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utopia do sossego

por jorge c., em 26.04.15

Lá longe, onde a ambição se transforma em sonho, esse lugar que provoca impressões na barriga e reaviva o bater de perna impaciente de criança, vejo um bosque, tudo verde, talvez mar e rochas e falésias, talvez ilha, talvez monte; vê-se uma casinha e sente-se o cheiro do café da manhã, os cães ou os gatos preguiçosos, os jornais, os livros por começar e os edredons desarrumados, um braço estendido sobre a cama, adormecido, leve, suave, como se todos os dias fossem domingo.

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fadistices

por jorge c., em 22.04.15

A primeira vez que o vi foi numa casa de fados ali na Artilharia 1. Parecia meio deslocado quando chegou, um desgraçado que vinha cantar o fado. Sentou-se ao pé de mim a fumar e pouco falou. Tinha um ar humilde e, de certo modo, subserviente. Confesso que me fez pena. Dava ares de quem trazia fome e que, talvez depois de cantar 3 ou 4 fados, lhe pagariam qualquer coisinha para se aguentar mais 2 ou 3 dias. Ontem vi-o numa capa de revista, com ar de velho do mar, sabido e confiante.. Pousei a revista, sorri para mim mesmo e lembrei-me de uma dessas canções de borda d'água que o tornaram famoso:

 

"Põe o negro xaile

solto nos teus ombros.

Quero ouvir cantar.

Porque em minhas mãos

Há uma guitarra

Pronta p'ra trinar."

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novas oportunidades

por jorge c., em 21.04.15

Pouco depois da intervenção estética em 2002 - restiling, para os mais novos -, o café "Pampilho", propriedade de Zé Alves, vítima de um AVC aos 78 anos, abandonou o seu registo de taberna para dar lugar a uma cafetaria de meia-idade. A filha e o genro, trabalhadores por conta de outrem até então, decidiram pegar no negócio e fazer daquilo uma coisa mais moderna e com asseio. "Não quero cá bêbados e drogados e isto agora é que vai ser uma coisa como deve ser". Mai'nada! Mas foi quando Patrícia começou a trabalhar de empregada de mesa que o Pampilho ganhou prestígio na praça. Experiência na área, bom relacionamento e foco no cliente, tudo características fundamentais para o exercício das funções - o perfil de trabalhador adequado, segundo as melhores revistas da especialidade, todas as quintas-feiras nas bancas com o seu Correio da Manhã. Em breve, o estabelecimento tornar-se-ia um centro de dia, um salão de chá de senhoras com idade para fazer exigências e serem tratadas como marquesas. Patrícia tratava-as com o carinho de uma neta, brincava sem ser inconveniente e por vezes era até irreverente nos comentários. Muito boa rapariga, era a opinião generalizada, não obstante os atrasos, a cabeça sempre noutro lugar, um pouco longe dali, duas linhas de transportes, mais 10 minutos a pé, um namorado que às vezes era, outras não, a cama vazia e os olhos confiantes e sorridentes da tarde transformados numa praia de lágrimas pela noite, até à manhã seguinte, o peso nos olhos que atrasava o despertar e o ar de noites longas aos primeiros cafés da manhã. "Anda nas noitadas" diziam todos os dias, como um mantra de quem reforça uma ideia tantas vezes quantas as possíveis para se esquecerem dos seus próprios pecados. Se era assim tão alegre, não devia ser, porque tanta alegria era tontice ou hipocrisia, dependia para o lado em que estivessem virados - eles, os monstros de Patrícia, na voz dos patrões ou de uma outra velha mais ressentida. No dia em que Patrícia foi encontrada caída na cozinha já não havia grande esperança em lhe provar que o mundo não era só aquilo. 

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um problema de abstracção

por jorge c., em 08.04.15

Estou a sofrer as consequências do Realismo, como quem perde faculdades pelos excessos da vida. As horas passam e a ideia do poema fica a moer no rancor e o poema não floresce, maior do que a vulgaridade, maior do que o ressentimento. Não há imagem para a angústia que não seja somente melancolia banal. Não há nada que transcenda a melancolia e revele a angústia com um rasgo de tragédia. 

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aos poetas e outros artistas

por jorge c., em 08.04.15

Todo o lirismo conhece o seu limite no momento de pagar a Segurança Social.

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