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assassino em microconto

por jorge c., em 31.01.17

Todos achavam que era um flâneur, até lhe verem o sangue nas mãos.

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carta a deus

por jorge c., em 17.01.17

Tenho tentado recuperar a minha relação com deus. Após um período de agnosticismo radical e outras tarefas domésticas, pareceu-me prudente começar a pensar nas hipóteses que o desconhecido nos coloca. É um pouco como tentar reatar relações com amigos que fomos perdendo ao longo da vida. O que custa é a iniciativa. Não me recordando, ao certo, de como rezar, decidi escrever-lhe. Ao início, pareceu-me uma ideia patética, tendo em conta a sua omnisciência, omnipresença, omnipotência e tutti quanti. Foi aqui que começaram os embaraços. Apesar das dificuldades em encontrar morada certa, o importante, para já, era escrever. Como nos dirigimos a deus, após tamanha ausência? A relação perde-se, a cumplicidade desaparece e aquilo que era uma conversa tu cá tu lá, torna-se num confrangimento um pouco infantil. Poderia optar pelo modelo formalista ensinado nas melhores escolas de comunicação e secretariado "Exmo Sr.". Pareceu-me excessivo. Tentei, então, algo menos impessoal: "Boa tarde,". Não, demasiado temporal. Vamos, então, para uma abordagem descontraída: "Caro Deus". Algo de materialista fez-me recuar. Talvez se fosse mais pragmático, a coisa funcionasse: "Deus". Sim, não restam dúvidas. "Deus, no seguimento da nossa última conversa, venho por este meio informar que estou disponível para chegar a acordo sobre a forma mais adequada de nos entendermos. Creio (e com isto já estou a fazer cedências) que é chegada a altura de redefinir o plano previamente estabelecido para a minha vida, cujos recentes resultados não foram ao encontro das expectativas por mim legitimamente adquiridas, aquando da minha última conversa com o Sr. Padre Almerindo. Sem mais assunto, fico a aguardar feedback, despedindo-me com cordialidade. Atenciosamente, Eu." Dobrei o papel, enfiei-o no email e enviei para um dos contactos disponibilizados pelo sítio oficial do Vaticano. À noite, deitado, fiquei a olhar para o tecto do quarto, com a angústia que se sente ao pensar na correspondência perdida. 

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o ribeiro

por jorge c., em 13.09.16

Durante aquela idade em que não somos nem carne nem peixe e em que a tendência para a inconsciência é maior do que o habitual, descobrimos um ribeiro dentro do bairro. Havia, aliás, alguns ribeiros que desapareciam com a nova construção que ali começou a crescer, para nossa infinita tristeza. Alguns deles serviam os campos, mas este servia sobretudo um tanque de lavadeiras. Descia a encosta, passava por debaixo de uma pequena ponte de betão inacabada e terminava no tanque onde, por regra, passávamos as tardes de domingo, a ver as cores que nele se formavam. Era raro ser sempre a mesma. O cheiro do sabão confundia-se com outros odores mais duvidosos. Por vezes, ficava-se com a sensação de estar perante um esgoto aberto.

As casas em volta, nesse lado do bairro, formavam pequenas ilhas de construções clandestinas, onde viviam famílias de seis ou oito pessoas e onde existiu durante muitos anos uma panificação sobre a qual recaía o mito das caganitas de rato no produto final. O ribeiro atravessava a encosta que dividia as casas, como se fosse a Veneza dos pobres. Dentro das que conheci, o mobiliário não tinha um estilo uniforme e, para disfarçar a falta de luz, era feito de madeiras claras e frágeis e as prateleiras estavam sempre despidas. Os quartos eram divididos entre os membros da família, estando o espaço mais reservado destinado ao chefe de família e à mulher. Os miúdos partilhavam o quarto com os avós e, por vezes, nalguns casos, a sala acabava por servir duas funções. As cozinhas eram pequenas e as casas de banho interiores recentes e igualmente exíguas. A fossa que servia as casas também era partilhada e mais tarde até surgiu, sem se saber bem como, uma antena parabólica onde durante as férias tentávamos ver pornografia na RTL.

Certo dia, apercebemo-nos de que a água do ribeiro não morria ali e continuava por um cano. Intrigados, decidimos tentar seguir o curso da água e acabámos por descobrir um furo no campo do Sr. António - o nosso maior rival. Para escapar aos chumbos da espingarda com que habitualmente nos recebia, trepámos por um muro mais discreto para ir à chinchada e acabámos por cair num charco de lama e estrume que não parecia secar. Do outro lado do muro, uma linha de água suja parecia ser o que restava do ribeiro que saía do tanque. Nunca mais roubámos ameixas.

O Ribeiro da Maínça foi durante a minha infância e pré-adolescência a minha imagem íntima da miséria escondida. Quando deixei o bairro, nunca mais lá voltei. Mas às vezes, nos primeiros dias da Primavera, ainda lhe sinto o cheiro e a resignação. Depois das últimas urbanizações que tentaram fazer do meu bairro da infância uma zona mais urbana e sofisticada, a encosta por onde passava o ribeiro desapareceu da vista dos demais. Por vezes, quando me lembro dos rapazes, penso no quanto a vida nos sorria enquanto estávamos juntos, à procura da felicidade.

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instantâneo

por jorge c., em 07.09.16

Rasga-se a tela presa na janela com o vento e um pequeno barco de porcelana cai e quebra-se no chão e as mulheres na secretaria falam falam falam falam falam de tudo o que interessa e não interessa seja de casa do trabalho da televisão a entrar dentro de casa e os operários aproveitam a corrente de ar que interrompeu a vaga de calor e paz no mundo mas logo regressam à obra de berbequim ligado intercalando ou em simultâneo com o toque dos telefones "está lá? só um momentinho que eu vou ver se ela ainda está na casa de banho" um sítio outrora privado mas que agora passa a informação transmitida a desconhecido como se as desculpas as razões os motivos as palavras a verdade fossem assim tão necessárias na conta corrente dos dias que vão passando assim com todo este ruído e com os termómetros a marcar trinta de mínima e quarenta de máxima em portugal continental e na madeira e em todo o lado menos nos açores onde ainda resta um bocadinho de civilidade de silêncio de natureza de vida porra!

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manhã ocidental

por jorge c., em 30.08.16

Sombria, a guitarra de Polly Jean rasga o Agosto passado e tenta romper por Setembro dentro, sem pressa, num compasso com tanto de lânguido como de sádico. Na sua página oficial, um artista queixa-se da falta de reconhecimento pelos seus pares, pelo público e pelo cosmos. Dois jornalistas discutem o estado do setor no Facebook, invocando as razões iniciais que os levaram à profissão. Um cínico faz uma revista dos posts, deixando comentários como um pombo que larga dejetos nas praças ao longo da cidade, voltando depois à sua aborrecida realidade. Cidadãos anónimos esfregam os olhos nos transportes públicos na ressaca dos dias quentes e da água tépida. As chefias chegam depois da hora; outras já lá estão desde ontem. Pisa-se o passeio com mais convicção do que antes, com a substituição da calçada. Há buzinas e travagens bruscas. Um estafeta consulta o Whatsapp numa paragem de autocarro e o empregado do snack-bar Maré Alta acaba um Filtro enquanto arruma o resto da esplanada. Um homem discute com ele a mão na bola e um outro lê as notícias num jornal onde os jornalistas já nem discutem o estado do setor. Num quarto arrendado, uma desconhecida celebridade da cultura nacional dorme abraçada a um jovem Erasmus. A guitarra e a voz de Polly Jean estendem-se pela minha manhã ocidental.

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balada da dependência*

por jorge c., em 23.08.16

Era já tarde quando o amor se esgotou. Foi um estranho que entrou no quarto de madrugada. Trazia o cheiro azedo da cerveja bebida e entornada sobre o perfume enjoativo do vestido e a indiferença dos excessos. Poucos minutos após se deitar, a meio da minha insónia escaldante, caiu nas profundezas de um inevitável cansaço, demasiado ruidoso. Levantei-me e saí pela praia com os impulsos a conspirar. Estava tudo quente: as pedras, o mar, o céu, o corpo. Sem sobressaltos, fiquei na beira da praia até acabarem os cigarros. Quando o sono insistiu, deixei-me levar pela resignação e regressei a casa. Os olhos fecharam-se como num cadáver alado que deixava o corpo à mercê da manhã.

 

 

*inspirado em Nan Goldin

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as férias de sardinha

por jorge c., em 26.07.16

- Quinze dias de férias! - exclamou num alívio tal que, ao recostar-se na cadeira, tombou, batendo com a cabeça no aparador da sala e derrubando uma jarra que lhes fora oferecida por uma prima afastada no dia do casamento. Pronto, estavam as férias feitas. Resignou-se com o facto de nas próximas duas semanas as suas manhãs começarem invariavelmente com a lembrança da tragédia que foi ter quebrado aquela jarra, de como é um irresponsável que não valoriza as coisas, de como a prima lhe era querida, apesar das distâncias, e lhes comprou aquela obra de arte por considerar que tinha tudo a ver com ela e que aquela era a única forma que tinha de se recordar da família que havia abandonado para se dedicar a um marido incompetente, inútil e desinteressante. Nem tudo era mentira.

Quando Sardinha casou, tinha começado a trabalhar na propaganda médica havia pouco mais de um ano, com direito a carro e a cartão de crédito para os almoços e jantares de negócios que acabariam por nunca acontecer devido à sua timidez, apesar de o chefe acreditar que tudo aquilo se devia mais ao facto de ele ser uma pessoa absolutamente desinteressante, inoportuna e, por consequência, inútil em qualquer empresa. Talvez tenha sido por isso que mudou de ramo, nunca afastando a convicção de que teria talento para as vendas. E com isto tudo já eram doze anos nos seguros. Muita gente passou por ali; entravam, saíam, e ele sempre lá, sempre a trabalhar; férias, nem vê-las. Chegava, por isso, a altura de gozar quinze dias, que seriam agora assombrados pela tragédia da jarra.

Portanto, se descontasse os telefonemas que iria receber, o massacre diário da jarra, a jardinagem e as compras, estaríamos a falar de um valor líquido de três dias de férias. Não desmoralizou. Talvez um bocadinho. Talvez tenha ficado a pensar que se fosse rico é que eles iam ver o que eram férias, na Polinésia Francesa, como um cliente que lhe contou que na Polinésia Francesa até uma tipa com um abanico a dar-a-dar para suavizar o calor havia; a água, transparente; nunca precisaria de se mexer para fazer o que quer que fosse excepto, claro, se a tipa do abanico quisesse brincar aos colonizadores, que era algo que também se podia arranjar. Quando um tipo tem dinheiro, tudo se arranja. E em vez de passar umas férias inteiras a podar arbustos, a aparar relva e a recolher pinhas e folhas de loureiro, passaria todas as tardes como se fossem aqueles sunsets onde os ricalhaços aparecem a beber gins e outras bebidas cujo nome agora não se recordava mas que o cunhado, que era um purista, sabia de trás para a frente. Ele é que lhe dava os conselhos: "Aquilo é uma maravilha. Mas não são aqueles patés manhosos do supermercado. É foie gras a sério, francês. O da Rússia também é muito bom. E bebes um ginzinho a seguir, com zimbro, pimenta rosa e hortelã. Vais ver como não queres outra coisa." Há gente que sabe viver, pensava. O cunhado, por exemplo. Admirava-o tanto que era raro não começar as frases com a formulação "o meu cunhado", o que depois, pelo excesso, acabaria por ser motivo de comentários menos simpáticos dos colegas. 

Foi precisamente o cunhado que os convenceu a arrendar uma casa na Malveira para passarem as férias e os fins-de-semana. Claro que fins-de-semana era para esquecer. É a bola do puto, a ginástica da miúda, o negócio que não dorme nem tira férias, o Benfica... enfim, ficava difícil. Quando lá iam, eram dois dias a limpar a casa e o jardim e na segunda-feira ninguém ia trabalhar por ele. Por isso, quinze dias de férias vinham mesmo a calhar para que na sua cabeça se justificasse um arrendamento anual de uma casa na Malveira. 

Três dias depois de terem chegado, já só faltava limpar o anexo, recolher as folhas caídas e cortar a relva. Mais dois dias e estava tudo pronto. Para agilizar o processo, decidiu substituir os sacos onde colocava as folhas secas de loureiro por um bidão grande onde as colocaria todas. Como acabou por ficar um bocado pesado, lembrou-se que se queimasse aquilo tudo ficava o problema resolvido. 

Quando a polícia chegou por volta das 16h00, o fogo alastrava já pela parte de trás da casa. Meteram-no no carro e levaram-no para a esquadra. Pelas 18h00, os bombeiros já tinham a situação controlada. Convencido de que ainda estava no papel de vítima, Sardinha desabafou com o polícia que, felizmente, o seguro cobria aquelas coisas, que não fosse ele um dos maiores especialistas de seguros do país de certeza que já lhe tinham estragado a vida, que a empresa é muito experiente nestes assuntos...

Foi já nos calabouços da PJ que se lembrou da jarra. Na verdade, desde que havia chegado à Malveira a mulher não tinha tocado no assunto. No fundo, até estavam a ser umas belíssimas férias. 

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o tempo das formigas

por jorge c., em 18.07.16

Todas as virgens do meu bairro deixaram de o ser sem que eu tivesse dado por isso. E tal como as virgens e os virgens, a vida no bairro foi crescendo comigo, tomando passos tantas vezes divergentes, e assim nos fomos separando. Ficou na memória um tempo de cumplicidades, de íntima relação com os muros das casas, com os bancos dos jardins, com a virgindade de todos os elementos que compunham o bairro e que com ele pareciam estar sempre a preparar as férias. Mas no Verão de 95, demoliram a casa do lavrador e todo o terreno foi ocupado por máquinas de construção. Durante esses dias, desapareceram os pessegueiros e as ameixoeiras, e com eles as raparigas de vestidos de algodão e o cheiro frutado dos corpos. Desapareceram também os formigueiros por detrás dos muros do prédio da minha infância que anunciavam o início do campo, quando trepávamos à descoberta do dia. Quando mudámos de casa, já não havia sinais da minha infância. As raparigas já não eram virgens e os rapazes eram tontos profissionais, ansiosos pela adultícia. Nos anos em que vivi sozinho nessa memória, descobri três ou quatro pormenores que ainda hoje, atravessando as mais elementares leis da física, me permitem viajar no tempo.

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on the beach

por jorge c., em 12.07.16

Com a morte da mulher, Kasper já havia decidido deixar a cidade, afastando-se da preocupação alheia, dos pequenos dramas alheios que conspurcam o ar de banalidade, da alegria forçada e dos fretes. Anos mais tarde, o acidente do filho deixou-o sozinho no mundo e partiu para uma pontinha de Portugal onde dificilmente teria de se justificar. Dos anos que viveu em Vila do Bispo tem saudades da praia vazia, do vento e das ondas a impulsionar a dor para os céus, da estrada vazia, do pão fresco e carinhoso que lhe devolvia a manhã, do silêncio crepuscular do verão e do olhar melancólico dos turistas quando regressavam a casa. 

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Já se cuspiu mais sangue do que vómito na noite de S. João. Histórias antigas resolvem-se na noite maior dos excessos. Foi sempre assim. Lembro-me ainda dos desacatos simples: os carros cercados, os empurrões e os gritos a forçar o beijo entre os tripulantes; o assédio à miúda errada; a cerveja entornada por cima do tipo errado; um sócio que não dispensa um cigarro nem vinte paus. Uma vez, em S. Bento, o campo de batalha era toda a praça, formando-se não uma multidão, mas círculos de hooligans como nos concertos de metal que naquela altura se faziam no parque de exposições, do outro lado do rio. Um dia, dei por mim a acordar na praia no meio da ressaca da vida. À volta, a manhã ainda fumegava resíduos de violência, entre descargas de esgoto e de estômago. Ninguém parecia estar em condições de prosseguir a vida como se nada fosse, excepto o casalinho que encontrara o amor durante a noite e que continuava a conversar na descoberta do novo dia, do futuro a dois, quem sabe - outras manhãs sem que ninguém por perto seja visto a cuspir sangue ou bílis. As marcas profundas das coisas esquecidas arrastavam-se pelos passeios e as pastelarias enchiam-se de zombies esfaimados que, no regresso a casa, ostentavam orgulhosos a resistência à noite derradeira. 

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sonhos de salário mínimo

por jorge c., em 06.05.16

Já mal se recordam dos dias como eles eram há quinze anos. Aquela discussão no concerto dos Guano Apes, as férias em Milfontes, os planos para viver no centro da cidade num T0 sempre cheio de amigos, copos de vinho e música do agrado de ambos. O longo namoro deu em casório e a grande estratégia para a felicidade conjugal limitou-se, afinal, ao salário de seiscentos euros, já com os descontos, ao T2 nos subúrbios, a preço razoável, às aulas de Zumba e aos dias de jogo com direito a tolerância de ponto. Aos fins-de-semana é a catequese da miúda ou são os jogos do rapaz pequeno. Às vezes lá dá para uma jantarada no Mister Picanha e uma saída para um sítio onde dê para dançar, acabando a noite pela uma da manhã no Sabor a Recife - o mais próximo de umas tão desejadas férias no Brasil. Se pudessem voltar atrás, Carla e Bruno não mudariam muita coisa. Na verdade, nem pensaram muito nisso. 

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branda violência

por jorge c., em 20.04.16

Meia-estação. Sempre a meia-estação. Lembro-me dos domingos de meia-estação, o cheiro das velas na igreja, o incenso que julgava afastar o cheiro do suor quente-e-frio dos corpos que derretiam como cera, debaixo do sol da eucaristia, e depois gelavam com a sombra das nuvens saudosistas. Pela tarde, as ruas ficavam vazias e sobravam os restos do mundo embrulhados em sobretudos de fazenda, como zombies imunes à temperatura, e duas ou três tendas a vender cavacas e bugigangas na esperança de que todos os domingos fossem como em Jesus Cristo Superstar. Achei sempre que essa relação entre a missa dominical, os indolentes e a venda ambulante era um encontro cósmico de toda a decadência, abençoado pela temperatura falsamente amena da meia-estação e pela música de Nelson Ned. Mais tarde, quando a indolência me venceu, dei por mim a subir os montes num domingo à tarde, o sol a derreter a pele como se fosse a cera das mezinhas, os insectos, a terra seca e o pó a invadir as narinas já ressequidas do tabaco e do brandy. Foi outro desespero de tardes iguais, outro calor, a mesma estação, nem carne nem peixe, o compasso marcado pelos passos enterrados e o romper das silvas. Do chão parecia que se levantavam os mortos para completar o cenário de inferno brando. Não me recordo de outras visões. Ao fim do dia, quando regressava ao bairro, com o frio, o pânico da meia-estação encerrava-se no rosto pálido de Sónia, como numa balada de Violent Femmes. 

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faena em memória de paco de lucia

por jorge c., em 25.02.16

Numa pequena taberna madrileña, um grupo de homens junta-se à volta de um guitarrista de semblante impenetrável. O rapaz toca uma buleria que se vai espalhando pela mesa e pelos cantos da sala, por entre o tabaco e os copos de 3. A música cresce como uma fonte que se transforma em grande rio e o peito sente uma liberdade latente, ainda sufocada pela angústia das coisas simples, anestesiando a realidade. Como numa faena

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da felicidade

por jorge c., em 02.12.15

Em dezembro, nem sempre assim. O rapaz dos serviços administrativos continua a vir trabalhar para passar o tempo. Faz a sua parte, corre de um lado para o outro como se estivesse a fazer exercício físico, repete palavras e toques de telefone que ouve e vai cantarolando ao longo do dia, enquanto insere os dados na plataforma pública. A rádio de serviço nunca é interrompida com notícias e outras chatices. Farto de chatices está ele, só problemas, a vida. A essa hora, precisamente a essa hora, uma bomba rebenta em Istambul e faz 80 mortos. Easy Living de Billie Holiday surge com a naturalidade dos dias de dezembro. O parlamento discute a idade das reformas e os correspondentes cortes nos que se atrevem a antecipar, que isso da velhice é sobrevalorizado. Back in your own backyard dispara num arrepio. O rapaz vai abanando a cabeça ao som do swing do contrabaixo. Trav'lin' all alone. O Natal à porta e a felicidade nas pequenas coisas, no trombone tonto, na hora certa, na burocracia, até que a reforma nos separe. 

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manhã

por jorge c., em 19.11.15

A manhã nasceu fresca e esclarecida. Sob a montada, Teodoro admira agora um bando de flamingos que drapeia o mar-chão, plainando depois sobre o mouchão à espera que o barco passe e devolva o silêncio da preia-mar de novembro. A cidade, nem vê-la. Quanto menos notícias de lá, melhor. Comem-se vivos. Ao longe, uma nuvem de pó anuncia a chegada furiosa do patrão que, numa dessas urgências frívolas, vem cumprir o dever de mostrar quem manda. Restam-lhe agora poucos minutos para aproveitar as pequenas felicidades.

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volta ao mundo em três memórias

por jorge c., em 18.09.15

Sayid voltou a perturbar-me o sono. Desta vez apareceu noutro tempo, rodeado por uma dessas felicidades raras da vida. Depois disso, lembro-me apenas de o ver deitado numa camarata, acompanhado de umas dezenas de outros homens, todos vestidos de igual. Ouvia-se música e o som inequívoco de camiões. Ouviu-se também um disparo e um corpo apareceu caído junto de uma cerca. Acordei sem saber se a minha personagem teria morrido. A história de Sayid havia terminado, mas agora surgia algo novo, já sem os outros, num outro cenário. Um sonho tão estranho como aterrador. O despertador ainda não tinha tocado. Talvez aqueles quinze minutos restantes pudessem ter sido fundamentais. Quinze minutos é uma vida nos sonhos. Levantei-me e saí para apanhar o avião para Lisboa, com o possível corpo de Sayid na mente e o trago amargo da cerveja da noite anterior a entupir-me toda a zona respiratória. Voltei a adormecer durante o voo mas julgo não ter sonhado mais. No táxi, num francês enferrujado, o motorista confessa estar triste com o que se passa na Europa. O tema propaga-se por toda a parte como um grande terramoto. É a favor. A favor? Sim, a favor. Há quem seja contra. Contra o quê? Toda esta história de refugiados e migrantes e tragédias. Migrações trágicas. Sabe bem o que isso é. Em 75 veio para Portugal para fugir da morte certa. Não era um regresso, mas antes uma vida nova, um outro cenário. Também havia quem fosse contra. Emocionou-se e forçou-me ao silêncio. A luz de Lisboa preenchia o espaço com a compaixão possível, enquanto o taxímetro marcava a passagem do tempo numa luta clássica entre a melancolia e a urgência do fim do dia. Lembrei-me de Julio Cortázar e da sua breve história porteña. Às vezes o mundo cabe todo numa pequena viagem nos transportes públicos.

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las calles*

por jorge c., em 14.09.15

Inácio está numa segunda-feira perpétua, a olhar para os navios que chegam à doca, desafiando o horizonte e as possibilidades. O que estará para além do mar? Os olhos curiosos e sonolentos, os pés acariciados pela água morna que banha a central térmica Costanera, as mãos no chão a suportar o tronco, o corpo curioso e sonolento. Um homem aproxima-se e manda-o sair dali. "Fascista!", responde o rapaz, "o mar é de todos!" e sai disparado em direcção a Boca; em frente ao estádio simula um remate e festeja o golo e por toda a cidade se anucia e celebra esse outono porteño e um bandoneón toca alegremente melancólico e, então, nada muda. Inácio regressa a casa. A escola ainda não começou. O melhor será esperar pelos outros. Pega num livro e lê:

 

"Las calles de Buenos Aires
ya son mi entraña.
No las ávidas calles,
incómodas de turba y ajetreo,
sino las calles desganadas del barrio,
casi invisibles de habituales,
enternecidas de penumbra y de ocaso
y aquellas más afuera
ajenas de árboles piadosos
donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y llanura.
Son para el solitario una promesa
porque millares de almas singulares las pueblan,
únicas ante Dios y en el tiempo
y sin duda preciosas.
Hacia el Oeste, el Norte y el Sur
se han desplegado - y son también la patria - las calles;
ojalá en los versos que trazo
estén esas banderas."

 

Depois, estendeu-se sobre a cama e adormeceu antes que o acordassem. 

 

*poema de Jorge Luís Borges

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um mundo-cão

por jorge c., em 04.09.15

Sentado numa charmosa esplanada na rue des Abesses, abro sem entusiasmo o Le Figaro, mas não consigo deixar de reparar numa fotografia de dois indivíduos a tentar passar por baixo de uma rede de arame farpado. A imagem tira-me o apetite e resolvo concentrar-me no pequeno grupo que se encontra na mesa do lado: um homem nos seus trinta e poucos, incrivelmente parecido em tudo com Serge Gainsbourg, acompanhado por duas amigas, um pouco mais novas e enérgicas. Enquanto as duas raparigas vão esgrimindo frases espúrias, num duelo de sensibilidades, num contra-relógio pela mais adequada e correcta das ideias conformes ao cânone, o rapaz vai olhando no infinito, fumando em câmara-lenta o cigarro da grande urbanidade. Depois, com um sentido de oportunidade admirável, interrompe-as com comentários despectivos, quase assassinos, que elas recebem com deslumbramento. Não parecem estar autorizadas a utilizar os telemóveis na presença desta ilustre luminária de Montmartre, limitando-se a comentar um artigo no Libération onde o colunista cogita sobre a importância das palavras "refugiado", "migrante", "humanismo", com a assertividade dos profissionais da opinião. A mise-en-scéne fascina-me. Olho-a com uma ternura cínica, ou talvez só com cinismo, e acabo por me rever naquele sósia de Gainsbourg que todos os dias se senta na esplanada do Le Sancerre a pavonear uma atitude snob. E então somos dois snobs na mesma esplanada da rue des Abesses, desprezando as trivialidades das raparigas e das colunas de opinião, desprezando toda a gente que não viu as perseidas da razão e da humanidade, admirados pelo deslumbramento de duas tontinhas que só querem ser úteis à vida, não sabendo bem como. E então já somos quatro, já somos um bistrot inteiro, todo um bairro, uma cidade e um país a tentar ser úteis à vida sem saber como, à procura em desespero, sem saber nada. E então invejo tudo isto. Invejo a admiração pelo Gainsbourg, a inocência das tontinhas, a esplanada do Le Sancerre, o colunista do Libération e um outro do Figaro, o homem que sai do Grenier à Pain com o lanche debaixo do braço, os dois activistas que distribuem panfletos sobre a crise em Calais e sobre o livre-trânsito do grande capital, no outro lado da rua, a família que se apressa para entrar numa pequena sala de teatro de Montmartre e todo este conforto sem culpa que só o cosmopolitanismo consegue oferecer. Invejo a sensação de estar vivo de Sayid, os dilemas de Bassel e o pragmatismo sem fronteiras de Rasul. Certa noite, sonhei com estes homens, atormentado pela culpa, pela impotência e pelo cinismo. Imaginei-lhes o rosto, a pele e o nervo. Mas o meu incómodo era tão cómodo como o de todos os outros que, tal como eu, perdem o apetite com fotografias nos jornais, entre dois copos de vinho e meio maço de cigarros. Pouco antes de chegar a casa, reparei na carruagem de fim-de-tarde com destino a La Défense. Um mundo inteiro lá dentro. Todos os rostos do mundo fechados no seu mundo, como um cão que morde a própria cauda para acabar com a sua inquietação. Vi o meu reflexo na janela e lá estava eu acompanhado por todos esses cães, a morder a minha cauda como se fosse acabar com todas as inquietações do mundo, às voltas. Entrei em casa, deitei-me e não pensei em mais nada.

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um mistério

por jorge c., em 02.09.15

Sayid salvou-me o dia. Faço o caminho contrário à história da sua chegada, em busca da fonte. Falou-me de um homem chamado Bassel. É ele a chave esclarecida que procuro, entre o drama desta gente que espera na vertigem da vida, os meandros do tráfico de pessoas e a origem da tragédia. Sentado junto ao canal, cansado e resignado, o sírio traz no rosto todos esses mistérios - a verdade sobre o mundo. Não o posso ajudar mais. Não posso levá-lo para casa, como quem resgata um cachorrito no canil para se sentir em comunhão com o cosmos. Dois homens olham-me com desconfiança e segredam entre si, deixando bem claro que é de mim que estão a falar. Não lhes faço a desfeita e afasto-me. Procuro mais um testemunho. Encontro um homem do Conselho Belga para os Refugiados, não muito afável. Diz-me umas quantas banalidades e arranja uma desculpa para sair dali. Não parece haver ninguém aqui que não tenha um ar comprometido. Talvez Bassel me ajude a compreender. Irei encontrá-lo em Paris. Prepara-se para embarcar para Berlim, onde a família o aguarda.

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a rede

por jorge c., em 01.09.15

- Se não fosse tão feia, saltava-lhe em cima.

- A tua irmã também é feia e já meia Paris lhe saltou em cima.

- És um cão de merda, Rasul. Já te disse que não te admito que fales da minha irmã.

- Pois sim. Despacha-te mas é a limpar isso e vamos embora. Não fosse esse teu apetite voraz, não tínhamos de estar sempre a mudar de sítio e a justificar estes incidentes ao Belga.

- É um paliativo. Elas vão morrer e vão...

- Um paliativo é quando é consentido, meu animal. Se o gajo nos fecha a porta, a seguir abrem-nos uma cela. E antes de lá entrarmos, apagam-nos. E desliga-me essa merda dessa música.

- Assassin de la police! Uh! Uh!

Dois cadáveres adiados precipitavam-se, agora, para bem longe dali. Apesar de tudo, Johnny mexia-se bem na rede e Rasul ainda ia precisar dele antes de regressar ao norte. Era preciso limpar o desleixo de Bassel com o primo da namoradinha. Depois disso, teria de recuperar o dinheiro perdido na última operação e reconquistar a confiança do Belga. Pela primeira vez, tinha medo. Metera-se demasiado no assunto. Ao início parecia uma coisa simples - fazer meia-dúzia de contactos, arranjar informações, vender informações. Nem precisava de sair da cidade. Tudo sob controlo, até ao dia em que mais gente quis ganhar com isto e começaram a apertar com ele. Agora eram agentes oficiosos de órgãos oficiais: políticos comprometidos; polícia facilitadora ou dificultadora, conforme a recompensa; organizações internacionais; o Belga; e Bassel que, ao ignorar todo este novelo, achava-se Moisés, um herói do seu tempo, investido por uma moral superior que justificaria todos os seus pecados. Por outro lado, havia Johnny, um albanês mercenário a quem os nacionalistas franceses pagavam para criar cenários de criminalidade, ou a quem os grupos terroristas recorriam para recrutar miúdos nos bairros de Paris. Era através desses contactos que Johnny conseguia informações para passar gente nas fronteiras e, por vezes, mais além. Mas, para isso, cobrava um pouco mais, reivindicando os corpos já sem força de mulheres desfeitas pelo terror. "C'est la vie", desdramatizava. Havia que regressar a Calais, pagar ao Belga e pirar-se para Tarifa, destino ao qual acabaria por nunca chegar. 

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bassel

por jorge c., em 31.08.15

Querida Nasmah,

 

Que as minhas palavras não te assustem. É tudo o que desejo. Só agora consigo responder à tua mensagem em segurança. Ficámos retidos em Lens nos últimos dias e se Rasul não se tivesse mexido através da rede ainda lá estaríamos. Alterámos a rota do norte. Calais não é mais seguro. Em Itália já não passa ninguém e na Grécia há milícias organizadas pela extrema-direita que vigiam armadas os pontos possíveis para o desembarque. Assim que as novas rotas são anunciadas nas televisões e nos jornais, como se fossem atracções turísticas, a passagem inviabiliza-se. Há cerca de duas semanas, uma dessas milícias fez-se passar por uma organização de ajuda humanitária e conduziram perto de cem desgraçados para as montanhas. Morreram todos. 

Sayid e os outros já estão a salvo. Por pouco não conseguíamos. Não lhes cobrei nada, não fui capaz. Também não lhe contei da Grécia. Disse-lhe que era tudo mentira. Mas no sítio onde ficaram ninguém me conhece. 

Com estas complicações todas e com os negócios nos Balcãs, talvez a rota do Adriático seja a melhor solução. Falei com Loran. Já não o contactava desde a operação das Raparigas de Trieste. Se lhe transportar dois carregamentos para Tarifa, ele aceita fazer a costa toda com eles. "Sem precalços", garantiu-me. No fundo, garante-me é mais dinheiro. A polícia está mais cara. Os tipos que faziam a rota do leste já foram à vida. E os jornais, coitados, ainda acreditam que "o motorista ainda se encontra em fuga". Quatro camiões na mesma zona, só por mera coincidência. 

Todas as noites, querida Nasmah, quando o medo me perturba o sono, dou por mim a pensar que tudo isto é uma nobre causa, uma ajuda aos irmãos aflitos e desesperados. Mas depois, em cada lugar, lá está a tua terra prometida, essa Europa de que tanto falas e onde não habita senão a miséria do espírito, o lixo das almas, o fanatismo, a corrupção da autoridade, a ajuda só com compensação e o oportunismo dos tipos como eu, que vivem deste caos instalado. Adormeço como um moralista de mim mesmo.

Lembrei-me dos fins de tarde ao sol em Tel-Aviv, antes de Ezra aparecer nas nossas vidas. O mundo era, então, tão grande que nos banhávamos de imensidão. Agora, tudo parece um labirinto de cobaias, estreito e limitado. 

Assim que chegar ao sul volto a escrever-te. Se chegar. Não esperes nada.

 

Bassel

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passagem

por jorge c., em 28.08.15

Depois da queda, levantar de novo, agora encharcado. Os outros já lá vão, um pouco mais à frente. Ali estão. O corpo já se vai habituando a não se erguer demasiado. O que serão aqueles latidos ao longe? Alerta, sempre alerta. O pior já passou. Mais arame, menos arame, vai ficar tudo bem. Aya também ficou para trás. Queixa-se de um tornozelo. Sinto-lhe o sangue e o suor onde antes era só pele, seda e jasmim. Temos de continuar. É preciso evitar a luz. Cada vez menos invisíveis. Continuemos. Limpo-lhe o sangue e guardo o lenço. Dentro de duas horas Bassel estará à nossa espera na outra margem do rio para nos conduzir até ao nosso contacto do sul. Teremos de confiar. Os latidos regressam. Temos de confiar. Precisamos de confiar. Um homem que nos deu comida na última paragem contou-nos que, há umas semanas, apanharam uns tipos do norte que se faziam passar por voluntários de uma organização qualquer. Levaram um grupo para uma zona mais montanhosa e fizeram-nos desaparecer. Ninguém sabe deles. Bassel diz que é mentira, que inventam coisas por causa do medo, que preferem ver o nosso medo e que isso diminui o seu próprio medo. Somos lobos de matilhas diferentes. Uns mais cães do que outros. Não penses nisso agora, não te ergas demasiado, não te insurjas, é preciso continuar. Agora é uma criança a chorar. Uma vontade indomável de a esganar apodera-se de mim. Temos de sobreviver. É preciso continuar para sobreviver. Não te ergas demasiado, não penses na criança. Vai ficar tudo bem. Já falta pouco. Ainda falta tanto.

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Num outono que me parece já algo distante, entrei num pequeno cinema de bairro para ver a Sonata de Outono. Estava particularmente lúcido apesar da chuva, da gabardine encharcada, das despesas do amor e da segurança social. Bergman em Bergman. Outono no outono. Todos os paralelismos do mundo numa pequena sala cheia de clientes de ciclos, aos círculos, de clientes de sonatas diárias, de prelúdios infinitamente tristes, de tristezas infinitamente diárias em prelúdio, aos círculos, como aquela expressão infinitamente circular de Charlotte enquanto ouve Eva a tocar um prelúdio de Chopin, essa expressão que era imensa e invasiva e que acabava por nos agoniar o peito. Quando saí não era mais lúcido. Desci a rua e entrei no carro seco apesar da chuva, da gabardine encharcada e do rosto perdido de Ingrid Bergman.

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pequenas felicidades

por jorge c., em 24.08.15

Todas as manhãs de Agosto, Nadir acorda angustiado. Talvez porque pense demasiado na felicidade, vai recordando outras manhãs menos tensas, menos angustiantes, todas elas diferentes, tons de felicidade diferentes, pequenas felicidades que juntas lembram uma única e sublime manhã. Chovia nessa manhã em que sentiu as gotas gordas da chuva na cara, por entre os pinheiros de um bosque quase irlandês. Como se agosto não fosse Agosto e fosse antes Augusto de tão divino e luculento. E o cheiro das madressilvas misturava-se com o do papel molhado e do whisky da noite excessiva. E enquanto os outros ressonavam nos quartos do casarão vetusto, eu era feliz a ouvir Elis a cantar a madrugada, entre um e outro cigarro, sem angústias, apenas alguma melancolia. Nadir pensou na feliz melancolia. Tenho pensado na feliz melancolia. Pensado na felicidade. Coisa ridícula.

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os palpites do senhor gras

por jorge c., em 30.07.15

Senhor F: Falta muito?

Senhor Gras: Dá-me impressão que não.

Senhor F: A que distância estamos?

Senhor Gras: Não tenho ideia, mas devemos estar perto.

Senhor F: Quanto tempo passou desde que saímos? 

Senhor Gras: Um bom bocado.

 

(O Sr. F começa a ficar impaciente)

 

Senhor F: Que horas são?

Senhor Gras: Devem ser aí umas quatro e meia.

Senhor F: Vê no relógio.

Senhor Gras: Não trouxe.

Senhor F: Então como é que sabes?

Senhor Gras: Devem ser... O sol está ali, são para aí quatro ou quatro e meia.

Senhor F: Há alguma coisa que possas garantir que não sejam só palpites?

Senhor Gras: Há um ditado qualquer que diz que a experiência é a mãe de não sei quê. Pronto, é isso.

Senhor F: Estamos perdidos...

Senhor Gras: Estamos sempre.

 

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economato ou a morte lenta

por jorge c., em 24.07.15

Contra o silêncio, as máquinas trabalham com o escritório vazio. Não está cá ninguém. Estou eu. E a mulher da Tesouraria, também ela contra o silêncio. Entrou na sala e depositou um papel numa outra mesa, o que poderia ter feito em silêncio. Falou. Disse "ora aqui está". Mas não era para mim. Saiu da sala e voltou a falar. "Que tempo! Está abafado!". Falava sozinha. Acrescentou ainda algo. Não ouvi. Contra o silêncio, as máquinas inquietam-se. O telefone de um dos gabinetes ao fundo do corredor ainda não parou de tocar. Talvez devesse lá ir. Talvez devesse atender. "Silêncio", pediria. Agora é o estafeta que entra. Contra o silêncio, mete conversa. Não respondo, não me manifesto. Não faço nada. Evito o ruído e, mesmo assim, nada me devolve o silêncio. Morro de um tédio nervoso. 

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a grande depressão

por jorge c., em 16.07.15

Na primeira vez que me tentei suicidar não tive coragem, na segunda não houve oportunidade e na terceira faltou-me o engenho. Ainda assim, fiz a barba, tomei banho e saí. Eram já umas três da tarde, desci a rua e parei para um expresso. Buondi, disse. O homem sorriu e voltou a dizer que gostava muito desse trocadilho, mas só se fosse para mim, porque para ele o dia já estava quase a acabar. "Esteve cá uma rapariga a perguntar por si, perguntou por 'aquele rapaz italiano', mas eu não lhe dei conversa." Agradeci o decoro, paguei e segui até à avenida. Lá em baixo, na praça, uma multidão de quinze manifestava-se em solidariedade com a Grécia. Fiquei por ali um pouco, acendi um cigarro e deixei-me estar a ouvir as palavras de ordem, coisas que o Partido repetira tantas vezes, e eles ali tão jovens, tão iguais uns aos outros, as mesmas vestes, as ideias tão soltas. Murmurei a Internazionale e ecoou na minha cabeça um certo cinismo, como se fosse católico. Deus me livre. E então tocaram os sinos e segui para a estação. Um bilhete para Lisboa, Santa Apolónia, onde me esperam para ninguém sabe bem o quê. Recebi uma mensagem: "Esperamos por ti. Depois, ficaremos por cá." E lá seguiu o comboio nesse passo acomodado da linha norte-sul, tão lúcida e imperfeita, tão rude. Em Espinho, uma mulher senta-se à minha frente e diz o meu nome. Nico. Sim, sou eu. Não, não me recordo de ti de Compostela, nem de parte alguma, talvez demasiado vinho, mas lá tive de a ouvir, as palavras quase sempre excessivas, de um dramatismo adolescente, de uma banalidade criminosa. Falou na Grécia, na Europa, no capitalismo, citou uma poeta portuguesa e acabou por me aconselhar um restaurante "onde vai toda a gente". Depois disto iria para Nova Iorque com um amigo que é artista e que eu devia conhecer porque o trabalho dele versa sobre a condição humana num mundo de opressão financeira. Saímos juntos e ela tentou dar-me o número. Desculpa, não tenho bateria, nem sei o meu de cor. Lá fora, Sérgio esperava-me no carro. Apitou e voltei a ouvir o meu nome. Nico. Caía uma chuva ligeira sobre Lisboa e lembrei-me de Génova e de Atenas e de todos os que de manhã também haviam tentado acabar com todas as banalidades, excluindo-se da vida. Entrei no carro, acendi um cigarro e perguntei-lhe para onde íamos. "Para lado nenhum."

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oeste

por jorge c., em 07.07.15

Há guitarras nos passeios de LA que arrastam os dilemas e agonizam prolongando a distorção até ao feedback. E há vozes que se escondem nos efeitos secundários, melancolicamente, vagueando pelas canções à procura da juventude, onde já pouco mais resta para além do pôr-do-sol e da brisa do Pacífico. 

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a carta

por jorge c., em 15.06.15

Enviei uma carta da qual jamais me poderei arrepender. Quando a iniciei, já poucas dúvidas me restavam sobre a sua oportunidade e, no momento do envio, as certezas eram inequívocas. Durante essa tarde tomei um banho no tanque do quintal e voltei a pensar nela. Era uma carta como todas as outras: tinha morada e data; o tom inicial era cordato e correspondia às melhores práticas protocolares; o texto obedecia às mais elementares regras da lógica, da coerência, e a estrutura gramatical era, na melhor das opiniões, irrepreensível. Eram seis da tarde. Por aquela hora a carta seguira o seu rumo habitual; pela manhã sairia do posto dos correios, onde um funcionário experiente e zeloso entregaria a correspondência ao carteiro que, por sua vez, atravessaria a cidade e a colocaria na morada do destinatário, a qual eu conferira as vezes necessárias de modo a evitar as maçadas do extravio e das moradas inexistentes. Coloquei, aliás, o código postal completo, pois a referência dos últimos três números é fundamental para a eficácia do processo, segundo aquilo que nos é dito nos serviços e, nestas coisas, não devemos ser nós a provocar o problema já que o interesse não é senão nosso. O cumprimento de todas estas regras acabaria por me despertar um sentimento de satisfação serena. Encostei a cabeça na beira do tanque, fechei os olhos e fiquei a ouvir os pássaros a anunciar o crepúsculo. A satisfação transformou-se num imenso bem-estar e acabei por adormecer ao som de junho, sem sequer esperar que a carta chegasse e pudesse, então, ler aquilo que me havia escrito a mim mesmo.

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No balcão peço um Cutty e um Suave. "Suave não temos". Então pode ser um Chesterfield remediado. Há uns anos um amigo dizia-me que Gauloises era tabaco de existencialistas. Nunca gostei de existencialistas e, na verdade, também nunca gostei de realistas, surrealistas, neorrealistas e parvenus em geral. Ando aqui só pelos cigarros - algo sem grandes conotações -, o uísque é só para não cair tudo em seco. Há também este dilema terrível na escolha do lugar indicado para um gajo se sentar. Se se fica ao balcão, sozinho, parece sempre que se anda ao ataque, ou que se está com um pifo tão grande nos cornos que a solidão que a ele deu origem vai procurar abrigo nos braços desinteressados de uma conversa de circunstância. Se se escolhe uma mesa, dá-se aquele ar pretensioso de quem também não tem muito que fazer na vida, ou de parvo que chega sempre antes da hora, esperando infinitamente pela companhia que há-de vir, o que é capaz de ser bem pior. Feitas todas as considerações, escolho passar por parvo na solidão do balcão, dividindo desta forma o mal pelas aldeias. Uma decisão como outra qualquer, sem grandes compromissos. E é no meio de todas estas preocupações excessivas que me vou distraindo sem prestar atenção à música. Primeiro que tudo acalme, ainda reparo numa mesa com dois rapazitos de fatinho, vindos directamente dos escritórios, quem sabe, que vão discutindo o governo, os problemas da esquerda e da direita, a realpolitik e o mercado, tudo isto com os telemóveis e os tablets à disposição. Um like aqui, um tweet acolá - está tudo a acontecer ao mesmo tempo, é preciso não defraudar as expectativas da comunidade online. Dou uma olhadela no telemóvel, sempre me vou sentido integrado e mantendo a sensação de que estou à espera de alguém. Sem qualquer razão abro a caixa de mensagens e vou lendo algumas delas: "Caro cliente, aproveite este fim-de-semana as promoções que preparámos para si. Até dia 4, todos os produtos com 20% de desconto." Simpáticos. Uma outra: "devo interpretar este teu silêncio de alguma forma?" Talvez da mesma forma que os tipos da primeira mensagem - sem dramas. A música não está má. É o free jazz de outras noites, sentado na marquise a ouvir os carros a passar na auto-estrada e o vento a bater nas janelas. Devolvo o telemóvel ao esquecimento e peço mais um. O rapaz é eficiente e parece não querer contribuir para a possível angústia de uma espera. Estamos todos à espera de alguma coisa, não é assim? Um inevitável cliché dos tempos, tão comum como o desaparecimento do free jazz nos bares; dos bares do free jazz; da simples intenção de nos sentarmos ao balcão a pensar no ritmo da cidade e a desfrutar as cores e as sombras dessa luz tépida que esconde os rostos, sem nos deixar irremediavelmente sós numa noite normal de semana, livre de considerações alheias. E com isto, quinze cigarros, quatro ou cinco Cutty's, era a conta, obrigado e bom dia.

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novas oportunidades

por jorge c., em 21.04.15

Pouco depois da intervenção estética em 2002 - restiling, para os mais novos -, o café "Pampilho", propriedade de Zé Alves, vítima de um AVC aos 78 anos, abandonou o seu registo de taberna para dar lugar a uma cafetaria de meia-idade. A filha e o genro, trabalhadores por conta de outrem até então, decidiram pegar no negócio e fazer daquilo uma coisa mais moderna e com asseio. "Não quero cá bêbados e drogados e isto agora é que vai ser uma coisa como deve ser". Mai'nada! Mas foi quando Patrícia começou a trabalhar de empregada de mesa que o Pampilho ganhou prestígio na praça. Experiência na área, bom relacionamento e foco no cliente, tudo características fundamentais para o exercício das funções - o perfil de trabalhador adequado, segundo as melhores revistas da especialidade, todas as quintas-feiras nas bancas com o seu Correio da Manhã. Em breve, o estabelecimento tornar-se-ia um centro de dia, um salão de chá de senhoras com idade para fazer exigências e serem tratadas como marquesas. Patrícia tratava-as com o carinho de uma neta, brincava sem ser inconveniente e por vezes era até irreverente nos comentários. Muito boa rapariga, era a opinião generalizada, não obstante os atrasos, a cabeça sempre noutro lugar, um pouco longe dali, duas linhas de transportes, mais 10 minutos a pé, um namorado que às vezes era, outras não, a cama vazia e os olhos confiantes e sorridentes da tarde transformados numa praia de lágrimas pela noite, até à manhã seguinte, o peso nos olhos que atrasava o despertar e o ar de noites longas aos primeiros cafés da manhã. "Anda nas noitadas" diziam todos os dias, como um mantra de quem reforça uma ideia tantas vezes quantas as possíveis para se esquecerem dos seus próprios pecados. Se era assim tão alegre, não devia ser, porque tanta alegria era tontice ou hipocrisia, dependia para o lado em que estivessem virados - eles, os monstros de Patrícia, na voz dos patrões ou de uma outra velha mais ressentida. No dia em que Patrícia foi encontrada caída na cozinha já não havia grande esperança em lhe provar que o mundo não era só aquilo. 

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vai passar

por jorge c., em 16.02.15

Pelas duas da tarde o sol escondera-se por detrás das nuvens, deixando o frio à solta pelas ruas vazias, no meio do comércio encerrado para férias de Carnaval ou à espera de nova gerência, num silêncio apocalíptico. Enfiadas em fatiotas com um brilho sintético e áspero, as crianças seguem animadas, vestidas de ícone da moda ou com trajes consagrados pelo tempo, subvertendo a autenticidade do disfarce com meias de lã, sapatos de fivela e camisolas interiores para as proteger do frio de Fevereiro. Seguem para o desfile que se vai compondo timidamente com meia dúzia de atrelados puxados por tractores, transportando raparigas semi-nuas que dançam arrepiadas numa folia calculada, numa irreverência forçada pelo som desadequado de um Trio Eléctrico, sem uma alegoria suficiente que lhes devolva o espírito. Vai passar o Carnaval dos conformados, dos sem imaginação, daqueles a quem tiraram o brilho original, atirados para uma eterna quarta-feira de cinzas. 

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sam & julia

por jorge c., em 09.02.15

Numa das mais amenas tardes de Maio, sem que as sombras provocassem um desses arrepios desconfortáveis, Sam e Julia caminharam pelas vielas da cidade com a mesma frescura dos vinte anos: as palavras trocadas como uma sinfonia de Ellington, os gestos fluidos de ambos a convergir numa dança, como se os seus corpos se tocassem, sem se tocar. E nesse mesmo compasso, olharam o céu sobre as casas da cidade e viram o dia passar como um fôlego infinito.

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subúrbio

por jorge c., em 12.12.14

Segue João com o sapato novo, novinho a estrear, pela rua fora, todo vaidoso. E dizem os outros homens "lá vai o vaidoso do João, de sapato novo, deve andar cheio dele para andar a passear". E vai mesmo vaidoso, olhem para ele, fim do dia que o patrão deu, de folga - um mãos largas - que a chuva não é boa para a obra, só o dinheiro faz falta, mas que se foda, só desta vez, que também merece o brilho do sapato novo porque com ele brilha o olho e o espírito. E agora sobe o João até ao bairro bem lá no alto, a cidade cá em baixo, retiro do bom na tarde invernosa, no calor do peito de Vanda, de amor e sapato novo. Na cabeça do autor, ouve-se Futecêra D'Cor Morena do grande Travadinha. E foi tudo poesia.

 

 

para s.

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rocket man

por jorge c., em 21.11.14

Tenho recorrido a serviços de prostituição desde que, nos últimos meses, me encontro distante de casa. A zona é fria e deserta. À aldeia mais próxima da obra só vem gente de passagem para comer qualquer coisinha, para comprar ferramenta ou para amolar a ferramenta, como é o meu triste e deprimente caso. Tenho olhado as montanhas na esperança de uma revelação que alivie este desconforto do corpo, que mais parece andar a revolver-se por dentro, à procura. Primeiro sentem-se as vísceras a empurrar a cabeça e a apertar o coração que vai acelerando. Depois vem o desespero porque a cabeça quer libertar-se, como uma nave de um foguete, e não consegue. À noite, o estado complica-se e não se adormece com facilidade. Sim, querida, o dia hoje correu bem, e o teu?

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cena de café para memória futura

por jorge c., em 20.11.14

Saímos a correr do metro em direcção a uma pequena coffee-shop numa das primeiras ruas do bairro. Não era bem um café, daí que lhe chame coffee-shop, visto que lhe dá o tom pretensioso e deslumbrado necessário. Era um lugar confortável onde nos separávamos temporariamente do desalento da chuva e do vento. Do lado direito, uma mesa com duas poltronas onde dois tipos bem parecidos se encontravam sentados. Um deles lia uma revista, o outro parecia atarefado com as definições do telemóvel e ia trocando impressões com o dono do negócio, numa voz muito bem colocada que enchia a sala de uma certa familiaridade, apesar do excessivo tom cosmopolita, de quem está no seu domínio e o resto é senão paisagem. Talvez estivéssemos ali a interromper aquele momento de alguma privacidade com silêncio, ou pelo menos ficou essa sensação, quando a música assumiu o protagonismo do espaço. O tema que soava nas colunas não era difícil de reconhecer, naquele ano de 2006, pelo sucesso que garantiu ao ambiente destes lugares da urbanidade, criando dentro do ruído e da urgência da cidade um breve espaço de languidez e doce melancolia. Nos anos seguintes, o som chill-out desse Love can damage your health, dos Télépopmusik, perder-se-ia no meio de outras novidades. Daquele fim de tarde de chuva, no chamado coração de Lisboa, sobrou a urgência e perdeu-se a estética - o único sítio onde gostamos de regressar.

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salário

por jorge c., em 14.11.14

A gaja espirra e tosse como uma hiena. Quero matá-la. Não que eu saiba como espirra ou tosse uma hiena. Tenho, apenas, a sensação de que as hienas são animais miseráveis, feios, sonsos e que tudo isso se manifesta nas mais variadas excreções que o corpo permite. Pouco depois, aparece o Bruno da Contabilidade com as graçolas e os trocadilhos, aos quais todos acham imensa piada, sobretudo o Sousa, para quem o Bruno é "um tipo do caraças". O Sousa acabou de arrotar, coisa que faz habitualmente, inclusive de manhã. Na minha opinião, o Sousa é um porco, para além de ser fascista, o que nem sempre coincide. Por mim, o Sousa podia ser fascista à vontade desde que não arrotasse por sistema e não passasse o dia todo a informar os demais dos seus mais íntimos desejos com a Xana das Vendas. A picha, a sarda, os colhões, o cagueiro e as bordas da cona são expressões que dispenso ouvir quando estou a tentar dizer a um cliente, por telefone, que o atraso na entrega da encomenda das próteses não é da nossa responsabilidade mas que tentaremos resolver o assunto com o máximo de brevidade, pedindo, desde já, as nossas mais sinceras desculpas por qualquer incómodo. São cinco da tarde e a hiena está a dobrar a mantinha para se pôr ao fresco. Vontade não me falta. Mas um gajo tem de ficar para fazer de conta que se esforça para além da obrigação. O Bruno, por exemplo, estando de chuva, fica ali sentado a olhar para o tecto e a fazer comentários sobre um dos seguintes assuntos: engenharia civil; o melhor sítio para se comer uma francesinha em Lisboa; os planos para o fim-de-semana com o cunhado e um amigo de ambos que é polícia e segurança numa discoteca em Torres Vedras; invariavelmente, gajas. Lembrei-me, outra vez, de Isabel e das tardes soalheiras nas margens do Coura, a falar do futuro. Vou embora. Está a chover.

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o outro

por jorge c., em 11.11.14

Quando voltou as costas para regressar a casa, Graciano olhou ligeiramente para trás e pediu desculpa. Não era com intenção de ofender que brincava com Paulo por este viver na grande muralha de edifícios no sul do concelho. Quando chegava à escola, sabia que o amigo acordava cedo, no meio do betão, e vinha a correr para Vila Franca para respirar alegria, apesar de nunca dar parte fraca. Todos os dias, a conversa sobre a arrogância da provinciana capital de concelho e a arrogância da suburbanidade descaracterizada haveria de aparecer. Mas naquele dia viu o amigo triste. Tudo era cinzento. Como podia aquela grande muralha tapar o sol da vida, separar as mãos e quebrar os rostos no fim do dia? Na época das festas, Paulo não brincava nas ruas com os toiros e raramente aparecia. Tantas foram as vezes que Graciano o tentou aproximar... Se calhar estava na altura de aceitar ser convidado. Olhou para trás e pediu desculpa.

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uma compota vulgar

por jorge c., em 10.11.14

Era Domingo e jogava o Benfica. Comecei o dia a comer torradas com queijo de cabra, e uma compota de framboesa bastante vulgar, e a ouvir baladas do Dexter Gordon, em frente aos montes. A sala estava escura e acolhedora, mas não havia chá na dispensa, pelo que decidi continuar sozinho. Pensei ligar-lhe, talvez para dançar um pouco ou para olhar os montes em conjunto a ouvir as baladas do Dexter Gordon. Peguei no casaco e no cachecol, sem fazer a barba, e saí em direcção à avenida. Pensei na Galiza e nos seus bares onde, ao Domingo, debaixo de uma luz tépida, se ouvem as baladas do Dexter Gordon e se dança com olhos de amor serenos. 

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campino negro - III parte (final)

por jorge c., em 04.11.14

Apesar de um breve susto, não ficou surpreendido. Na verdade, já esperava ser confrontado pelo fenómeno obscuro que parecia estar na moda por aqueles lados. Ergueu ligeiramente o corpo e ficou a apreciar o cenário: um cavalo negro montado por um homem trajado de campino, de rosto indefinido e sombrio, ambos com uns olhos prontos a serem nomeados para a categoria de demónios do ano, que acabariam por condizer com o ferro da casa bordado na jaqueta. Tudo a arder, em volta, como uma aura dantesca que abre as portas para as profundezas da escuridão eterna. No que diz respeito a efeitos visuais, a coisa era muito realista, e digna do melhor cinema que se faz lá fora. Estavam todos de parabéns!

Quando se preparava para acender a luz do candeeiro (não que fosse necessário), o campino apontou-lhe a vara ao ombro, carregando ligeiramente para o devolver à posição inicial. Sentado na cama, António tentava perceber o que se estava a passar mas, do outro lado não havia qualquer reacção.

- Ouça, podemos chegar aqui a um acordo...

Tentou de tudo um pouco. Nem uma, nem duas. Nada. Começou a inquietar-se, a ficar impaciente e descontrolado. Invadia-o, agora, uma ligeira sensação de medo. A criatura era impenetrável. Desesperou e, já de joelhos, resignou-se ao seu fim. Foi então que começou a confessar-se, assumindo vigarices e aldrabices como se estivesse perante o juízo final, mas sem sentir qualquer arrependimento, apenas para ver se ainda lhe calhava algum indulto pela honestidade demonstrada. Então, por detrás do cavalo, surgia uma nova figura. Lentamente, vinda dos confins do universo, a imagem de uma nova criatura, numa cadeira de rodas, aproximava-se até acabar por estacionar a viatura ao lado do cavalinho. Estava ali montado um belo espectáculo, sim senhor!

Quando as chamas iluminaram, por fim, a nova visita, reconheceu-lhe as feições e o género austero e aristocrata de outros serões, à mesa do grande salão onde toda a família se reunia como que num ritual sagrado. Ao pé da avó Amélia viviam em regime de elevação e exigência vitoriana, para que se formassem homens e mulheres de carácter. No seu caso, o resultado não terá sido o desejado. E agora, ali estava a velha outra vez, prontinha para mandá-lo para o inferno. Por momentos, enquanto a cena não avançava, chegou a pensar que tudo isto poderia ser transformado numa oportunidade de negócio; que toda esta coisa dos fantasmas seria um golpe de marketing nunca visto e pessoas de todo o mundo viriam para confirmar com os seus próprios olhos. Ficaria rico em dois tempos, sem precisar do cobarde do Berto. Enquanto tentava encontrar forma de acalmar os ânimos, o silêncio rompeu-se e o animal largou uma grande bosta. O quarto do fidalgo ficou impregnado com o cheiro da natureza e, então, a velha falou:

- Se o menino está, neste momento, a sentir o cheiro dos excrementos do cavalo, então é porque não está a sonhar. Como deverá saber pela educação que o seu paizinho lhe concedeu, o olfacto não tem memória, logo, nunca poderia sonhar com um cheiro, por mais intenso que ele fosse. Os sonhos são feitos de memória - do passado, do presente e do futuro. Na verdade, a memória é algo que também não o parece preocupar e, por conseguinte, é assim que chegamos a esta escatológica realidade. 

- Muito bem, ouça...

- Silêncio! Falará quando assim eu entender. Desde criança que o seu comportamento e as linhas que traçaram o seu carácter se desviaram da nobre matriz cultivada pela família ao longo das gerações que a compuseram. Talvez nunca tenha entendido que uma herança é de matéria incorpórea e que o seu peso significa um sacrifício individual por algo muito maior do que nós. Nestas terras não corre apenas o nosso sangue, porquanto muitas mulheres e homens nelas trabalharam e por elas sofreram, na esperança da felicidade. Delas não sois digno. Restam-lhe, assim, poucas horas para arrumar as suas coisas e partir. Caso tal não aconteça, todas as suas noites terão a visita deste fiel maioral - guardião do tempo e da memória - que não lhe permitirá um momento de paz.

- Mas, Senhora Minha Avó...

 Como a permissão para se defender não lhe fora dada, o campino avançou sobre ele, ainda com o rosto indefinido, mas com uns dentes lancinantes como um Cérbero. O menino teve medo. Depois de três ou quatro rugidos, atirou-lhe uma segunda vara e começaram os dois a dançar o fandango. Como a habilidade do pobre diabo do Mello para o duelo era menos que razoável, um raio disparado da vara do Campino Negro abriu um buraco no soalho até às profundezas do derradeiro abismo, deixando o desgraçado suspenso pelas ceroulas. Era o fim.

Quando despertou já o quarto tinha regressado à normalidade. Olhou em volta, assustado, e nada, mas ainda conseguia sentir o cheiro do inferno. Vestiu-se à pressa e saiu miserável. Era Domingo.

Não pense o leitor que a Herdade de Montes Claros conheceu, depois de tudo isto, dias muito sombrios ou muito felizes. Como em tudo, os dias foram passando e, um por um, lá se foi reconstruíndo. Quando Isabel chegou ao solar, esperava-a Pedro Inocêncio, seu amigo de infância que agora lhe entregava uma carta perdida, deixada por seu pai, o menino Eduardinho. Era uma descrição bela da lezíria e um chamamento da sua gente, para que não a abandonasse à mercê da sua sorte. Olhou para Pedro e disse-lhe num tom melífluo:

- Vai ficar tudo bem.

 Nessa noite houve sexo. 

 

FIM 

 

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campino negro - II parte

por jorge c., em 01.11.14

Não é fácil um homem tomar decisões contra as suas mais profundas convicções. Se não acreditava em fenómenos do além, como poderia tomar uma decisão com base num esoterismo? O dilema tomou conta do seu espírito, porquanto a incerteza e a dúvida começavam a dominá-lo. Pela primeira vez, duvidava, punha em causa séculos de ciência, de racionalismo, de lógica, de dialéctica. Tinha de haver uma explicação. Provavelmente, um dos seus primos, invejosos maltrapilhos, queria deitar a luva ao que era seu por direito e montou ali um teatrinho, de forma a expulsá-lo dos terrenos. "Era o expulsas!" Dali, ninguém o tirava. 

A ordem era para disparar a matar. O Sargento tinha assegurado que a guarda testemunharia a legítima defesa se algo se apresentasse como um facto imprevisto. Quanto aos fantasmas, se existissem, não teriam personalidade jurídica. O importante era resolver o assunto à moda antiga, que estas coisas não se podem tratar com paninhos quentes e esperar que venha uma rapaziada de Lisboa cheia de estudos e formalismos que só atrapalha e não chega a conclusão alguma. Para além disso, o negócio era surpresa e não é justo estragar uma surpresa. O Dr. António e o sócio queriam passar despercebidos, sobretudo perante o fisco. Gente modesta e discreta.

Foi então que mandou Berto ir lá com o sargento, a meio da noite, de forma a certificarem-se de que não aconteceriam mais episódios daqueles. As obras atrasavam-se cada vez mais e, como se sabe, o dinheiro não pára, como as passadeiras dos aeroportos: ou se é eficaz na recolha da bagagem, ou já era. Há que ser implacável e fazer acontecer. Podíamos ficar aqui o dia todo a trocar galhardetes de auto-ajuda mas a história tem de avançar e o campino prepara-se para atacar.

Ainda não era meia-noite quando se instalaram debaixo do sobreiro, com as armas em riste, à espera de movimentos suspeitos que pudessem vir de além, que é como quem diz do além. Se Deus os ouvisse, diria que tinham perdido o juízo, contudo, como é sabido, Deus não dorme mas descansa a vista e, àquela hora, não estaria para se chatear com detalhes sem importância. A religião tem minudências caprichosas que nos dão imensa margem de manobra. Um tipo com boa breakage consegue mexer-se muito bem nas vielas da vida, para depois seguir pela auto-estrada da eternidade sem contratempos. Como não se passava nada, Berto sacrificou-se e decidiu pensar. Depois de uma reflexão exigente, concluiu que o mais indicado seria simularem uma situação de obra de modo a que os fantasmas, ou lá o que era aquilo, se manifestassem. Que inteligência! O leitor repare como este homem teve a humildade e o discernimento de admitir que aquilo que ele e o seu sócio estavam ali a fazer nem aos espíritos agradava. A isto se chama pragmatismo.

Ao contrário de António, Berto era temente e não lhe era fácil desafiar assim o desconhecido. Encheu-se de coragem e ordenou que ligassem as máquinas. Alguns minutos depois, reparou numa sombra que começava nas ervas e se esticava até ao cercado, terminando na figura de um homem sentado, de costas. O homem olhou por cima do ombro e Berto viu-lhe na silhueta o olhar demoníaco, vermelho de sangue do fogo dos infernos. A espingarda tremia-lhe nas mãos, apontou cauteloso e disparou. Mal ouviu o disparo, o Sargento Ribeiro precipitou-se para trás do jipe dando ordem para que os subalternos avançassem. Quando o tiroteio cessou, o homem ergueu a vara e, de repente, uma manada de gado bravo, de olhos igualmente infernais, investiu contra os corajosos militares que, mal a viram arrancar, desataram a correr campo fora até se aperceberem que não tinham onde se esconder. Ainda assim, Ribeiro esqueceu os 97 quilos e seguiu correndo até vislumbrar o solar, onde acabaria por chegar sem o boné da farda, todo desfraldado e apenas com meio pulmão a funcionar - o orgulho da sua mãezinha.

Na outra ponta da herdade, Berto era encostado ao tronco da árvore pela bota daquela criatura lúgubre, sem rosto, apenas com aquele olhar mortífero e que só numa distante aparência se assemelhava a um homem. Um campino, talvez, sim. 

- Que queres de nós? - gritou Berto, aterrorizado.

A criatura estendeu a vara, apontando imperativamente na direcção do solar. Retirou o pé do ombro do pobre empresário que acabou por seguir cambaleante e aos tropeções, durante mais de uma hora. Foi como um farrapo que chegou às portas do solar e, sem parar, remetendo-se ao mais profundo dos silêncios, entrou no seu carro e partiu. Atrás dele, um pouco mais recompostos, os guardas e o seu chefe seguiram-lhe o exemplo e deixavam António Feitor de Mello sozinho. Era só um começo.

Ainda nessa noite, encontrar-se-ia deitado, sem conseguir adormecer. Não obstante a idade do soalho, habituara-se ao ranger da madeira desde muito novo. Nunca tinha sentido medo. De nada. Porém, não podia negar que os acontecimentos das últimas horas atingiram um grau de paranormalidade assustador e que a sua vida poderia estar, agora, em risco. Quando, finalmente, estava prestes a dormir, sentiu uma presença no quarto. Convencido de que estava a ser sugestionado pelo medo, não abriu os olhos de imediato, tentando concentrar-se no sono. O som demasiado próximo dos cascos de um cavalo acabaria por despertá-lo. À sua frente, o Campino Negro. 

 

 

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o campino negro - I parte

por jorge c., em 31.10.14

Na Herdade de Montes Claros não se ferra gado vai para mais de 50 anos. Depois do acidente do menino Eduardinho, a Senhora D. Amélia não mais quis ver o nome da família ligado às coisas dos toiros. Pouco antes de morrer, a matriarca dos Feitor de Mello deixou clara a sua única exigência a José Inocêncio, o Maioral-mor da casa, que havia de governar o campo nos anos seguintes, até entregar a sua alma ao desconhecido. O corpo de Inocêncio seria sepultado junto do jazigo dos patrões, tal era a estima que aquela gente lhe tinha, num mausoléu construído perto da albufeira, no nordeste da propriedade, a 8 quilómetros do Solar dos Feitores. Era como um membro da família, mas sem direitos sucessórios.

No final dos anos setenta, depois de algumas tentativas de ocupação dos terrenos outrora concedidos por D. Miguel ao bisavô de Dona Amélia, pelos serviços prestados e pela fidelidade à causa, o mausoléu acabaria por se degradar e cair no esquecimento dos descendentes, entre os quais se tem destacado, pelo insucesso dos negócios na região, António Feitor de Mello. Conhecido pela sua habilidade para se desfazer do património da família, o filho varão de Miguel Feitor de Mello - irmão do menino Eduardinho - recuperara o ferro da ganadaria e preparava-se para um investimento muito rentável proposto por um homem que procurava, agora, o prestígio e o reconhecimento social que o dinheiro não lhe havia conferido e ao qual, com a ajuda do Conde de Lata, como lhe chamavam na cidade, poderia almejar.

O projecto ambicioso implicava, contudo, a edificação de uma estância turística no nordeste da propriedade. Para o traslado, deparar-se-ia com alguma burocracia o que, com meia dúzia de contactos bem feitinhos e gente posta no seu lugar, não seria um problema. Faltavam, agora, os animais para ferrar - uma jogada duvidosa. Se tudo corresse bem, em 5 anos estaria de volta ao lugar onde acreditava merecer estar, por condição. Como os terrenos eram vastos e por ali não se via viv'alma durante semanas, às vezes meses, decidiram começar os trabalhos para ir dando um avanço às suas ambições. Berto Silva, o investidor que sonhava com jantares nos salões mais nobres do Ribatejo e com a vida boa de Lisboa, mandou os seus homens avançar mal o verão se pôs no horizonte, após a última colheita, no dia 28 de Setembro. Nessa mesma noite, um dos homens seria encontrado catatónico, junto a um sobreiro.

 Estava para ali, todo estouvado no meio das ervas, de olhos arregalados, paralisado. Depois de duas horas de abanões, baldes de água e alguns tabefes, lá reagiu com o coração na boca, em pânico, como quem apanha um susto aterrador, o que, de facto, acontecera. Mal conseguia articular as palavras e o corpo encolhia-se em medo sempre que um dos outros insistia em que contasse o que se passara. Por volta das quatro da madrugada, embrulhado numa manta, tremendo de frio, lá contou, timidamente, o que lhe havia acontecido. Segundo o seu relato, a lua já ia alta quando ouviu um barulho estranho vindo de umas sebes ali perto. Como o patrão não os queria desprevenidos naquela fase do projecto, aproximou-se com o dedo pronto a carregar no gatilho, ainda que as pernas lhe parecessem um pequeno ramo verde a sustentar um grande tronco de madeira, e espreitou por detrás do cercado quando, de repente, foi projectado uns 3 metros para trás pela força de um vulto que - acabou por confessar - lhe parecera uma manada. Julgou que teria tido a sorte de uma vida por não ter sido colhido. Mas, assim que recuperou a verticalidade, olhou para um sobreiro que ficava um pouco mais distante, naquela direcção, e viu uma imagem de um homem, a cavalo, de vara ao alto, enxotando a manada. A imagem do homem, podia jurar, era como uma sombra, negra como uma nuvem de um inverno muito escuro. Os outros ficaram em silêncio, tal foi o silêncio infernal dos olhos do seu companheiro. 

Pela manhã, já todos no solar tinham conhecimento do sucedido. Ignorando a reverência da criadagem solarenga, imbuído pelo espírito pragmático e descrente dos tempos, o patrão mandou chamar a guarda, na certeza de que se trataria de uma invasão de propriedade, prevista e punida por lei. Era um homem muito ciente dos seus direitos. A polícia lá andou junto do cercado, dentro do perímetro indicado e mais além, não tendo, porém, encontrado quaisquer vestígios de invasão, muito menos da passagem de gado por aqueles lados. Seria fácil reconhecer as marcas de uma manada num terreno onde o gado era coisa do século passado.  

- Vamos voltar ao trabalho. Bebam menos e trabalhem mais - ouviram o doutor dizer a Berto num tom ameaçador.

Nos dias seguintes apressavam-se na obra enquanto o sol não descia e evitavam a noite como podiam. Sempre que se preparavam para sair do campo, tinham o cuidado de olhar em volta e arrancavam nas carrinhas a toda a velocidade. Os patrões achavam que os trabalhos iam demasiado lentos e começaram a sensibilizá-los para a importância de prolongar o horário pela noite dentro. Ou isso, ou seguia uma denunciazinha para os serviços de emigração, alertando para a presença de uma dúzia de indivíduos ilegais que estariam, indevidamente, a ocupar propriedade privada. O Sargento Ribeiro concordou que seria limpinho. Assim, os serões junto do mausoléu regressaram a toda a força. E daí, talvez não.

Dois dias após o recomeço dos trabalhos nocturnos, um grupo de três homens apareceu esbaforido no barracão. Diziam que não voltavam ali, que aquilo estava assombrado e que tinham visto o fantasma do campino, tal como a primeira vítima contou. Ademais, há toiros à solta, tendo um deles sido parcialmente colhido contra um tabique que acabaria por lhe salvar a vida. Quando levantou a camisa e mostrou as marcas dos pitons do toiro, António Feitor de Mello alarmou-se. Não podia ser; não havia gado bravo ali desde os anos 60; não havia marcas no chão. Mas, que raio se estava ali a passar?

 

 

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o quotidiano de um ocidental

por jorge c., em 27.10.14

Odeiam as segundas-feiras, precisam de um café, adoram o sol e detestam a chuva. Gostam de sítios castiços e típicos, de um bom vinho e uma boa música, de animais fofos e crianças. Apreciam coisas, a outras acham o máximo; fartam-se de achar, de ter uma opinião pessoal toda sua, isenta e irreverente, politicamente incorrecta. Acreditam que o que é importante é pensamento positivo, amar a vida e gente bem disposta e bonita. Adoram livros, daqueles de alfarrabista, por causa do cheiro, se bem que o último do Murakami está óptimo. É sobre as pessoas. A altura do Natal é aquela que mais os faz sentir felizes, com as iluminações e as cantigas, para além da Primavera, dos Festivais de Verão, do sunset na prainha do seu Algarve ou os fins-de-semana no Alentejo a comer pão alentejano e comida alentejana e vinho alentejano e tudo o que puder ser alentejano. No sábado foram à baixa, que está com imenso movimento, cheio de sítios super giros. E as gentes de Alfama e os seus pregões. Quando ao fim do dia chegou a carrinha de recolha dos clichés, voltaram para casa e deixaram-me em paz.

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deixem passar o rapaz

por jorge c., em 09.10.14

A partir do momento em que Júlio pisou a areia e começou a correr era tarde demais. Da decisão ao primeiro impulso passaram milhões de átomos que o tempo relativizou numa câmara lenta de pernas decididas e sólidas no chão, de joelhos de mecânica perfeita, o tronco hirto e o olhar focado no alvo. O risco é mais reduzido para quem aqui anda há muito. A poucos metros já tinha a garantia da eficácia do movimento. Seguiu confiante. Aprendeu com os mais velhos, observou e arriscou tantas vezes que só a mão de Deus o poderá ter guardado quando um dia, numa dessas largadas manhosas, quase foi agarrado contra as tábuas. No momento em que se preparava para citar o toiro, um homem que se escondia num burladero ali perto lançou uma lata de cerveja vazia que acabou por bater com estrondo no lancil descoberto do passeio, desviando a atenção do bicho para o lado contrário, no preciso instante em que Júlio cruzava o piton direito. Não pense o leitor que me confundo nos tempos - foi tudo de repente. À sua passagem remediada, o toiro arrancou-se na sua direcção, baixando a cara para o levantar pelo tornozelo com o piton esquerdo até ao céu infinito onde se sentiu a levitar, como se o mesmo Deus que o guardou, o estivesse agora a levar. Não ouviu mais nada. Durante um ano ninguém lhe pôs a vista em cima. Apareceu ontem com um pano na mão e passou em frente ao toiro como se nada tivesse acontecido.

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a praia

por jorge c., em 21.08.14

Todos os anos, Cardoso é coagido a passar férias em Agosto. Não é fácil. A mulher põe-se a ver aqueles programas da tv com as raparigas novas todas bronzeadas - e bem boas, não pode negar - e quer replicar a experiência. A prainha, o sunset, a selfie no sunset da prainha - todo um conjunto de emoções projectadas nos aparelhos da audiência online. Na sua cabeça faz tudo sentido. Mas, Cardoso já sabe como é, um gajo carrega o carro com meia-casa, não vá faltar alguma coisa indispensável à sobrevivência: a máquina dos sumos, por exemplo, 3 ou 4 casaquinhos para pôr pelas costas que pode muito bem correr uma aragem marota, sapatos para as eventualidades (festas e vernissages), cabides para o caso de não haver no apartamento, mais um ou dois cobertores, as coisas da praia (cadeiras, 2 chapéus de sol, toalhas, cremes, chinelos e chapéus) e é uma pena que não caiba uma ou outra pecinha de mobília para nos sentirmos mais em casa. "Eu não te disse que isto ia dar jeito?", dirá ela, por mero capricho, na única vez que utilizar um dos objectos. Duas horas depois arranca em direcção ao Algarve, coisa que mais ninguém se parece ter lembrado até chegarem à ponte sobre o Tejo, porque a maria gosta de passar pelo grande aqueduto, e se aperceberem que estão metidos numa fuga colectiva, como se estivessem a ser evacuados por causa de uma catástrofe ou de um ataque extraterrestre. Chegados a Armação de Pêra - conceitos de Algarve que não iremos discutir por agora - toca a descarregar e subir os 4 andares do apart-hotel sem elevador, cortesia das Construções Alenquer Lda., empresa falida pouco antes da conclusão da obra do poço do elevador. São clientes habituais. Mesmo partindo de manhã, só lá pelas seis da tarde é que está tudo pronto, ficando ainda a faltar a ida ao supermercado e a confecção do jantar. Para este, não será difícil: comida de puta, que é uma escolha mentalmente pouco desgastante neste tempo de repouso. Os ovos com salsichas serão, aliás, a ementa preferencial do resto da estadia, bem como a salada de atum e a pescada cozida, para não perderem a forma, em prejuízo do apetite. No dia seguinte lá põem, finalmente, o pé na praia. Como estiveram a fazer as sandes para o dia todo e Sónia gosta de deixar tudo arrumadinho, não vá aparecer a Rainha de Inglaterra ou aquele rapaz que anda sempre aos saltos na televisão, que é uma pessoa que aparece em todo o lado (vá lá saber-se porquê), quando chegarem à praia, a areia ter-se-á transformado em pele e tecido. Será quase por milagre que um casal de mamutes e os seus três encantadores aprendizes de taliban, após contenda familiar que provocará graves incidentes diplomáticos, devido ao ruído que, por pouco, não invadirá Ceuta, decidirão dar a debandada. "Olha ali um lugar", largada e fugida, e lá vão eles, à conquista do metro quadrado de sonho e que, só mesmo em sonhos, será seu, pé ante pé, no meio de co'licenças e mil perdões, truques de equilibrismo e passagem de obstáculos olímpicos. Depois de uma tentativa gorada de dar um mergulho, entre criancinhas a chapinhar em pranchas de plástico que lhes darão a ilusão do surf e motas de água na zona mais livre para dar umas braçadas, regressam ao, então, pequeno espaço partilhado com quatro adolescentes à procura da sua personalidade. Mesmo que se consiga estender, não evitará os banhos de areia, os tropeções alheios e a negligência de bolas inconscientes. No momento em que ficarem mais à-vontade, começarão as pressões para regressar ao apartamento. Há coisas para fazer, banhos para tomar, o jantar e os preparativos para a manhã seguinte, de forma a programar uma chegada à praia mais vespertina. À noite, depois da louça lavada e do final da novela, dão um passeio mais urbano, acompanhados pelas melgas e mosquitos para os quais destacarão, ao longo do serão, toda a sua atenção. Nos dias seguintes, a rotina manter-se-á, exceptuando o passeio ocasional à marina de Vilamoura, numa ambição disfarçada de encontrar pessoas conhecidas da televisão ou das revistas, e do penúltimo dia, durante o qual estabelecerão um breve contacto com um "casal amigo", tal como Sónia lhes chamará mais tarde, na rentrée do trabalho. Enquanto eles se abeiram da água, como quem faz, finalmente, uma pausa para cigarro, numa conversa sobre as trivialidades do trabalho, do crédito e da pré-época, elas ficarão a definir as estratégias dos seus recentes matrimónios, traçando planos que os dois ex-indivíduos só conhecerão mais tarde: os filhos, o colégio dos filhos, a progressão na carreira e as férias paradisíacas. Cardoso anuirá resignado. Na manhã a seguir ao regresso, acordará exausto a caminho do trabalho, desejoso de férias. Voltará a imaginar-se a banhos na Ferraria, em S. Miguel, com os seus colegas de faculdade, ou nos festivais de verão onde, em tempos, se sentiu livre de obrigações e compromissos sem sentido. A rotina mudará apenas de sítio. Trabalho suplementar nunca foi férias.

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a margem de ferro

por jorge c., em 29.07.14

Os padrões e estereótipos tomaram sempre conta da vida no bairro. Talvez assim o seja nos outros bairros mas, foi neste que Marcos cresceu e conheceu o seu primeiro mundo. No liceu a diferença era pouca. Notava-se nas roupas, nos cabelos, nos gestos e pouco mais. Os dias passavam entre irreverências parvas, glórias fáceis e sofrimentos tão profundos como um filme de domingo à tarde. E era precisamente ao fim-de-semana, ou nas férias, que os espíritos se revelavam, entre a lide doméstica, os desentendimentos familiares provocados pelo incumprimento das regras, os namoros em cima das motorizadas ou os passeios nos carros que ostentavam modificações grotescas ao modelo original. Desenhou tudo isso a carvão e, quando o papel acabou, foi comprar mais a Lisboa, para voltar apenas ao fim do dia, já cansado mas deslumbrado com a urbanidade dos estilos. Numa dessas viagens cruzou-se com um fantasma do passado, uma auto-proclamada rebelde, na adolescência, assumindo-se como "muito frontal" e "independente". Faltava, com regularidade, às aulas, não por irreverência mas, antes, por necessidade. Aos fins-de-semana, Soraia era reclusa de uma história de violência e de obrigações anacrónicas provocadas pela autoridade embriagada do pai. Pouco depois de ter começado a trabalhar na fábrica, ainda se inscreveu num desses concursos para jovens talentos na tv mas, acabou por não passar à fase seguinte, por motivos pouco claros. Perseguiu o sonho de ser cantora, como dizia, por bares de karaoke, de Alverca a Sacavém, chegando mesmo a cantar no Parque das Nações, numa bonita noite de inverno. Na altura, dizia-se que, se procurava sucesso nesta área, era no oeste que apareciam muitos caçadores de talentos e gente ligada ao meio, em fuga da rotina. Foi lá que conheceu o pai do seu filho, que andava desejoso por sair da Malveira para viver mais a cidade, nos arredores de Lisboa. O fim do sonho artístico começaria no banco de trás de um ZX, na Ericeira, e estender-se-ia por toda a vida, como quem tem saudades do que nunca foi, no Bom Retiro. Os breves apontamentos de Marcos, sobre uma anti-heroína suburbana, nunca sairiam do seu bloco de notas. São histórias que não interessam a ninguém.

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jovens empresários

por jorge c., em 23.07.14

Dizem que é "olho para o negócio", este instinto de adaptação às circuntâncias que vai adequando aos tempos. Andou no esquema dos telemóveis; foi sócio de um cyber café chamado Espaço 2000; promoveu festas dos anos 80 nos anos 2000, já o café futurista tinha sido passado a um jovem casal de 40 anos, através de uma ajuda preciosa da Associação Nacional de Jovens Empresários, transformando-se no proeminente snack-bar Matias; vendeu produtos de beleza e dietistas. De há uns anos para cá, graças a uma internet muito diferente do seu tempo do cyber café, começou a ler autores americanos que falavam de novas práticas e sugeriam abordagens inovadoras. É a auto-ajuda da gestão e do marketing. Tem assistido a conferências através de vídeos disponíveis online e está a desenvolver um novo projecto, como se diz agora. É uma plataforma de serviços que agrega clientes e empreendedores. A sua linguagem super-positiva não anda longe dos anúncios de tele-vendas que consumiram a televisão nos anos 90. Gosta de exteriorizar a sua opinião sobre os sacrifícios e a necessidade de trabalhar, ao invés de andar para aí armado em doutor. Tem 44 anos e é profundamente infeliz.

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cidadania na pastelaria

por jorge c., em 21.07.14

Não tendo sido o caso que me ocupou as maiores preocupações das últimas semanas, já que no gabinete contíguo a este, onde me encontro, uma das estagiárias insiste em considerar as opções que as frequências médias da rádio fazem por si, foi um episódio que se viria a revelar de interesse mediático durante algum tempo. Quando naquele dia entrei na pastelaria reparei, inadvertidamente, na irritação de Telmo Conchinha, já que essa era a sua habitual postura na vida - uma escolha legítima, como tantas outras. Há homens que despejam baldes de bonomia pelo passeio público, outros que destilam as mais variáveis formas de ressentimento, outros que, de tão confiantes consigo próprios, passam pela rua sem se aperceberem dos restos mundanos. Telmo Conchinha escolheu andar sempre irritado. Não me recordando ao certo das suas primeiras manifestações, a grande explosão aconteceu quando o rapaz do talho (era assim que o conhecíamos, julgando eu, até, que nunca lhe haviam perguntado o nome) comentou o desaparecimento do marco do correio. Confesso que ainda agora me admiro por não terem voado logo os cinco pratos, três chávenas e respectivos pires e os dois copos que se encontravam em cima do balcão. Indignado, Conchinha reuniu ali um núcleo de contestação que se disponibilizava para a criação de um movimento pela memória patrimonial. O marco do correio, ao fundo da rua, era um símbolo inequívoco de toda uma identidade - diziam. Responsabilizaram-se os autarcas, as autoridades dos "muitos e inúteis institutos públicos", o governo, e chegou mesmo a sugerir-se uma queixa a apresentar nas Nações Unidas. O argumentário era consensual: esta sociedade pós-moderna estava a operar cirurgicamente nos valores e nas emoções populares. A carta estava morta. O correio estava morto. Já ninguém escrevia, até porque nas escolas, segundo dizem, os miúdos já não aprendem nada. Especulou-se sobre os motivos que haviam conduzido àquele atentado ao património. Uns sugeriram que teria sido por razões urbanísticas e que o marco era, agora, considerado um impedimento à mobilidade; outros garantiam que estava relacionado com a construção e que tudo não passava de mais uma negociata nas barbas do povo. O director dos Correios estava, como é óbvio, envolvido neste escândalo que o jornalista Idalécio Mendes se propôs a investigar mal acabasse o seu abatanado em chávena escaldada. A discussão ia já longa quando Telmo Conchinha decidiu dar-lhe alguma ordem:

- Meus senhores, temos de ser práticos. A primeira coisa a fazer é enviar um email ao Presidente da Câmara.

Todos concordaram.

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o boato

por jorge c., em 15.07.14

Depois de uma manhã invulgar, por compromissos médicos inadiáveis, Manel dos Pombos - nome herdado de seu pai por razões que agora não interessam contar - não se encontrou com o grupo habitual no sítio do costume. Porém, para que não julgassem que algum incómodo ou vaidade lhe tivesse assaltado o espírito, engoliu o almoço e arrancou em direcção ao placard dos mortos a fim de saber as novidades. Nada. É certo que é mais raro morrer alguém ao Domingo. A segunda-feira costuma, portanto, ser menos agitada. Do outro lado da rua, protegidos pela sombra, os outros ignoraram-no. O homem aproximou-se, dominado por essa incerteza de quem chega a meio de uma festa para a qual nunca houve convite, ensaiando uma atitude confiante. Mas, por dentro, Manel dos Pombos sentia a angústia de uma possível reprovação dos seus pares. Pelo caminho, havia decidido evitar justificações, decisão esta que, não tendo sido bem acolhida, acabou por gerar um desconforto que o obrigou a retirar-se antes do tempo previsto. No dia seguinte, o boato espalhou-se.

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mulheres e burros

por jorge c., em 24.06.14

Subiram o monte, pela fresca, com a procissão. Carregavam os farnéis nas costas; as mulheres compenetradas na reza ao Senhor Jesus e a rotina dos dias em que o pau não folga nas costas a ficar para trás. Seguiam animados, estrada fora, com os casebres a desaparecer por baixo dos silvedos e, ao passar as águas férreas, libertavam o cansaço das pernas com as judiarias do costume:

- Eh, Chico! Olha q'o barril vai furado.

- N'andasses tu a cheirá-lo desde a madrugada.

- É porque acordei cedo. Quem muito dorme, pouco aprende.

Chegados à romaria, abancaram junto das sombras e, antes de estenderem os ossos nas mantas, entraram na pequena igreja com os bonés na mão, com as mulheres chorosas dos filhos perdidos para os poupar a todos da fome, com a fé inabalável dos inocentes. Perdoai-os, Senhor, que o pecado é a vida possível dos homens. E logo de seguida esqueceram a dor e beberam e dançaram e gargalharam. Homens de rosto rude, com um ar tonto e um passo ébrio; burros de carga das coisas pesadas da vida, sem queixume; mulheres da carga pesada dos burros.

Tristezas à parte. A tarde passou. Ficam agora no cimo dos montes a sentir o desequilíbrio do vinho para equilibrar o espírito ao som da toada da cidade e dos campos. Com a Sua benção.

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