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entre a terra e o céu

por jorge c., em 30.12.14

O que fica na memória não se manifesta no imediatismo do tempo. A matéria que a alimenta é lânguida e a sua luz uma estrela rara. Para ser memória tem de ser tempo. Dentro desse tempo, entre a terra e o céu, estão a realidade e os sonhos. E porque os sonhos são a memória da imaginação, que é cúmplice do real, os registos são meras formalidades. O ano civil representa pouco na nossa relação com o universo, não obstante os breves episódios transcendentes como a morte, o amor, a ebriedade, a manifestação artística ou a descoberta. A cultura da novidade per si está a transformar o mundo num lugar vulgar, mais pobre e menos consciente. Quando um indivíduo resolve anotar as suas preferências numa folha de papel em padrões de 10, no fim de cada ano, está a limitar-se e a impedir-se de perceber o que, de facto, há de novo nele e como o mundo se transformou perante os seus olhos. O ano que agora termina foi igual a todos os outros mas as revelações - essas sim - foram diferentes. Na borda d'água vi o reflexo das cores, ouvi as sonatas para viola e piano do Shostakivich e, de certo modo, fui celebrando a vida entre a angústia, o tédio, a alegria e o entusiasmo das ideias, do amor e de todos os sentidos. Viajei entre a terra e o céu algumas vezes e foi na memória que encontrei a justificação para tais viagens. No fim de contas, sou um balanço de mim mesmo.

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metamorfose

por jorge c., em 15.12.14

Viver num tempo em que se compreende a gravidade de uma depressão na perspectiva clínica é fascinante. Não nos pode, no entanto, desviar a atenção do nosso entendimento do outro. O paciente da depressão enfrentará um período de convalescença dos mais longos que a medicina conhece, porque esse período não é apenas o da conclusão clínica do caso, mas o do renascimento do próprio ser dentro da sociedade, com novos mecanismos de defesa e, com toda a certeza, com a sua nova percepção das coisas. Talvez lhe pudéssemos chamar um homem novo, na medida em que se libertou dos seus bloqueios ou se fechou para sempre do exterior. Transformou-se. O pós-deprimido é, por isso, o resultado da metamorfose. 

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entre o céu e a terra

por jorge c., em 15.12.14

Enquanto o prédio dorme, vou pensando no céu e na terra. Emociona-me o sono dos outros, ou as suas insónias de pranto, desespero, de amor, felicidade e serenidade. Talvez nestes andares todos não esteja ninguém a pensar no céu e na terra e estejam, sim, a tentar sobreviver aos seus caprichos. É como estar com os pés no céu a observar os outros com os pés na terra. Depois de uma ligeira inveja, começo a assumir a condição e deixo-me adormecer no infinito.

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subúrbio

por jorge c., em 12.12.14

Segue João com o sapato novo, novinho a estrear, pela rua fora, todo vaidoso. E dizem os outros homens "lá vai o vaidoso do João, de sapato novo, deve andar cheio dele para andar a passear". E vai mesmo vaidoso, olhem para ele, fim do dia que o patrão deu, de folga - um mãos largas - que a chuva não é boa para a obra, só o dinheiro faz falta, mas que se foda, só desta vez, que também merece o brilho do sapato novo porque com ele brilha o olho e o espírito. E agora sobe o João até ao bairro bem lá no alto, a cidade cá em baixo, retiro do bom na tarde invernosa, no calor do peito de Vanda, de amor e sapato novo. Na cabeça do autor, ouve-se Futecêra D'Cor Morena do grande Travadinha. E foi tudo poesia.

 

 

para s.

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Acordo de manhã e vejo-te no espelho. Não vais para novo. Reparo numa ligeira dificuldade em erguer o corpo, o que será o resultado de uma breve vida de excessos. Não és assim tão velho. Tens peso a mais, perdeste o cabelo mas os olhos ainda brilham com orgulho. Talvez ainda te lembres de nós, quando esqueces as rugas das expressões e o passar do tempo pela pele. Sei que te interrogas todos os dias sobre a figura reflectida, mas garanto-te que aquele és tu e não há nada a fazer. Conforma-te com as consequências da adultícia. Estás sozinho e a melancolia da quarta década é, agora, a dos amigos e dos momentos em que poderias ter mudado o rumo. Pensas na tua consciência como uma virtude e sorris com humildade, como quem fez o possível. Gostas da minha memória e admiras as ruas como elas eram. Por isso, és um conservador. Cultivaste um espírito lúcido e lógico e, não raras vezes, ris-te das irritações e fúrias com assuntos menores. Por vezes, julgas-te um rapazinho e isso ajuda-te a conservar o brilho nos olhos, o sentimento visceral de justiça, de liberdade, de igualdade e de esperança. Acreditas euforicamente no amor e amas incondicionalmente os teus pares, cujos defeitos e virtudes identificas com o desprendimento de quem não tem paciência para fazer julgamentos. Sabes, porém, que a proximidade física é efémera. E apesar de revelares a tua intimidade, és intolerante com a invasão do teu espaço que é uma montanha isolada e que cresce no infinito. Hoje estás especialmente triste. Vês os amigos a desaparecer, o mundo à tua volta a andar aos círculos e ninguém parece saber o que fazer. É por isso que desististe de desfazer a barba, como se diz no Porto, e viver o possível na Borda d'Água.

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