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a margem de ferro

por jorge c., em 29.07.14

Os padrões e estereótipos tomaram sempre conta da vida no bairro. Talvez assim o seja nos outros bairros mas, foi neste que Marcos cresceu e conheceu o seu primeiro mundo. No liceu a diferença era pouca. Notava-se nas roupas, nos cabelos, nos gestos e pouco mais. Os dias passavam entre irreverências parvas, glórias fáceis e sofrimentos tão profundos como um filme de domingo à tarde. E era precisamente ao fim-de-semana, ou nas férias, que os espíritos se revelavam, entre a lide doméstica, os desentendimentos familiares provocados pelo incumprimento das regras, os namoros em cima das motorizadas ou os passeios nos carros que ostentavam modificações grotescas ao modelo original. Desenhou tudo isso a carvão e, quando o papel acabou, foi comprar mais a Lisboa, para voltar apenas ao fim do dia, já cansado mas deslumbrado com a urbanidade dos estilos. Numa dessas viagens cruzou-se com um fantasma do passado, uma auto-proclamada rebelde, na adolescência, assumindo-se como "muito frontal" e "independente". Faltava, com regularidade, às aulas, não por irreverência mas, antes, por necessidade. Aos fins-de-semana, Soraia era reclusa de uma história de violência e de obrigações anacrónicas provocadas pela autoridade embriagada do pai. Pouco depois de ter começado a trabalhar na fábrica, ainda se inscreveu num desses concursos para jovens talentos na tv mas, acabou por não passar à fase seguinte, por motivos pouco claros. Perseguiu o sonho de ser cantora, como dizia, por bares de karaoke, de Alverca a Sacavém, chegando mesmo a cantar no Parque das Nações, numa bonita noite de inverno. Na altura, dizia-se que, se procurava sucesso nesta área, era no oeste que apareciam muitos caçadores de talentos e gente ligada ao meio, em fuga da rotina. Foi lá que conheceu o pai do seu filho, que andava desejoso por sair da Malveira para viver mais a cidade, nos arredores de Lisboa. O fim do sonho artístico começaria no banco de trás de um ZX, na Ericeira, e estender-se-ia por toda a vida, como quem tem saudades do que nunca foi, no Bom Retiro. Os breves apontamentos de Marcos, sobre uma anti-heroína suburbana, nunca sairiam do seu bloco de notas. São histórias que não interessam a ninguém.

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