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a grande depressão

por jorge c., em 16.07.15

Na primeira vez que me tentei suicidar não tive coragem, na segunda não houve oportunidade e na terceira faltou-me o engenho. Ainda assim, fiz a barba, tomei banho e saí. Eram já umas três da tarde, desci a rua e parei para um expresso. Buondi, disse. O homem sorriu e voltou a dizer que gostava muito desse trocadilho, mas só se fosse para mim, porque para ele o dia já estava quase a acabar. "Esteve cá uma rapariga a perguntar por si, perguntou por 'aquele rapaz italiano', mas eu não lhe dei conversa." Agradeci o decoro, paguei e segui até à avenida. Lá em baixo, na praça, uma multidão de quinze manifestava-se em solidariedade com a Grécia. Fiquei por ali um pouco, acendi um cigarro e deixei-me estar a ouvir as palavras de ordem, coisas que o Partido repetira tantas vezes, e eles ali tão jovens, tão iguais uns aos outros, as mesmas vestes, as ideias tão soltas. Murmurei a Internazionale e ecoou na minha cabeça um certo cinismo, como se fosse católico. Deus me livre. E então tocaram os sinos e segui para a estação. Um bilhete para Lisboa, Santa Apolónia, onde me esperam para ninguém sabe bem o quê. Recebi uma mensagem: "Esperamos por ti. Depois, ficaremos por cá." E lá seguiu o comboio nesse passo acomodado da linha norte-sul, tão lúcida e imperfeita, tão rude. Em Espinho, uma mulher senta-se à minha frente e diz o meu nome. Nico. Sim, sou eu. Não, não me recordo de ti de Compostela, nem de parte alguma, talvez demasiado vinho, mas lá tive de a ouvir, as palavras quase sempre excessivas, de um dramatismo adolescente, de uma banalidade criminosa. Falou na Grécia, na Europa, no capitalismo, citou uma poeta portuguesa e acabou por me aconselhar um restaurante "onde vai toda a gente". Depois disto iria para Nova Iorque com um amigo que é artista e que eu devia conhecer porque o trabalho dele versa sobre a condição humana num mundo de opressão financeira. Saímos juntos e ela tentou dar-me o número. Desculpa, não tenho bateria, nem sei o meu de cor. Lá fora, Sérgio esperava-me no carro. Apitou e voltei a ouvir o meu nome. Nico. Caía uma chuva ligeira sobre Lisboa e lembrei-me de Génova e de Atenas e de todos os que de manhã também haviam tentado acabar com todas as banalidades, excluindo-se da vida. Entrei no carro, acendi um cigarro e perguntei-lhe para onde íamos. "Para lado nenhum."

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