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verão

por jorge c., em 25.06.15

nem toda a sombra é escura

nem todo o raio de sol ilumina

a sombra passa a ser frescura

quando a luz na pele fulmina 

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da cultura

por jorge c., em 23.06.15

Decidi há algum tempo que o meu filme preferido de João César Monteiro é Veredas. Ao longo desta narrativa tão difícil, o país vai surgindo lentamente, entre a autenticidade do folclore, a espiritualidade e a ética da tradição. E é aqui que concluímos que o folclore que se vai transmitindo de geração em geração tem uma nobreza natural que a tradição imposta pelo provincianismo, no pior dos seus sentidos, nunca poderá atingir, pois a sua principal preocupação é devastar tudo em volta, construir sobre a natureza, dominar, restringir, até conseguir, por fim, criar um dogma cultural, uma ilusão a que muitos se submeteram e que deixaram de questionar. Por entre os caminhos inóspitos de um Portugal pouco consciente da sua origem, Veredas é um ensaio idiossincrático que vai à procura da raiz do povo e do seu território através de uma luz e de uma cor que o país reserva apenas para os seus amantes.

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meteo

por jorge c., em 19.06.15

Está calor, todos sabemos, não é novidade que em Junho há calor, muito calor, mas Março parece ter sido ontem, com as reclamações sobre a chuva e o vento e o frio, queixumes, previsões, conversa de corredor entre os colegas na hora do café, que é para não se falar da desgraça que para aí anda, são coisas tão recentes que agora ninguém se atreve a manifestar grande incómodo com o estado do tempo, este calor, tanto calor, que já nem essas conversas alimenta, essas previsões - lá está - do boletim metereológico para a semana que vem, ah! que na quarta-feira já está melhor e no domingo afinal diz que 'tá chuva, é do anticiclone, dizem eles, e lá vai o tempo passando, mas agora ninguém quer mais melhorias do que isto, deixa estar que assim está bem, não vá o diabo tecê-las e a gente depois nem respirar consegue, uma banhoca é que era, na praia, e o fim-de-semana a chegar, as praias à pinha, o rapaz pequeno que quer ir ver não sei o quê, se der tempo, que a casa não se limpa sozinha, para o ano compra-se o ar-condicionado, se der, que já não se aguenta isto e ainda agora começou, mas deixem lá isso, é do tempo. 

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o homem normal

por jorge c., em 19.06.15

Dário Fagundes vive do outro lado da cidade e atravessa todos os dias a grande avenida para chegar ao seu destino. São, neste momento, 15 horas e 33 minutos, numa vida tremendamente aborrecida. Nada mais há a dizer sobre o dia de Dário Fagundes que, dentro de duas horas, abandonará este edifício, regressará a casa e ali permanecerá até às 21 horas, altura em que levará o saco do lixo ao contentor. Aos fins-de-semana, Dário Fagundes come batatas fritas e pouco mais há a apontar, a não ser que não é infeliz, apenas existe sem qualquer interesse e só não acaba com isto porque ninguém lhe garante que do outro lado não será pior.

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a carta

por jorge c., em 15.06.15

Enviei uma carta da qual jamais me poderei arrepender. Quando a iniciei, já poucas dúvidas me restavam sobre a sua oportunidade e, no momento do envio, as certezas eram inequívocas. Durante essa tarde tomei um banho no tanque do quintal e voltei a pensar nela. Era uma carta como todas as outras: tinha morada e data; o tom inicial era cordato e correspondia às melhores práticas protocolares; o texto obedecia às mais elementares regras da lógica, da coerência, e a estrutura gramatical era, na melhor das opiniões, irrepreensível. Eram seis da tarde. Por aquela hora a carta seguira o seu rumo habitual; pela manhã sairia do posto dos correios, onde um funcionário experiente e zeloso entregaria a correspondência ao carteiro que, por sua vez, atravessaria a cidade e a colocaria na morada do destinatário, a qual eu conferira as vezes necessárias de modo a evitar as maçadas do extravio e das moradas inexistentes. Coloquei, aliás, o código postal completo, pois a referência dos últimos três números é fundamental para a eficácia do processo, segundo aquilo que nos é dito nos serviços e, nestas coisas, não devemos ser nós a provocar o problema já que o interesse não é senão nosso. O cumprimento de todas estas regras acabaria por me despertar um sentimento de satisfação serena. Encostei a cabeça na beira do tanque, fechei os olhos e fiquei a ouvir os pássaros a anunciar o crepúsculo. A satisfação transformou-se num imenso bem-estar e acabei por adormecer ao som de junho, sem sequer esperar que a carta chegasse e pudesse, então, ler aquilo que me havia escrito a mim mesmo.

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No balcão peço um Cutty e um Suave. "Suave não temos". Então pode ser um Chesterfield remediado. Há uns anos um amigo dizia-me que Gauloises era tabaco de existencialistas. Nunca gostei de existencialistas e, na verdade, também nunca gostei de realistas, surrealistas, neorrealistas e parvenus em geral. Ando aqui só pelos cigarros - algo sem grandes conotações -, o uísque é só para não cair tudo em seco. Há também este dilema terrível na escolha do lugar indicado para um gajo se sentar. Se se fica ao balcão, sozinho, parece sempre que se anda ao ataque, ou que se está com um pifo tão grande nos cornos que a solidão que a ele deu origem vai procurar abrigo nos braços desinteressados de uma conversa de circunstância. Se se escolhe uma mesa, dá-se aquele ar pretensioso de quem também não tem muito que fazer na vida, ou de parvo que chega sempre antes da hora, esperando infinitamente pela companhia que há-de vir, o que é capaz de ser bem pior. Feitas todas as considerações, escolho passar por parvo na solidão do balcão, dividindo desta forma o mal pelas aldeias. Uma decisão como outra qualquer, sem grandes compromissos. E é no meio de todas estas preocupações excessivas que me vou distraindo sem prestar atenção à música. Primeiro que tudo acalme, ainda reparo numa mesa com dois rapazitos de fatinho, vindos directamente dos escritórios, quem sabe, que vão discutindo o governo, os problemas da esquerda e da direita, a realpolitik e o mercado, tudo isto com os telemóveis e os tablets à disposição. Um like aqui, um tweet acolá - está tudo a acontecer ao mesmo tempo, é preciso não defraudar as expectativas da comunidade online. Dou uma olhadela no telemóvel, sempre me vou sentido integrado e mantendo a sensação de que estou à espera de alguém. Sem qualquer razão abro a caixa de mensagens e vou lendo algumas delas: "Caro cliente, aproveite este fim-de-semana as promoções que preparámos para si. Até dia 4, todos os produtos com 20% de desconto." Simpáticos. Uma outra: "devo interpretar este teu silêncio de alguma forma?" Talvez da mesma forma que os tipos da primeira mensagem - sem dramas. A música não está má. É o free jazz de outras noites, sentado na marquise a ouvir os carros a passar na auto-estrada e o vento a bater nas janelas. Devolvo o telemóvel ao esquecimento e peço mais um. O rapaz é eficiente e parece não querer contribuir para a possível angústia de uma espera. Estamos todos à espera de alguma coisa, não é assim? Um inevitável cliché dos tempos, tão comum como o desaparecimento do free jazz nos bares; dos bares do free jazz; da simples intenção de nos sentarmos ao balcão a pensar no ritmo da cidade e a desfrutar as cores e as sombras dessa luz tépida que esconde os rostos, sem nos deixar irremediavelmente sós numa noite normal de semana, livre de considerações alheias. E com isto, quinze cigarros, quatro ou cinco Cutty's, era a conta, obrigado e bom dia.

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comunicando

por jorge c., em 08.06.15

Entre significado e significante, há palavras que pairam na angústia das intenções, das interpretações caprichosas dos falantes. E a língua perde-se em explicações. E a comunicação parece um conflito armado. Na guerra das palavras, acabamos por sufocar em silêncio.

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