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mulheres e burros

por jorge c., em 24.06.14

Subiram o monte, pela fresca, com a procissão. Carregavam os farnéis nas costas; as mulheres compenetradas na reza ao Senhor Jesus e a rotina dos dias em que o pau não folga nas costas a ficar para trás. Seguiam animados, estrada fora, com os casebres a desaparecer por baixo dos silvedos e, ao passar as águas férreas, libertavam o cansaço das pernas com as judiarias do costume:

- Eh, Chico! Olha q'o barril vai furado.

- N'andasses tu a cheirá-lo desde a madrugada.

- É porque acordei cedo. Quem muito dorme, pouco aprende.

Chegados à romaria, abancaram junto das sombras e, antes de estenderem os ossos nas mantas, entraram na pequena igreja com os bonés na mão, com as mulheres chorosas dos filhos perdidos para os poupar a todos da fome, com a fé inabalável dos inocentes. Perdoai-os, Senhor, que o pecado é a vida possível dos homens. E logo de seguida esqueceram a dor e beberam e dançaram e gargalharam. Homens de rosto rude, com um ar tonto e um passo ébrio; burros de carga das coisas pesadas da vida, sem queixume; mulheres da carga pesada dos burros.

Tristezas à parte. A tarde passou. Ficam agora no cimo dos montes a sentir o desequilíbrio do vinho para equilibrar o espírito ao som da toada da cidade e dos campos. Com a Sua benção.

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mestiça

por jorge c., em 23.06.14

Uma cidade mestiça é uma cidade mestiça e não há nada a fazer. Todos os dias somos coisas diferentes. Umas vezes homens do rio, outras do campo e outras ainda dos montes. Acordamos no meio desta cidade a querer ser muita gente, a querer ser gente. E então fala-se alto, gesticula-se, como se cada momento fosse o derradeiro, na ânsia de se ser notado, e o que parece uma vaidade é só o medo da insignificância. É um medo que se transforma em tensão que nos amarga os corações. É gente rude, dizem. Mas, como, se a cada olhar cruzado com o rio, a cada movimento da muleta, a cada respirar dos bichos, a cada compasso fandango, os olhos se deitam sobre a vida como velhos amantes que se tocam com gestos de cuidado?

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o bairro

por jorge c., em 20.06.14

Pelo final do dia, dexei a cidade para trás, entusiasmada com o jogo e na euforia do início de verão. Subi a encosta a cambalear para casa, numa subida espiral e lenta, exausto dos dias e das coisas que os dias trazem, sem encarar os prédios que se erguem esguios como se se estivessem a inclinar para os céus. Os prédios são espinhos no meu cenário e o meu bairro uma nuvem negra sobre a cidade. Pela noite, o silêncio dos montes suspende a fealdade das ruas e a vida adormece proletária. Não havia sentido, até ontem, o coração do bairro. Sentei-me, como sempre, numa cadeira de verga a fumar as horas que faltavam. Pela janela entrou um som até então estranho. Uma mulher dirigiu-se às ruas, da sua janela.

- Mariana, olha as horas!

Eram, agora, 22h30 de uma noite de verão. Cheguei-me à janela e fiquei a olhar para a rua. O bairro acordou do coma e as crianças brincavam cá fora. Mais à frente, dois homens passeavam os cães e ainda se ouvia o ruído do café. O bairro era bairro outra vez, como o fora no tempo das centenas de pessoas que chegavam desnorteadas daquele invernoso retorno e que aqui recomeçaram, para regressar à vida, à tona, para respirar, para voltar a ser gente e ser bairro de gente e de vida que é vida decente. 

Estendi-me na cama e os olhos fecharam-se, suavemente. Acabei por adormecer e pouco me lembro dos sonhos. O dia seguinte começou tranquilo.

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a universidade desconhecida

por jorge c., em 18.06.14

À saída do prédio, a vizinha queixa-se que o tempo está abafado. Cá de cima vê-se o Tejo a evaporar como uma bruma vespertina de Outubro, as margens transpiradas, os salgueiros de cor entediada. Estou a ouvir o Avalon e a pensar em Barcelona. Há um ano que não vejo Barcelona. E então lembro-me dos encontros com Bolaño no Raval e a vontade de ser eu a dizer as suas palavras em cada passo, em cada rua. Dizer as palavras todas e o calor a subir no corpo como uma vontade de libertar o aperto no peito, esse aperto das cores dos prédios de Barcelona, tão diferentes do meu prédio suburbano. Fui procurar Vila-Matas, como há um ano o procurei em todas as ruas que me havia dado a conhecer e repito Avalon como ele repetiu Bela Lugosi is dead. É nestes dias que gostava de estar acompanhado pelos dois, sem medir os passos, caminhando e vagueando pelas ruas que irradiam para praças de gente, ignorando ainda os cabelos cor de seara da rapariga do cais, pensando em Chet Baker a pensar na sua arte, no meio da humidade e das cores dos prédios de Barcelona - a universidade desconhecida.

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a viagem

por jorge c., em 16.06.14

Tenho passado a vida numa viagem. Fiz esta viagem tantas vezes quantas as possíveis, como se quisesse regressar a um lugar onde nunca estive. O comboio partiu sempre sem pressa mas, o meu corpo, agitado, angustiava nervoso a cada casa que descaracterizava a paisagem idealizada. Passei veloz por todo esse caminho, as casas paradas, a ficarem para trás, enquanto o meu movimento era um fio de tempo inquieto. Foi o tempo das cidades, da pretensão urbana em ser vida decente. Foi o tempo das exigências e das solicitações impacientes que congestionaram o espírito em hora de ponta.

Cada viagem que fazemos deixa-nos mais longe da origem. Porque sempre que regressamos somos outra gente e outros lugares dentro de nós, um outro mundo que nos define noutras formas até à imperfeição final. Na verdade, nunca serei o mesmo no mesmo lugar mas, aqui estando, agora, sinto-me a ficar como se de um regresso decisivo se tratasse. 

Faço a viagem novamente e vejo as casas e as árvores e os campos a passarem velozes e eu a ficar. Da janela, vejo o horizonte fixo e um sol a pôr-se razoável para os olhos lentos. Todas as outras janelas da carruagem estão fechadas, os olhares impacientes e o pânico do reflexo da luz lá de fora nos monitores dos computadores; um trabalho para concluir antes de visitar a família, um negócio mal fechado, uma conversa interrompida durante o arranque do comboio sobre as relações online, o filme sacado, o jogo circular. Passam velozes pela paisagem, pelos lugares e pelo céu sem fim. Vão perder o pôr-do-sol e o cheiro da fuligem na penúltima estação que nos permite sonhar com o que nos espera, que nos ilude sem certezas ou nos angustia com a certeza da incerteza. É essa a impressão debaixo da pele.

Este é um breve diário escrito na borda d'água das pequenas vilas e cidades do Baixo-Tejo, onde a lezíria se estende até ao infinito, ao meu infinito pessoal. Um diário único de ficções que se estreia no Bloomsday, por mera coincidência mas, que será sobre as mesmas dúvidas.

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