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rapazes

por jorge c., em 28.12.15

Nestes dias mais intensos do Inverno, a memória tem-se passeado por pequenos episódios e lugares onde julguei que o esquecimento se instalara. Mas o confronto quotidiano com as coisas do mundo faz-nos sempre regressar a casa. Ou às coisas que são como casa: o recinto da escola, o cheiro dos plátanos, os toldos dos cafés, os muros medievais das boiças, as urbanizações que cresciam ao mesmo tempo que nós e a luz ou o corpo a aquecer no fim da manhã. Às vezes, ainda sinto a adrenalina da espera do toque, dos corredores vazios sob a chuva de Janeiro, dos cheiros dos casacos encharcados misturado com o das hormonas quentes, e com eles essa pressão para sermos rapazes. Dá-lhe um apalpão que elas gostam. Se não deres tu, há outro que dá. Não sejas mariquinhas. E lá a medo, para não sermos diferentes, traíamos a espinha e condenávamos a memória a essa vergonha abissal que durante o resto dos dias tentaríamos esconder.

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manifesto conservador

por jorge c., em 22.12.15

Ao contrário do reaccionário, o conservador não reage ao progresso, resigna-se. Mas essa resignação não tem que se manifestar através do pessimismo. O conservador pode, hoje, ser optimista se for, simultaneamente, libertário. Chamemos conservadorismo libertário à modalidade do conservadorismo que, não abandonando a sua natureza institucionalista, distingue entre intervenientes e beneficiários das instituições e, com isso, prefere a implosão das instituições à tolerância da sua subversão. 

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estranhos em casa

por jorge c., em 10.12.15

A abnegação também é uma vanglória. Desapegamo-nos das coisas não como uma demonstração de indiferença, mas sim de coragem. Enquanto virtude, a abenegação dar-nos-á dissabores, com o tempo. Todos esses lugares que deixámos para trás serão ocupados por outros. Por mais que acreditemos que os lugares não são de ninguém, há um dia em que regressamos e observamos os outros a comportarem-se como proprietários desses lugares que quisemos livres. E então sentimo-nos deslocados, estranhos em casa. Uma nostalgia ressentida consome-nos o espírito e põe a virtude da abnegação em causa. Já nem a luz ou a intimidade nos pertencem. No jardim da Cordoaria. No Twitter. E já não é apenas a sensação de sermos estrangeiros. É a sensação de não sermos bem-vindos.

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da felicidade

por jorge c., em 02.12.15

Em dezembro, nem sempre assim. O rapaz dos serviços administrativos continua a vir trabalhar para passar o tempo. Faz a sua parte, corre de um lado para o outro como se estivesse a fazer exercício físico, repete palavras e toques de telefone que ouve e vai cantarolando ao longo do dia, enquanto insere os dados na plataforma pública. A rádio de serviço nunca é interrompida com notícias e outras chatices. Farto de chatices está ele, só problemas, a vida. A essa hora, precisamente a essa hora, uma bomba rebenta em Istambul e faz 80 mortos. Easy Living de Billie Holiday surge com a naturalidade dos dias de dezembro. O parlamento discute a idade das reformas e os correspondentes cortes nos que se atrevem a antecipar, que isso da velhice é sobrevalorizado. Back in your own backyard dispara num arrepio. O rapaz vai abanando a cabeça ao som do swing do contrabaixo. Trav'lin' all alone. O Natal à porta e a felicidade nas pequenas coisas, no trombone tonto, na hora certa, na burocracia, até que a reforma nos separe. 

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da personalidade

por jorge c., em 01.12.15

Anthony Giddens definiu dois estádios que influenciam a vida do homem em sociedade. Chamou-lhes Sociabilização Primária e Secundária. A Primária será a fase da primeira infância, a educação de casa, o convívio com um círculo mais restrito. A Secundária, a fase de crescimento mais autónomo, com o alargamento do convívio e, logo, da percepção do mundo.

Não sendo eu sociólogo, nem tendo pretensão de falar sobre uma disciplina sobre a qual tenho um conhecimento muito vago, pensava nisto ontem enquanto observava um conjunto de reacções com padrões semelhantes num número alargado de indivíduos. De facto, as redes sociais virtuais permitem, hoje, uma ampliação invulgar do fenómeno sociológico e serão, certamente, um instrumento interessante de estudo. Não me competindo essa tarefa, reparo apenas em padrões, alguns padrões de indivíduos que conhecemos numa determinada altura da vida e que por obra dos algoritmos voltámos a encontrar. Será a mesma pessoa?

A questão tem tanto de filosófica quanto de sociológica. Na verdade, a formação da personalidade não pára, existindo, aliás, uma fase que me parece ser determinante na vida de qualquer indivíduo - a autonomia financeira e uma consequente percepção desse mundo novo que nasce não apenas com a responsabilidade, como também com novas relações provenientes da relação laboral, ou outros círculos que sobre ela gravitam. 

Na fase a que agora me refiro, não é invulgar que qualquer um de nós redefina o seu círculo de amizades, adaptando-o aos seus interesses, aos seus valores mais solidificados e à sua visão da própria vida em comunidade. Enquanto que na fase infanto-juvenil (e até universitária) não podemos garantir que o grosso das amizades sejam escolhas voluntárias, por estarem limitadas por obrigações perfeitamente circunscritas, o modelo de vida construído a partir da autonomia financeira permite uma maior liberdade de escolha.

Talvez possamos chamar a esta fase de Sociabilização Terciária. E talvez seja esta que nos pode ajudar a compreender certas características que, por vezes, nos parecem incoerentes ou, até, inexplicáveis. 

As próprias escolhas políticas, culturais e de consumo, ou a mera relação com o outro, dificlmente se manterão as mesmas a partir do momento em que o indivíduo é confrontado com uma nova relação de responsabilidades, de hierarquias e de cidadania. 

Por outro lado, talvez nada disto faça qualquer sentido e seja só uma tentativa desesperada de auto-justificação. 

 

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