convívio com um círculo mais restrito. A Secundária, a fase de crescimento mais autónomo, com o alargamento do convívio e, logo, da percepção do mundo.

Não sendo eu sociólogo, nem tendo pretensão de falar sobre uma disciplina sobre a qual tenho um conhecimento muito vago, pensava nisto ontem enquanto observava um conjunto de reacções com padrões semelhantes num número alargado de indivíduos. De facto, as redes sociais virtuais permitem, hoje, uma ampliação invulgar do fenómeno sociológico e serão, certamente, um instrumento interessante de estudo. Não me competindo essa tarefa, reparo apenas em padrões, alguns padrões de indivíduos que conhecemos numa determinada altura da vida e que por obra dos algoritmos voltámos a encontrar. Será a mesma pessoa?

A questão tem tanto de filosófica quanto de sociológica. Na verdade, a formação da personalidade não pára, existindo, aliás, uma fase que me parece ser determinante na vida de qualquer indivíduo - a autonomia financeira e uma consequente percepção desse mundo novo que nasce não apenas com a responsabilidade, como também com novas relações provenientes da relação laboral, ou outros círculos que sobre ela gravitam. 

Na fase a que agora me refiro, não é invulgar que qualquer um de nós redefina o seu círculo de amizades, adaptando-o aos seus interesses, aos seus valores mais solidificados e à sua visão da própria vida em comunidade. Enquanto que na fase infanto-juvenil (e até universitária) não podemos garantir que o grosso das amizades sejam escolhas voluntárias, por estarem limitadas por obrigações perfeitamente circunscritas, o modelo de vida construído a partir da autonomia financeira permite uma maior liberdade de escolha.

Talvez possamos chamar a esta fase de Sociabilização Terciária. E talvez seja esta que nos pode ajudar a compreender certas características que, por vezes, nos parecem incoerentes ou, até, inexplicáveis. 

As próprias escolhas políticas, culturais e de consumo, ou a mera relação com o outro, dificlmente se manterão as mesmas a partir do momento em que o indivíduo é confrontado com uma nova relação de responsabilidades, de hierarquias e de cidadania. 

Por outro lado, talvez nada disto faça qualquer sentido e seja só uma tentativa desesperada de auto-justificação. 

 

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manhã

por jorge c., em 19.11.15

A manhã nasceu fresca e esclarecida. Sob a montada, Teodoro admira agora um bando de flamingos que drapeia o mar-chão, plainando depois sobre o mouchão à espera que o barco passe e devolva o silêncio da preia-mar de novembro. A cidade, nem vê-la. Quanto menos notícias de lá, melhor. Comem-se vivos. Ao longe, uma nuvem de pó anuncia a chegada furiosa do patrão que, numa dessas urgências frívolas, vem cumprir o dever de mostrar quem manda. Restam-lhe agora poucos minutos para aproveitar as pequenas felicidades.

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notas sobre a ignorância

por jorge c., em 15.11.15

De todas as ignorâncias, a certeza é a mais intransigente. Uma certeza não cede, não questiona. Ela afirma-se como autónoma das relações complexas entre ideias, conceitos abstractos, sujeitos, comportamentos e circunstâncias. A certeza não cumpre a lógica, mas sim uma construção falaciosa. É essa construção que vai justificar a sua natureza ignorante. O indivíduo que é consciente da sua ignorância não começa um raciocínio pela conclusão, procurando depois peças que construam - lá está - essa certeza prévia. Uma parte importante da intolerância absoluta nasce da ignorância da certeza. 

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opus 77

por jorge c., em 11.10.15

Haydn a caminho da Vala, pelo meio dos ciprestes e da indústria pesada, num desses dias tépidos de outono. Mesmo sem se ver o rio, percebe-se pelas figuras que vão passando a pé pela rua da estrada, como bem lhe chamou Álvaro Domingues, que é domingo na borda d'água. Um grupo de ciclistas atravessa o cruzamento do Carregado e um outro, de peregrinos, segue a bom ritmo pelo caminho mariano. Na estrada para a Azambuja, uma carroça de ciganos passa em frente ao centro comercial e um Mercedes com uma família tradicional entra penitentemente no parque de estacionamento. Parou de chover e Haydn continua a tocar para todos. Não há nada mais plural e universal do que um quarteto de cordas num domingo na borda d'água.

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na feira da borda d'água

por jorge c., em 09.10.15

De todos os despertares, o cheiro do café das velhas logo pela manhã é o mais estimulante. E quando a temperatura lá fora baixa e as paredes da casa arrefecem, sentem-se os ossos mais rijos, saltando-se da cama como uma mola em direcção ao dia. "Come qualquer coisa, rapaz!" Não como nada, não há tempo. E agora a rua é uma rampa de neve, a toda a velocidade, sem hesitações, como se a calçada não existisse e a descida fosse um mergulho perpétuo de um esquiador num movimento contínuo e magnífico. Estala o primeiro foguete, o coração dispara e as pernas ganham uma força extraordinária. Quase a esbarrar na tronqueira, vejo o maioral real passar na frente, seguindo-se um outro cuja vara aponta ao primeiro toiro e mantém tudo encabrestado. Os miúdos gritam "toiro! toiro!" e os homens que os esperavam no meio da rua precipitam-se para o resto das tronqueiras e para trás dos carros que ficaram esquecidos na noite anterior. O cheiro de Outubro fica ali embrulhado na humidade da areia e uma melancolia parva permanece nos espíritos. Nas ruas de Vila Franca, esperam-se toiros como quem espera pela felicidade eterna. 

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breves notas sobre a cultura

por jorge c., em 18.09.15

José Gil falava há uns dias na rádio sobre a massificação da cultura e da obra de arte. Na breve passagem que consegui ouvir, o filósofo narrava um episódio a que assistiu num museu, em que dois indivíduos, jovens, passavam pelas obras para assinalar com uma fotografia e dizer "este já está". Luís Naves, num texto de magnífica ira, escreve que "em vez de emoções, as pessoas experimentam obsessivamente novas sensações, tudo à flor da pele, pois estamos na era do explícito e do efémero." Estaremos a passar por um período de desculturação? Ou seja, um período em que o modelo social se inverteu de tal forma que se assiste a uma perda do valor cultural e a uma preponderância do produto de entretenimento que, por sua vez, irá gerar uma sociedade cada vez menos exigente. Esta desculturação implicaria uma quebra na qualidade das elites e da forma do seu mediatismo ou, até mesmo, uma alteração radical das elites e do modelo social proposto pelos meios de comunicação. Não podemos, aqui, ignorar o papel da escola e do serviço público de rádio e televisão, bem como de todo o jornalismo. Não quero dizer com isto que um desmantelamento do fenómeno cultural, que eleva o conhecimento das sociedades, seja provocado. Parece-me mais que se trata de uma desvalorização progressiva, na tentativa de adaptar linguagens à tecnologia. O instrumento tornou-se o fim. A desculturação seria essa subversão.

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volta ao mundo em três memórias

por jorge c., em 18.09.15

Sayid voltou a perturbar-me o sono. Desta vez apareceu noutro tempo, rodeado por uma dessas felicidades raras da vida. Depois disso, lembro-me apenas de o ver deitado numa camarata, acompanhado de umas dezenas de outros homens, todos vestidos de igual. Ouvia-se música e o som inequívoco de camiões. Ouviu-se também um disparo e um corpo apareceu caído junto de uma cerca. Acordei sem saber se a minha personagem teria morrido. A história de Sayid havia terminado, mas agora surgia algo novo, já sem os outros, num outro cenário. Um sonho tão estranho como aterrador. O despertador ainda não tinha tocado. Talvez aqueles quinze minutos restantes pudessem ter sido fundamentais. Quinze minutos é uma vida nos sonhos. Levantei-me e saí para apanhar o avião para Lisboa, com o possível corpo de Sayid na mente e o trago amargo da cerveja da noite anterior a entupir-me toda a zona respiratória. Voltei a adormecer durante o voo mas julgo não ter sonhado mais. No táxi, num francês enferrujado, o motorista confessa estar triste com o que se passa na Europa. O tema propaga-se por toda a parte como um grande terramoto. É a favor. A favor? Sim, a favor. Há quem seja contra. Contra o quê? Toda esta história de refugiados e migrantes e tragédias. Migrações trágicas. Sabe bem o que isso é. Em 75 veio para Portugal para fugir da morte certa. Não era um regresso, mas antes uma vida nova, um outro cenário. Também havia quem fosse contra. Emocionou-se e forçou-me ao silêncio. A luz de Lisboa preenchia o espaço com a compaixão possível, enquanto o taxímetro marcava a passagem do tempo numa luta clássica entre a melancolia e a urgência do fim do dia. Lembrei-me de Julio Cortázar e da sua breve história porteña. Às vezes o mundo cabe todo numa pequena viagem nos transportes públicos.

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las calles*

por jorge c., em 14.09.15

Inácio está numa segunda-feira perpétua, a olhar para os navios que chegam à doca, desafiando o horizonte e as possibilidades. O que estará para além do mar? Os olhos curiosos e sonolentos, os pés acariciados pela água morna que banha a central térmica Costanera, as mãos no chão a suportar o tronco, o corpo curioso e sonolento. Um homem aproxima-se e manda-o sair dali. "Fascista!", responde o rapaz, "o mar é de todos!" e sai disparado em direcção a Boca; em frente ao estádio simula um remate e festeja o golo e por toda a cidade se anucia e celebra esse outono porteño e um bandoneón toca alegremente melancólico e, então, nada muda. Inácio regressa a casa. A escola ainda não começou. O melhor será esperar pelos outros. Pega num livro e lê:

 

"Las calles de Buenos Aires
ya son mi entraña.
No las ávidas calles,
incómodas de turba y ajetreo,
sino las calles desganadas del barrio,
casi invisibles de habituales,
enternecidas de penumbra y de ocaso
y aquellas más afuera
ajenas de árboles piadosos
donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y llanura.
Son para el solitario una promesa
porque millares de almas singulares las pueblan,
únicas ante Dios y en el tiempo
y sin duda preciosas.
Hacia el Oeste, el Norte y el Sur
se han desplegado - y son también la patria - las calles;
ojalá en los versos que trazo
estén esas banderas."

 

Depois, estendeu-se sobre a cama e adormeceu antes que o acordassem. 

 

*poema de Jorge Luís Borges

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11

por jorge c., em 11.09.15

Uma visão turva da memória imprecisa, indefinida. Talvez estivesse nevoeiro. O televisor a preto e branco desligado. Depois, um telefonema: o mundo está a cair. Em Santiago, as últimas palavras de Allende na rádio a preto e branco: "El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse." Aviões por toda a parte, um ruído ensurdecedor. Acende-se o televisor a preto e branco e os aviões embatem nas torres. Updike escreveria mais tarde "the false intimacy of television", no seu apartamento em Brooklyn, a ver o fumo sobre a cidade. Um homem voa. Talvez Allende "El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse". Outros corpos caem como lágrimas do céu. ¡Viva Chile! "de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor." A humanidade toda, de Santiago a Nova Iorque, nós atrás de um televisor a preto e branco, os corpos dos outros, outro sangue derramado, a humanidade toda, impotente, sem esperança. "de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre." Os dias e os anos passaram. Reabriram-se avenidas. Vieram as cores, as fotografias de Brooklyn Heights e de Santiago. A falsa intimidade da internet. 

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o céu azul ficará

por jorge c., em 08.09.15

Quando se tem 14 anos todas as ruas são tristes. Nada resulta. Volta-se para casa com o mundo inteiro a doer e, por vezes, só no quarto encontramos o isolamento pacificador. Ainda assim, fica-se com uma sensação de desconforto, uma inquietação que não se consegue explicar. Mas ali, longe das perguntas e das solicitações, pode estar a salvação. Fecha-te no quarto, liga o teu som e ouve sempre - sempre - os Xutos. Vais ver, o sol brilhará.

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um mundo-cão

por jorge c., em 04.09.15

Sentado numa charmosa esplanada na rue des Abesses, abro sem entusiasmo o Le Figaro, mas não consigo deixar de reparar numa fotografia de dois indivíduos a tentar passar por baixo de uma rede de arame farpado. A imagem tira-me o apetite e resolvo concentrar-me no pequeno grupo que se encontra na mesa do lado: um homem nos seus trinta e poucos, incrivelmente parecido em tudo com Serge Gainsbourg, acompanhado por duas amigas, um pouco mais novas e enérgicas. Enquanto as duas raparigas vão esgrimindo frases espúrias, num duelo de sensibilidades, num contra-relógio pela mais adequada e correcta das ideias conformes ao cânone, o rapaz vai olhando no infinito, fumando em câmara-lenta o cigarro da grande urbanidade. Depois, com um sentido de oportunidade admirável, interrompe-as com comentários despectivos, quase assassinos, que elas recebem com deslumbramento. Não parecem estar autorizadas a utilizar os telemóveis na presença desta ilustre luminária de Montmartre, limitando-se a comentar um artigo no Libération onde o colunista cogita sobre a importância das palavras "refugiado", "migrante", "humanismo", com a assertividade dos profissionais da opinião. A mise-en-scéne fascina-me. Olho-a com uma ternura cínica, ou talvez só com cinismo, e acabo por me rever naquele sósia de Gainsbourg que todos os dias se senta na esplanada do Le Sancerre a pavonear uma atitude snob. E então somos dois snobs na mesma esplanada da rue des Abesses, desprezando as trivialidades das raparigas e das colunas de opinião, desprezando toda a gente que não viu as perseidas da razão e da humanidade, admirados pelo deslumbramento de duas tontinhas que só querem ser úteis à vida, não sabendo bem como. E então já somos quatro, já somos um bistrot inteiro, todo um bairro, uma cidade e um país a tentar ser úteis à vida sem saber como, à procura em desespero, sem saber nada. E então invejo tudo isto. Invejo a admiração pelo Gainsbourg, a inocência das tontinhas, a esplanada do Le Sancerre, o colunista do Libération e um outro do Figaro, o homem que sai do Grenier à Pain com o lanche debaixo do braço, os dois activistas que distribuem panfletos sobre a crise em Calais e sobre o livre-trânsito do grande capital, no outro lado da rua, a família que se apressa para entrar numa pequena sala de teatro de Montmartre e todo este conforto sem culpa que só o cosmopolitanismo consegue oferecer. Invejo a sensação de estar vivo de Sayid, os dilemas de Bassel e o pragmatismo sem fronteiras de Rasul. Certa noite, sonhei com estes homens, atormentado pela culpa, pela impotência e pelo cinismo. Imaginei-lhes o rosto, a pele e o nervo. Mas o meu incómodo era tão cómodo como o de todos os outros que, tal como eu, perdem o apetite com fotografias nos jornais, entre dois copos de vinho e meio maço de cigarros. Pouco antes de chegar a casa, reparei na carruagem de fim-de-tarde com destino a La Défense. Um mundo inteiro lá dentro. Todos os rostos do mundo fechados no seu mundo, como um cão que morde a própria cauda para acabar com a sua inquietação. Vi o meu reflexo na janela e lá estava eu acompanhado por todos esses cães, a morder a minha cauda como se fosse acabar com todas as inquietações do mundo, às voltas. Entrei em casa, deitei-me e não pensei em mais nada.

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um mistério

por jorge c., em 02.09.15

Sayid salvou-me o dia. Faço o caminho contrário à história da sua chegada, em busca da fonte. Falou-me de um homem chamado Bassel. É ele a chave esclarecida que procuro, entre o drama desta gente que espera na vertigem da vida, os meandros do tráfico de pessoas e a origem da tragédia. Sentado junto ao canal, cansado e resignado, o sírio traz no rosto todos esses mistérios - a verdade sobre o mundo. Não o posso ajudar mais. Não posso levá-lo para casa, como quem resgata um cachorrito no canil para se sentir em comunhão com o cosmos. Dois homens olham-me com desconfiança e segredam entre si, deixando bem claro que é de mim que estão a falar. Não lhes faço a desfeita e afasto-me. Procuro mais um testemunho. Encontro um homem do Conselho Belga para os Refugiados, não muito afável. Diz-me umas quantas banalidades e arranja uma desculpa para sair dali. Não parece haver ninguém aqui que não tenha um ar comprometido. Talvez Bassel me ajude a compreender. Irei encontrá-lo em Paris. Prepara-se para embarcar para Berlim, onde a família o aguarda.

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a rede

por jorge c., em 01.09.15

- Se não fosse tão feia, saltava-lhe em cima.

- A tua irmã também é feia e já meia Paris lhe saltou em cima.

- És um cão de merda, Rasul. Já te disse que não te admito que fales da minha irmã.

- Pois sim. Despacha-te mas é a limpar isso e vamos embora. Não fosse esse teu apetite voraz, não tínhamos de estar sempre a mudar de sítio e a justificar estes incidentes ao Belga.

- É um paliativo. Elas vão morrer e vão...

- Um paliativo é quando é consentido, meu animal. Se o gajo nos fecha a porta, a seguir abrem-nos uma cela. E antes de lá entrarmos, apagam-nos. E desliga-me essa merda dessa música.

- Assassin de la police! Uh! Uh!

Dois cadáveres adiados precipitavam-se, agora, para bem longe dali. Apesar de tudo, Johnny mexia-se bem na rede e Rasul ainda ia precisar dele antes de regressar ao norte. Era preciso limpar o desleixo de Bassel com o primo da namoradinha. Depois disso, teria de recuperar o dinheiro perdido na última operação e reconquistar a confiança do Belga. Pela primeira vez, tinha medo. Metera-se demasiado no assunto. Ao início parecia uma coisa simples - fazer meia-dúzia de contactos, arranjar informações, vender informações. Nem precisava de sair da cidade. Tudo sob controlo, até ao dia em que mais gente quis ganhar com isto e começaram a apertar com ele. Agora eram agentes oficiosos de órgãos oficiais: políticos comprometidos; polícia facilitadora ou dificultadora, conforme a recompensa; organizações internacionais; o Belga; e Bassel que, ao ignorar todo este novelo, achava-se Moisés, um herói do seu tempo, investido por uma moral superior que justificaria todos os seus pecados. Por outro lado, havia Johnny, um albanês mercenário a quem os nacionalistas franceses pagavam para criar cenários de criminalidade, ou a quem os grupos terroristas recorriam para recrutar miúdos nos bairros de Paris. Era através desses contactos que Johnny conseguia informações para passar gente nas fronteiras e, por vezes, mais além. Mas, para isso, cobrava um pouco mais, reivindicando os corpos já sem força de mulheres desfeitas pelo terror. "C'est la vie", desdramatizava. Havia que regressar a Calais, pagar ao Belga e pirar-se para Tarifa, destino ao qual acabaria por nunca chegar. 

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bassel

por jorge c., em 31.08.15

Querida Nasmah,

 

Que as minhas palavras não te assustem. É tudo o que desejo. Só agora consigo responder à tua mensagem em segurança. Ficámos retidos em Lens nos últimos dias e se Rasul não se tivesse mexido através da rede ainda lá estaríamos. Alterámos a rota do norte. Calais não é mais seguro. Em Itália já não passa ninguém e na Grécia há milícias organizadas pela extrema-direita que vigiam armadas os pontos possíveis para o desembarque. Assim que as novas rotas são anunciadas nas televisões e nos jornais, como se fossem atracções turísticas, a passagem inviabiliza-se. Há cerca de duas semanas, uma dessas milícias fez-se passar por uma organização de ajuda humanitária e conduziram perto de cem desgraçados para as montanhas. Morreram todos. 

Sayid e os outros já estão a salvo. Por pouco não conseguíamos. Não lhes cobrei nada, não fui capaz. Também não lhe contei da Grécia. Disse-lhe que era tudo mentira. Mas no sítio onde ficaram ninguém me conhece. 

Com estas complicações todas e com os negócios nos Balcãs, talvez a rota do Adriático seja a melhor solução. Falei com Loran. Já não o contactava desde a operação das Raparigas de Trieste. Se lhe transportar dois carregamentos para Tarifa, ele aceita fazer a costa toda com eles. "Sem precalços", garantiu-me. No fundo, garante-me é mais dinheiro. A polícia está mais cara. Os tipos que faziam a rota do leste já foram à vida. E os jornais, coitados, ainda acreditam que "o motorista ainda se encontra em fuga". Quatro camiões na mesma zona, só por mera coincidência. 

Todas as noites, querida Nasmah, quando o medo me perturba o sono, dou por mim a pensar que tudo isto é uma nobre causa, uma ajuda aos irmãos aflitos e desesperados. Mas depois, em cada lugar, lá está a tua terra prometida, essa Europa de que tanto falas e onde não habita senão a miséria do espírito, o lixo das almas, o fanatismo, a corrupção da autoridade, a ajuda só com compensação e o oportunismo dos tipos como eu, que vivem deste caos instalado. Adormeço como um moralista de mim mesmo.

Lembrei-me dos fins de tarde ao sol em Tel-Aviv, antes de Ezra aparecer nas nossas vidas. O mundo era, então, tão grande que nos banhávamos de imensidão. Agora, tudo parece um labirinto de cobaias, estreito e limitado. 

Assim que chegar ao sul volto a escrever-te. Se chegar. Não esperes nada.

 

Bassel

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passagem

por jorge c., em 28.08.15

Depois da queda, levantar de novo, agora encharcado. Os outros já lá vão, um pouco mais à frente. Ali estão. O corpo já se vai habituando a não se erguer demasiado. O que serão aqueles latidos ao longe? Alerta, sempre alerta. O pior já passou. Mais arame, menos arame, vai ficar tudo bem. Aya também ficou para trás. Queixa-se de um tornozelo. Sinto-lhe o sangue e o suor onde antes era só pele, seda e jasmim. Temos de continuar. É preciso evitar a luz. Cada vez menos invisíveis. Continuemos. Limpo-lhe o sangue e guardo o lenço. Dentro de duas horas Bassel estará à nossa espera na outra margem do rio para nos conduzir até ao nosso contacto do sul. Teremos de confiar. Os latidos regressam. Temos de confiar. Precisamos de confiar. Um homem que nos deu comida na última paragem contou-nos que, há umas semanas, apanharam uns tipos do norte que se faziam passar por voluntários de uma organização qualquer. Levaram um grupo para uma zona mais montanhosa e fizeram-nos desaparecer. Ninguém sabe deles. Bassel diz que é mentira, que inventam coisas por causa do medo, que preferem ver o nosso medo e que isso diminui o seu próprio medo. Somos lobos de matilhas diferentes. Uns mais cães do que outros. Não penses nisso agora, não te ergas demasiado, não te insurjas, é preciso continuar. Agora é uma criança a chorar. Uma vontade indomável de a esganar apodera-se de mim. Temos de sobreviver. É preciso continuar para sobreviver. Não te ergas demasiado, não penses na criança. Vai ficar tudo bem. Já falta pouco. Ainda falta tanto.

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toxicidade

por jorge c., em 28.08.15

O verão desparece pela manhã. Um nevoeiro abafado invade o quarto, a intimidade dos lençóis ainda quentes e o reflexo de um rapaz e de uma rapariga sonolentos no espelho. O cheiro do monóxido de carbono ameaça o dia. Entre a cidade e o céu, paredes de betão e um ruído exasperante de embalar, como num disco dos Massive Attack.

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Deveríamos pensar sempre em que medida olhamos para as coisas, qual a escala de relevância que damos aos objectos, aos espaços, aos hábitos ou à nossa privacidade. Um artista cria sobre a medida das coisas do mundo. O seu alcance é ou será tão maior quanto a sua originalidade. Por vezes, ultrapassa todos os limites. Certa noite, sonhei com uma cidade modernista sem ainda conhecer Charles-Edouard Jeanneret e, quando o conheci, calculei que fosse possível uma vida inteira a construir o nosso espaço e a medir a nossa intimidade. Da pintura à arquitectura, Le Corbusier desenhou um esquema para a qualidade de vida e para a relação harmoniosa do espaço íntimo e do espaço público. Ao entender estes dois princípios complementares, o arquitecto passou para um patamar mais elevado, ao qual alguns poderão chamar de arte. Este ano, o Centre Pompidou dedicou uma exposição à vida e obra de Le Corbusier. A exibição concentrava-se mais na ideia artística abstracta e na natureza dos movimentos artísticos do que na arquitectura em si mesma. Esta concepção permitia ao indivíduo comum compreender a arquitectura, mergulhando na sua génese e criando para si uma ideia para as suas próprias medidas e, talvez, para as do mundo. Sem polémicas e em perspectiva, esta foi a celebração do espírito da arte que, de resto, nos daria muito jeito por cá. 

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rede social

por jorge c., em 26.08.15

Célia. É assim o nome da mulher que, convencida da sua insubmissa sagacidade, se recusa a ir em modas. Não come sushi, não bebe gin, ou por outra, bebia-o quando não era moda e qualquer um servia - grandes tosgas nos bons tempos dessa zona que agora também está na moda. O jogging e o gourmet, então, parecem-lhe uma perfeita patetice, mas o que ainda a irrita mais são as ondas de indignação, solidariedade e evocação de figuras públicas que vão morrendo, porque só depois da sua morte se lembram delas. Estas e outras observações têm sido partilhadas na sua página pessoal, numa rede social onde mantém, mais coisa menos coisa, perto de 650 amigos, e contam neste momento com mais de 300 anuências e comentários solidários. Não obstante a sua consciente e frequente participação neste universo, Célia considera ridícula a preferência pela utilização destas ferramentas modernas em detrimento do convívio social e, apesar da sua frontalidade, honestidade, sinceridade e bonomia, reflectidas nas mais variadas citações anónimas e imagens de paz e amor, não evita por vezes mensagens subliminares aos seus colegas de trabalho que "passam o dia nisto". Ela bem os vê. Quando chega a hora de sair, vai para casa, prepara o jantar e senta-se no sofá onde permanece até se deitar, esperando a primeira insónia da noite.

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teoria minimalista

por jorge c., em 25.08.15

Não sei se é a natureza das palavras que convoca o desentendimento, se somos nós que provocamos a sua ambiguidade, conduzindo as conversas ao fracasso. Cada frase dita, um prostíbulo de palavras que já nem a semântica salva. Demasiadas palavras, longas e excessivas frases, confusas, nervosas. Do outro lado, o outro recebe-as como balas, imaginando primeiras e segundas intenções, até que a subjectividade nos separe. Para sempre. Há tantas palavras como sensibilidades. Já pouco medimos umas e outras e, avançando como quem avança pelo meio de um acidente dessas corridas de carros americanos, seguimos perdidos e desentendidos na imensidão do universo. Reparo agora no dramatismo e na gravidade ridícula das minhas palavras e desejo nunca as ter dito. 

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Num outono que me parece já algo distante, entrei num pequeno cinema de bairro para ver a Sonata de Outono. Estava particularmente lúcido apesar da chuva, da gabardine encharcada, das despesas do amor e da segurança social. Bergman em Bergman. Outono no outono. Todos os paralelismos do mundo numa pequena sala cheia de clientes de ciclos, aos círculos, de clientes de sonatas diárias, de prelúdios infinitamente tristes, de tristezas infinitamente diárias em prelúdio, aos círculos, como aquela expressão infinitamente circular de Charlotte enquanto ouve Eva a tocar um prelúdio de Chopin, essa expressão que era imensa e invasiva e que acabava por nos agoniar o peito. Quando saí não era mais lúcido. Desci a rua e entrei no carro seco apesar da chuva, da gabardine encharcada e do rosto perdido de Ingrid Bergman.

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pequenas felicidades

por jorge c., em 24.08.15

Todas as manhãs de Agosto, Nadir acorda angustiado. Talvez porque pense demasiado na felicidade, vai recordando outras manhãs menos tensas, menos angustiantes, todas elas diferentes, tons de felicidade diferentes, pequenas felicidades que juntas lembram uma única e sublime manhã. Chovia nessa manhã em que sentiu as gotas gordas da chuva na cara, por entre os pinheiros de um bosque quase irlandês. Como se agosto não fosse Agosto e fosse antes Augusto de tão divino e luculento. E o cheiro das madressilvas misturava-se com o do papel molhado e do whisky da noite excessiva. E enquanto os outros ressonavam nos quartos do casarão vetusto, eu era feliz a ouvir Elis a cantar a madrugada, entre um e outro cigarro, sem angústias, apenas alguma melancolia. Nadir pensou na feliz melancolia. Tenho pensado na feliz melancolia. Pensado na felicidade. Coisa ridícula.

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intelectualidade

por jorge c., em 12.08.15

"É evidente que o meu conceito de intelectual não se confunde com a jactância de algumas pessoas que se julgam pertencentes a uma espécie superior, a uma aristocracia que tivesse substituído a cor do sangue, ou o volume do dinheiro amealhado, pelo saber, como elemento de discriminação social. Para mim, o intelectual é o que sabe interpretar, porque o vive, o real com um pensamento mais elaborado do que a maioria das pessoas, no sentido de concorrer, à sua maneira, a um mundo outro, mais fraterno e mais justo."

Tenho pensado nesta ideia do Prof. Manuel Sérgio sempre que o tema da conversa é uma disputa entre o ser pragmático e o ser intelectual. Na verdade, hoje ninguém se quer assumir como intelectual e, ainda assim, tantos que gostariam de o ser. Sem ressentimentos. O ser pragmático não gosta do intelectual. O intelectual ou bem que é um presumido ou um tímido, com vergonha da intelectualidade, e despreza o pragmático. O pragmático devolve-lhe com a acusação de lirismo, misturando literatura com pensamento, numa demonstração inequívoca da sua falta de intelectualidade. É como se usássemos o pensamento para fins meramente utilitários, como arma de arremesso ou distintivo.

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os dias do tédio

por jorge c., em 11.08.15

Entre as três e as quatro da tarde passo a mais fastidiosa das horas do dia e com indulgência ignoro as banalidades e o ruído. Dou lugar ao tédio e à inquietação e assim se passa um pedaço sério do dia. Em casa, esperam-me os livros que são, por estes dias, as únicas férias que tenho. 

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