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a praia

por jorge c., em 21.08.14

Todos os anos, Cardoso é coagido a passar férias em Agosto. Não é fácil. A mulher põe-se a ver aqueles programas da tv com as raparigas novas todas bronzeadas - e bem boas, não pode negar - e quer replicar a experiência. A prainha, o sunset, a selfie no sunset da prainha - todo um conjunto de emoções projectadas nos aparelhos da audiência online. Na sua cabeça faz tudo sentido. Mas, Cardoso já sabe como é, um gajo carrega o carro com meia-casa, não vá faltar alguma coisa indispensável à sobrevivência: a máquina dos sumos, por exemplo, 3 ou 4 casaquinhos para pôr pelas costas que pode muito bem correr uma aragem marota, sapatos para as eventualidades (festas e vernissages), cabides para o caso de não haver no apartamento, mais um ou dois cobertores, as coisas da praia (cadeiras, 2 chapéus de sol, toalhas, cremes, chinelos e chapéus) e é uma pena que não caiba uma ou outra pecinha de mobília para nos sentirmos mais em casa. "Eu não te disse que isto ia dar jeito?", dirá ela, por mero capricho, na única vez que utilizar um dos objectos. Duas horas depois arranca em direcção ao Algarve, coisa que mais ninguém se parece ter lembrado até chegarem à ponte sobre o Tejo, porque a maria gosta de passar pelo grande aqueduto, e se aperceberem que estão metidos numa fuga colectiva, como se estivessem a ser evacuados por causa de uma catástrofe ou de um ataque extraterrestre. Chegados a Armação de Pêra - conceitos de Algarve que não iremos discutir por agora - toca a descarregar e subir os 4 andares do apart-hotel sem elevador, cortesia das Construções Alenquer Lda., empresa falida pouco antes da conclusão da obra do poço do elevador. São clientes habituais. Mesmo partindo de manhã, só lá pelas seis da tarde é que está tudo pronto, ficando ainda a faltar a ida ao supermercado e a confecção do jantar. Para este, não será difícil: comida de puta, que é uma escolha mentalmente pouco desgastante neste tempo de repouso. Os ovos com salsichas serão, aliás, a ementa preferencial do resto da estadia, bem como a salada de atum e a pescada cozida, para não perderem a forma, em prejuízo do apetite. No dia seguinte lá põem, finalmente, o pé na praia. Como estiveram a fazer as sandes para o dia todo e Sónia gosta de deixar tudo arrumadinho, não vá aparecer a Rainha de Inglaterra ou aquele rapaz que anda sempre aos saltos na televisão, que é uma pessoa que aparece em todo o lado (vá lá saber-se porquê), quando chegarem à praia, a areia ter-se-á transformado em pele e tecido. Será quase por milagre que um casal de mamutes e os seus três encantadores aprendizes de taliban, após contenda familiar que provocará graves incidentes diplomáticos, devido ao ruído que, por pouco, não invadirá Ceuta, decidirão dar a debandada. "Olha ali um lugar", largada e fugida, e lá vão eles, à conquista do metro quadrado de sonho e que, só mesmo em sonhos, será seu, pé ante pé, no meio de co'licenças e mil perdões, truques de equilibrismo e passagem de obstáculos olímpicos. Depois de uma tentativa gorada de dar um mergulho, entre criancinhas a chapinhar em pranchas de plástico que lhes darão a ilusão do surf e motas de água na zona mais livre para dar umas braçadas, regressam ao, então, pequeno espaço partilhado com quatro adolescentes à procura da sua personalidade. Mesmo que se consiga estender, não evitará os banhos de areia, os tropeções alheios e a negligência de bolas inconscientes. No momento em que ficarem mais à-vontade, começarão as pressões para regressar ao apartamento. Há coisas para fazer, banhos para tomar, o jantar e os preparativos para a manhã seguinte, de forma a programar uma chegada à praia mais vespertina. À noite, depois da louça lavada e do final da novela, dão um passeio mais urbano, acompanhados pelas melgas e mosquitos para os quais destacarão, ao longo do serão, toda a sua atenção. Nos dias seguintes, a rotina manter-se-á, exceptuando o passeio ocasional à marina de Vilamoura, numa ambição disfarçada de encontrar pessoas conhecidas da televisão ou das revistas, e do penúltimo dia, durante o qual estabelecerão um breve contacto com um "casal amigo", tal como Sónia lhes chamará mais tarde, na rentrée do trabalho. Enquanto eles se abeiram da água, como quem faz, finalmente, uma pausa para cigarro, numa conversa sobre as trivialidades do trabalho, do crédito e da pré-época, elas ficarão a definir as estratégias dos seus recentes matrimónios, traçando planos que os dois ex-indivíduos só conhecerão mais tarde: os filhos, o colégio dos filhos, a progressão na carreira e as férias paradisíacas. Cardoso anuirá resignado. Na manhã a seguir ao regresso, acordará exausto a caminho do trabalho, desejoso de férias. Voltará a imaginar-se a banhos na Ferraria, em S. Miguel, com os seus colegas de faculdade, ou nos festivais de verão onde, em tempos, se sentiu livre de obrigações e compromissos sem sentido. A rotina mudará apenas de sítio. Trabalho suplementar nunca foi férias.

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