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breves notas sobre a cultura

por jorge c., em 18.09.15

José Gil falava há uns dias na rádio sobre a massificação da cultura e da obra de arte. Na breve passagem que consegui ouvir, o filósofo narrava um episódio a que assistiu num museu, em que dois indivíduos, jovens, passavam pelas obras para assinalar com uma fotografia e dizer "este já está". Luís Naves, num texto de magnífica ira, escreve que "em vez de emoções, as pessoas experimentam obsessivamente novas sensações, tudo à flor da pele, pois estamos na era do explícito e do efémero." Estaremos a passar por um período de desculturação? Ou seja, um período em que o modelo social se inverteu de tal forma que se assiste a uma perda do valor cultural e a uma preponderância do produto de entretenimento que, por sua vez, irá gerar uma sociedade cada vez menos exigente. Esta desculturação implicaria uma quebra na qualidade das elites e da forma do seu mediatismo ou, até mesmo, uma alteração radical das elites e do modelo social proposto pelos meios de comunicação. Não podemos, aqui, ignorar o papel da escola e do serviço público de rádio e televisão, bem como de todo o jornalismo. Não quero dizer com isto que um desmantelamento do fenómeno cultural, que eleva o conhecimento das sociedades, seja provocado. Parece-me mais que se trata de uma desvalorização progressiva, na tentativa de adaptar linguagens à tecnologia. O instrumento tornou-se o fim. A desculturação seria essa subversão.

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volta ao mundo em três memórias

por jorge c., em 18.09.15

Sayid voltou a perturbar-me o sono. Desta vez apareceu noutro tempo, rodeado por uma dessas felicidades raras da vida. Depois disso, lembro-me apenas de o ver deitado numa camarata, acompanhado de umas dezenas de outros homens, todos vestidos de igual. Ouvia-se música e o som inequívoco de camiões. Ouviu-se também um disparo e um corpo apareceu caído junto de uma cerca. Acordei sem saber se a minha personagem teria morrido. A história de Sayid havia terminado, mas agora surgia algo novo, já sem os outros, num outro cenário. Um sonho tão estranho como aterrador. O despertador ainda não tinha tocado. Talvez aqueles quinze minutos restantes pudessem ter sido fundamentais. Quinze minutos é uma vida nos sonhos. Levantei-me e saí para apanhar o avião para Lisboa, com o possível corpo de Sayid na mente e o trago amargo da cerveja da noite anterior a entupir-me toda a zona respiratória. Voltei a adormecer durante o voo mas julgo não ter sonhado mais. No táxi, num francês enferrujado, o motorista confessa estar triste com o que se passa na Europa. O tema propaga-se por toda a parte como um grande terramoto. É a favor. A favor? Sim, a favor. Há quem seja contra. Contra o quê? Toda esta história de refugiados e migrantes e tragédias. Migrações trágicas. Sabe bem o que isso é. Em 75 veio para Portugal para fugir da morte certa. Não era um regresso, mas antes uma vida nova, um outro cenário. Também havia quem fosse contra. Emocionou-se e forçou-me ao silêncio. A luz de Lisboa preenchia o espaço com a compaixão possível, enquanto o taxímetro marcava a passagem do tempo numa luta clássica entre a melancolia e a urgência do fim do dia. Lembrei-me de Julio Cortázar e da sua breve história porteña. Às vezes o mundo cabe todo numa pequena viagem nos transportes públicos.

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las calles*

por jorge c., em 14.09.15

Inácio está numa segunda-feira perpétua, a olhar para os navios que chegam à doca, desafiando o horizonte e as possibilidades. O que estará para além do mar? Os olhos curiosos e sonolentos, os pés acariciados pela água morna que banha a central térmica Costanera, as mãos no chão a suportar o tronco, o corpo curioso e sonolento. Um homem aproxima-se e manda-o sair dali. "Fascista!", responde o rapaz, "o mar é de todos!" e sai disparado em direcção a Boca; em frente ao estádio simula um remate e festeja o golo e por toda a cidade se anucia e celebra esse outono porteño e um bandoneón toca alegremente melancólico e, então, nada muda. Inácio regressa a casa. A escola ainda não começou. O melhor será esperar pelos outros. Pega num livro e lê:

 

"Las calles de Buenos Aires
ya son mi entraña.
No las ávidas calles,
incómodas de turba y ajetreo,
sino las calles desganadas del barrio,
casi invisibles de habituales,
enternecidas de penumbra y de ocaso
y aquellas más afuera
ajenas de árboles piadosos
donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y llanura.
Son para el solitario una promesa
porque millares de almas singulares las pueblan,
únicas ante Dios y en el tiempo
y sin duda preciosas.
Hacia el Oeste, el Norte y el Sur
se han desplegado - y son también la patria - las calles;
ojalá en los versos que trazo
estén esas banderas."

 

Depois, estendeu-se sobre a cama e adormeceu antes que o acordassem. 

 

*poema de Jorge Luís Borges

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11

por jorge c., em 11.09.15

Uma visão turva da memória imprecisa, indefinida. Talvez estivesse nevoeiro. O televisor a preto e branco desligado. Depois, um telefonema: o mundo está a cair. Em Santiago, as últimas palavras de Allende na rádio a preto e branco: "El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse." Aviões por toda a parte, um ruído ensurdecedor. Acende-se o televisor a preto e branco e os aviões embatem nas torres. Updike escreveria mais tarde "the false intimacy of television", no seu apartamento em Brooklyn, a ver o fumo sobre a cidade. Um homem voa. Talvez Allende "El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse". Outros corpos caem como lágrimas do céu. ¡Viva Chile! "de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor." A humanidade toda, de Santiago a Nova Iorque, nós atrás de um televisor a preto e branco, os corpos dos outros, outro sangue derramado, a humanidade toda, impotente, sem esperança. "de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre." Os dias e os anos passaram. Reabriram-se avenidas. Vieram as cores, as fotografias de Brooklyn Heights e de Santiago. A falsa intimidade da internet. 

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o céu azul ficará

por jorge c., em 08.09.15

Quando se tem 14 anos todas as ruas são tristes. Nada resulta. Volta-se para casa com o mundo inteiro a doer e, por vezes, só no quarto encontramos o isolamento pacificador. Ainda assim, fica-se com uma sensação de desconforto, uma inquietação que não se consegue explicar. Mas ali, longe das perguntas e das solicitações, pode estar a salvação. Fecha-te no quarto, liga o teu som e ouve sempre - sempre - os Xutos. Vais ver, o sol brilhará.

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um mundo-cão

por jorge c., em 04.09.15

Sentado numa charmosa esplanada na rue des Abesses, abro sem entusiasmo o Le Figaro, mas não consigo deixar de reparar numa fotografia de dois indivíduos a tentar passar por baixo de uma rede de arame farpado. A imagem tira-me o apetite e resolvo concentrar-me no pequeno grupo que se encontra na mesa do lado: um homem nos seus trinta e poucos, incrivelmente parecido em tudo com Serge Gainsbourg, acompanhado por duas amigas, um pouco mais novas e enérgicas. Enquanto as duas raparigas vão esgrimindo frases espúrias, num duelo de sensibilidades, num contra-relógio pela mais adequada e correcta das ideias conformes ao cânone, o rapaz vai olhando no infinito, fumando em câmara-lenta o cigarro da grande urbanidade. Depois, com um sentido de oportunidade admirável, interrompe-as com comentários despectivos, quase assassinos, que elas recebem com deslumbramento. Não parecem estar autorizadas a utilizar os telemóveis na presença desta ilustre luminária de Montmartre, limitando-se a comentar um artigo no Libération onde o colunista cogita sobre a importância das palavras "refugiado", "migrante", "humanismo", com a assertividade dos profissionais da opinião. A mise-en-scéne fascina-me. Olho-a com uma ternura cínica, ou talvez só com cinismo, e acabo por me rever naquele sósia de Gainsbourg que todos os dias se senta na esplanada do Le Sancerre a pavonear uma atitude snob. E então somos dois snobs na mesma esplanada da rue des Abesses, desprezando as trivialidades das raparigas e das colunas de opinião, desprezando toda a gente que não viu as perseidas da razão e da humanidade, admirados pelo deslumbramento de duas tontinhas que só querem ser úteis à vida, não sabendo bem como. E então já somos quatro, já somos um bistrot inteiro, todo um bairro, uma cidade e um país a tentar ser úteis à vida sem saber como, à procura em desespero, sem saber nada. E então invejo tudo isto. Invejo a admiração pelo Gainsbourg, a inocência das tontinhas, a esplanada do Le Sancerre, o colunista do Libération e um outro do Figaro, o homem que sai do Grenier à Pain com o lanche debaixo do braço, os dois activistas que distribuem panfletos sobre a crise em Calais e sobre o livre-trânsito do grande capital, no outro lado da rua, a família que se apressa para entrar numa pequena sala de teatro de Montmartre e todo este conforto sem culpa que só o cosmopolitanismo consegue oferecer. Invejo a sensação de estar vivo de Sayid, os dilemas de Bassel e o pragmatismo sem fronteiras de Rasul. Certa noite, sonhei com estes homens, atormentado pela culpa, pela impotência e pelo cinismo. Imaginei-lhes o rosto, a pele e o nervo. Mas o meu incómodo era tão cómodo como o de todos os outros que, tal como eu, perdem o apetite com fotografias nos jornais, entre dois copos de vinho e meio maço de cigarros. Pouco antes de chegar a casa, reparei na carruagem de fim-de-tarde com destino a La Défense. Um mundo inteiro lá dentro. Todos os rostos do mundo fechados no seu mundo, como um cão que morde a própria cauda para acabar com a sua inquietação. Vi o meu reflexo na janela e lá estava eu acompanhado por todos esses cães, a morder a minha cauda como se fosse acabar com todas as inquietações do mundo, às voltas. Entrei em casa, deitei-me e não pensei em mais nada.

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um mistério

por jorge c., em 02.09.15

Sayid salvou-me o dia. Faço o caminho contrário à história da sua chegada, em busca da fonte. Falou-me de um homem chamado Bassel. É ele a chave esclarecida que procuro, entre o drama desta gente que espera na vertigem da vida, os meandros do tráfico de pessoas e a origem da tragédia. Sentado junto ao canal, cansado e resignado, o sírio traz no rosto todos esses mistérios - a verdade sobre o mundo. Não o posso ajudar mais. Não posso levá-lo para casa, como quem resgata um cachorrito no canil para se sentir em comunhão com o cosmos. Dois homens olham-me com desconfiança e segredam entre si, deixando bem claro que é de mim que estão a falar. Não lhes faço a desfeita e afasto-me. Procuro mais um testemunho. Encontro um homem do Conselho Belga para os Refugiados, não muito afável. Diz-me umas quantas banalidades e arranja uma desculpa para sair dali. Não parece haver ninguém aqui que não tenha um ar comprometido. Talvez Bassel me ajude a compreender. Irei encontrá-lo em Paris. Prepara-se para embarcar para Berlim, onde a família o aguarda.

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a rede

por jorge c., em 01.09.15

- Se não fosse tão feia, saltava-lhe em cima.

- A tua irmã também é feia e já meia Paris lhe saltou em cima.

- És um cão de merda, Rasul. Já te disse que não te admito que fales da minha irmã.

- Pois sim. Despacha-te mas é a limpar isso e vamos embora. Não fosse esse teu apetite voraz, não tínhamos de estar sempre a mudar de sítio e a justificar estes incidentes ao Belga.

- É um paliativo. Elas vão morrer e vão...

- Um paliativo é quando é consentido, meu animal. Se o gajo nos fecha a porta, a seguir abrem-nos uma cela. E antes de lá entrarmos, apagam-nos. E desliga-me essa merda dessa música.

- Assassin de la police! Uh! Uh!

Dois cadáveres adiados precipitavam-se, agora, para bem longe dali. Apesar de tudo, Johnny mexia-se bem na rede e Rasul ainda ia precisar dele antes de regressar ao norte. Era preciso limpar o desleixo de Bassel com o primo da namoradinha. Depois disso, teria de recuperar o dinheiro perdido na última operação e reconquistar a confiança do Belga. Pela primeira vez, tinha medo. Metera-se demasiado no assunto. Ao início parecia uma coisa simples - fazer meia-dúzia de contactos, arranjar informações, vender informações. Nem precisava de sair da cidade. Tudo sob controlo, até ao dia em que mais gente quis ganhar com isto e começaram a apertar com ele. Agora eram agentes oficiosos de órgãos oficiais: políticos comprometidos; polícia facilitadora ou dificultadora, conforme a recompensa; organizações internacionais; o Belga; e Bassel que, ao ignorar todo este novelo, achava-se Moisés, um herói do seu tempo, investido por uma moral superior que justificaria todos os seus pecados. Por outro lado, havia Johnny, um albanês mercenário a quem os nacionalistas franceses pagavam para criar cenários de criminalidade, ou a quem os grupos terroristas recorriam para recrutar miúdos nos bairros de Paris. Era através desses contactos que Johnny conseguia informações para passar gente nas fronteiras e, por vezes, mais além. Mas, para isso, cobrava um pouco mais, reivindicando os corpos já sem força de mulheres desfeitas pelo terror. "C'est la vie", desdramatizava. Havia que regressar a Calais, pagar ao Belga e pirar-se para Tarifa, destino ao qual acabaria por nunca chegar. 

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bassel

por jorge c., em 31.08.15

Querida Nasmah,

 

Que as minhas palavras não te assustem. É tudo o que desejo. Só agora consigo responder à tua mensagem em segurança. Ficámos retidos em Lens nos últimos dias e se Rasul não se tivesse mexido através da rede ainda lá estaríamos. Alterámos a rota do norte. Calais não é mais seguro. Em Itália já não passa ninguém e na Grécia há milícias organizadas pela extrema-direita que vigiam armadas os pontos possíveis para o desembarque. Assim que as novas rotas são anunciadas nas televisões e nos jornais, como se fossem atracções turísticas, a passagem inviabiliza-se. Há cerca de duas semanas, uma dessas milícias fez-se passar por uma organização de ajuda humanitária e conduziram perto de cem desgraçados para as montanhas. Morreram todos. 

Sayid e os outros já estão a salvo. Por pouco não conseguíamos. Não lhes cobrei nada, não fui capaz. Também não lhe contei da Grécia. Disse-lhe que era tudo mentira. Mas no sítio onde ficaram ninguém me conhece. 

Com estas complicações todas e com os negócios nos Balcãs, talvez a rota do Adriático seja a melhor solução. Falei com Loran. Já não o contactava desde a operação das Raparigas de Trieste. Se lhe transportar dois carregamentos para Tarifa, ele aceita fazer a costa toda com eles. "Sem precalços", garantiu-me. No fundo, garante-me é mais dinheiro. A polícia está mais cara. Os tipos que faziam a rota do leste já foram à vida. E os jornais, coitados, ainda acreditam que "o motorista ainda se encontra em fuga". Quatro camiões na mesma zona, só por mera coincidência. 

Todas as noites, querida Nasmah, quando o medo me perturba o sono, dou por mim a pensar que tudo isto é uma nobre causa, uma ajuda aos irmãos aflitos e desesperados. Mas depois, em cada lugar, lá está a tua terra prometida, essa Europa de que tanto falas e onde não habita senão a miséria do espírito, o lixo das almas, o fanatismo, a corrupção da autoridade, a ajuda só com compensação e o oportunismo dos tipos como eu, que vivem deste caos instalado. Adormeço como um moralista de mim mesmo.

Lembrei-me dos fins de tarde ao sol em Tel-Aviv, antes de Ezra aparecer nas nossas vidas. O mundo era, então, tão grande que nos banhávamos de imensidão. Agora, tudo parece um labirinto de cobaias, estreito e limitado. 

Assim que chegar ao sul volto a escrever-te. Se chegar. Não esperes nada.

 

Bassel

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passagem

por jorge c., em 28.08.15

Depois da queda, levantar de novo, agora encharcado. Os outros já lá vão, um pouco mais à frente. Ali estão. O corpo já se vai habituando a não se erguer demasiado. O que serão aqueles latidos ao longe? Alerta, sempre alerta. O pior já passou. Mais arame, menos arame, vai ficar tudo bem. Aya também ficou para trás. Queixa-se de um tornozelo. Sinto-lhe o sangue e o suor onde antes era só pele, seda e jasmim. Temos de continuar. É preciso evitar a luz. Cada vez menos invisíveis. Continuemos. Limpo-lhe o sangue e guardo o lenço. Dentro de duas horas Bassel estará à nossa espera na outra margem do rio para nos conduzir até ao nosso contacto do sul. Teremos de confiar. Os latidos regressam. Temos de confiar. Precisamos de confiar. Um homem que nos deu comida na última paragem contou-nos que, há umas semanas, apanharam uns tipos do norte que se faziam passar por voluntários de uma organização qualquer. Levaram um grupo para uma zona mais montanhosa e fizeram-nos desaparecer. Ninguém sabe deles. Bassel diz que é mentira, que inventam coisas por causa do medo, que preferem ver o nosso medo e que isso diminui o seu próprio medo. Somos lobos de matilhas diferentes. Uns mais cães do que outros. Não penses nisso agora, não te ergas demasiado, não te insurjas, é preciso continuar. Agora é uma criança a chorar. Uma vontade indomável de a esganar apodera-se de mim. Temos de sobreviver. É preciso continuar para sobreviver. Não te ergas demasiado, não penses na criança. Vai ficar tudo bem. Já falta pouco. Ainda falta tanto.

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toxicidade

por jorge c., em 28.08.15

O verão desparece pela manhã. Um nevoeiro abafado invade o quarto, a intimidade dos lençóis ainda quentes e o reflexo de um rapaz e de uma rapariga sonolentos no espelho. O cheiro do monóxido de carbono ameaça o dia. Entre a cidade e o céu, paredes de betão e um ruído exasperante de embalar, como num disco dos Massive Attack.

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Deveríamos pensar sempre em que medida olhamos para as coisas, qual a escala de relevância que damos aos objectos, aos espaços, aos hábitos ou à nossa privacidade. Um artista cria sobre a medida das coisas do mundo. O seu alcance é ou será tão maior quanto a sua originalidade. Por vezes, ultrapassa todos os limites. Certa noite, sonhei com uma cidade modernista sem ainda conhecer Charles-Edouard Jeanneret e, quando o conheci, calculei que fosse possível uma vida inteira a construir o nosso espaço e a medir a nossa intimidade. Da pintura à arquitectura, Le Corbusier desenhou um esquema para a qualidade de vida e para a relação harmoniosa do espaço íntimo e do espaço público. Ao entender estes dois princípios complementares, o arquitecto passou para um patamar mais elevado, ao qual alguns poderão chamar de arte. Este ano, o Centre Pompidou dedicou uma exposição à vida e obra de Le Corbusier. A exibição concentrava-se mais na ideia artística abstracta e na natureza dos movimentos artísticos do que na arquitectura em si mesma. Esta concepção permitia ao indivíduo comum compreender a arquitectura, mergulhando na sua génese e criando para si uma ideia para as suas próprias medidas e, talvez, para as do mundo. Sem polémicas e em perspectiva, esta foi a celebração do espírito da arte que, de resto, nos daria muito jeito por cá. 

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rede social

por jorge c., em 26.08.15

Célia. É assim o nome da mulher que, convencida da sua insubmissa sagacidade, se recusa a ir em modas. Não come sushi, não bebe gin, ou por outra, bebia-o quando não era moda e qualquer um servia - grandes tosgas nos bons tempos dessa zona que agora também está na moda. O jogging e o gourmet, então, parecem-lhe uma perfeita patetice, mas o que ainda a irrita mais são as ondas de indignação, solidariedade e evocação de figuras públicas que vão morrendo, porque só depois da sua morte se lembram delas. Estas e outras observações têm sido partilhadas na sua página pessoal, numa rede social onde mantém, mais coisa menos coisa, perto de 650 amigos, e contam neste momento com mais de 300 anuências e comentários solidários. Não obstante a sua consciente e frequente participação neste universo, Célia considera ridícula a preferência pela utilização destas ferramentas modernas em detrimento do convívio social e, apesar da sua frontalidade, honestidade, sinceridade e bonomia, reflectidas nas mais variadas citações anónimas e imagens de paz e amor, não evita por vezes mensagens subliminares aos seus colegas de trabalho que "passam o dia nisto". Ela bem os vê. Quando chega a hora de sair, vai para casa, prepara o jantar e senta-se no sofá onde permanece até se deitar, esperando a primeira insónia da noite.

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teoria minimalista

por jorge c., em 25.08.15

Não sei se é a natureza das palavras que convoca o desentendimento, se somos nós que provocamos a sua ambiguidade, conduzindo as conversas ao fracasso. Cada frase dita, um prostíbulo de palavras que já nem a semântica salva. Demasiadas palavras, longas e excessivas frases, confusas, nervosas. Do outro lado, o outro recebe-as como balas, imaginando primeiras e segundas intenções, até que a subjectividade nos separe. Para sempre. Há tantas palavras como sensibilidades. Já pouco medimos umas e outras e, avançando como quem avança pelo meio de um acidente dessas corridas de carros americanos, seguimos perdidos e desentendidos na imensidão do universo. Reparo agora no dramatismo e na gravidade ridícula das minhas palavras e desejo nunca as ter dito. 

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Num outono que me parece já algo distante, entrei num pequeno cinema de bairro para ver a Sonata de Outono. Estava particularmente lúcido apesar da chuva, da gabardine encharcada, das despesas do amor e da segurança social. Bergman em Bergman. Outono no outono. Todos os paralelismos do mundo numa pequena sala cheia de clientes de ciclos, aos círculos, de clientes de sonatas diárias, de prelúdios infinitamente tristes, de tristezas infinitamente diárias em prelúdio, aos círculos, como aquela expressão infinitamente circular de Charlotte enquanto ouve Eva a tocar um prelúdio de Chopin, essa expressão que era imensa e invasiva e que acabava por nos agoniar o peito. Quando saí não era mais lúcido. Desci a rua e entrei no carro seco apesar da chuva, da gabardine encharcada e do rosto perdido de Ingrid Bergman.

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pequenas felicidades

por jorge c., em 24.08.15

Todas as manhãs de Agosto, Nadir acorda angustiado. Talvez porque pense demasiado na felicidade, vai recordando outras manhãs menos tensas, menos angustiantes, todas elas diferentes, tons de felicidade diferentes, pequenas felicidades que juntas lembram uma única e sublime manhã. Chovia nessa manhã em que sentiu as gotas gordas da chuva na cara, por entre os pinheiros de um bosque quase irlandês. Como se agosto não fosse Agosto e fosse antes Augusto de tão divino e luculento. E o cheiro das madressilvas misturava-se com o do papel molhado e do whisky da noite excessiva. E enquanto os outros ressonavam nos quartos do casarão vetusto, eu era feliz a ouvir Elis a cantar a madrugada, entre um e outro cigarro, sem angústias, apenas alguma melancolia. Nadir pensou na feliz melancolia. Tenho pensado na feliz melancolia. Pensado na felicidade. Coisa ridícula.

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intelectualidade

por jorge c., em 12.08.15

"É evidente que o meu conceito de intelectual não se confunde com a jactância de algumas pessoas que se julgam pertencentes a uma espécie superior, a uma aristocracia que tivesse substituído a cor do sangue, ou o volume do dinheiro amealhado, pelo saber, como elemento de discriminação social. Para mim, o intelectual é o que sabe interpretar, porque o vive, o real com um pensamento mais elaborado do que a maioria das pessoas, no sentido de concorrer, à sua maneira, a um mundo outro, mais fraterno e mais justo."

Tenho pensado nesta ideia do Prof. Manuel Sérgio sempre que o tema da conversa é uma disputa entre o ser pragmático e o ser intelectual. Na verdade, hoje ninguém se quer assumir como intelectual e, ainda assim, tantos que gostariam de o ser. Sem ressentimentos. O ser pragmático não gosta do intelectual. O intelectual ou bem que é um presumido ou um tímido, com vergonha da intelectualidade, e despreza o pragmático. O pragmático devolve-lhe com a acusação de lirismo, misturando literatura com pensamento, numa demonstração inequívoca da sua falta de intelectualidade. É como se usássemos o pensamento para fins meramente utilitários, como arma de arremesso ou distintivo.

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os dias do tédio

por jorge c., em 11.08.15

Entre as três e as quatro da tarde passo a mais fastidiosa das horas do dia e com indulgência ignoro as banalidades e o ruído. Dou lugar ao tédio e à inquietação e assim se passa um pedaço sério do dia. Em casa, esperam-me os livros que são, por estes dias, as únicas férias que tenho. 

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a dança dos pássaros

por jorge c., em 10.08.15

Da minha janela de infância ainda vejo, por vezes, o rio lá ao fundo, a ponte, a luz sobre os prédios brancos, as manhãs frescas e claras ao som da Dança dos Pássaros; na televisão, os separadores da Continuidade a transmitir imagens de Lisboa ou os desenhos animados e eu a sonhar como um Tom Sawyer no séc. XX., a sair pelas ruas a correr, as roupas coloridas, o cheiro do verão, a dança dos pássaros. Comprei uns óculos de sol azuis e verdes que me fazem lembrar esses dias. Nem sei bem porquê. Mas a estética da nossa memória é algo tão íntimo que só nós conseguimos ver. Lembras-te? Claro que não te lembras. Inventei esta memória para mim, da televisão, da luz da manhã, da dança dos pássaros, da música do Vargas, dos azuis e verdes misturados na minha indumentária infantil. É um conforto. 

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nomes para uma existência tranquila

por jorge c., em 06.08.15

Estive quase para me chamar Inês mas, à última da hora, passou-lhes a iconoclastia. Não seria confortável, convenhamos. Já é difícil que chegue um tipo conviver todos os dias com o seu nome, que é um nome comum, tendo já tão pouco de próprio e distinto, e que, à partida, não carrega consigo nenhum fardo insuperável. E em matéria de nomes, admita-se, há fardos insuperáveis. Muitas vezes, são as alcunhas felizes, atribuídas pelos outros, que relançam a nossa esperança em viver com um nome que nos distinga. Outras vezes, somos nós próprios a criar um pseudónimo, como se um novo baptismo nos devolvesse a justiça de uma identidade pretendida. Aconteceu com Herberto e Gedeão. E Rómulo é um nome tão distinto e seguro. Mas por vezes olhamos para o nosso nome como se fosse um estranho, algo que não nos pertence, uma alcunha que nos atribuíram sem o nosso consentimento. É uma falsa crise de identidade. Olho-me, agora, ao espelho e repito o meu nome, tentando que a imagem reflectida e o nome combinem. Nada feito. São perfeitos desconhecidos. E se eu pudesse chamar-me outra coisa? Talvez uma letra, como em O Processo, ou uma cor como em Cães Danados. Qualquer outra coisa que me acalme esta angústia de não saber se algum dia olharei para o espelho e distinga uma identidade própria e única. Pensando bem, talvez Inês tivesse resultado.

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out of the office

por jorge c., em 03.08.15

A mensagem automática dos ausentes em agosto é clara: lamentamos, mas a vida foi adiada para setembro. Ligo e peço para falar com alguém que me possa, pelo menos, dizer se as coisas estão a andar. Nada feito. "Pois, o doutor não está, terá de esperar que ele regresse." Mas não há aí ninguém? Fico impaciente. Parece que a informação está no computador do doutor, que ele só volta em setembro porque as pessoas também têm que ir de férias - é da lei -, e que o assunto deve estar a andar, mas por agora não podem adiantar mais nada, eu que tenha paciência. A vida que tenha paciência, não há ninguém no escritório. Estão todos ali, de papo para o ar, na internet.

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definições

por jorge c., em 03.08.15

A angústia é a certeza da incerteza.

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quotidiano

por jorge c., em 30.07.15

Restam três cigarros no maço. Um maço por dia, nunca é bem um dia de manhã à noite. Um maço, 24 horas. Três cigarros e ainda faltam tantas horas. O melhor é comprar o maço para o dia que aí vem. O tempo em cigarros como uma ampulheta de tabaco. Falta ainda o longo fim do dia. O melhor é comprar mais coisas. Faço a lista: pão, manteiga, ovos, detergente, papel higiénico, comida para o gato, talvez um gelado. Não compro água. Eu e o gato bebemos água da torneira. Nunca nos aconteceu nada. O tempo vai passando em tabaco. Faltam agora dois cigarros e está calor. Faltam ainda os outros vinte e assim sucessivamente. Vinte unidades de tédio. Os dias a esfumarem-se para nada.

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os palpites do senhor gras

por jorge c., em 30.07.15

Senhor F: Falta muito?

Senhor Gras: Dá-me impressão que não.

Senhor F: A que distância estamos?

Senhor Gras: Não tenho ideia, mas devemos estar perto.

Senhor F: Quanto tempo passou desde que saímos? 

Senhor Gras: Um bom bocado.

 

(O Sr. F começa a ficar impaciente)

 

Senhor F: Que horas são?

Senhor Gras: Devem ser aí umas quatro e meia.

Senhor F: Vê no relógio.

Senhor Gras: Não trouxe.

Senhor F: Então como é que sabes?

Senhor Gras: Devem ser... O sol está ali, são para aí quatro ou quatro e meia.

Senhor F: Há alguma coisa que possas garantir que não sejam só palpites?

Senhor Gras: Há um ditado qualquer que diz que a experiência é a mãe de não sei quê. Pronto, é isso.

Senhor F: Estamos perdidos...

Senhor Gras: Estamos sempre.

 

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economato ou a morte lenta

por jorge c., em 24.07.15

Contra o silêncio, as máquinas trabalham com o escritório vazio. Não está cá ninguém. Estou eu. E a mulher da Tesouraria, também ela contra o silêncio. Entrou na sala e depositou um papel numa outra mesa, o que poderia ter feito em silêncio. Falou. Disse "ora aqui está". Mas não era para mim. Saiu da sala e voltou a falar. "Que tempo! Está abafado!". Falava sozinha. Acrescentou ainda algo. Não ouvi. Contra o silêncio, as máquinas inquietam-se. O telefone de um dos gabinetes ao fundo do corredor ainda não parou de tocar. Talvez devesse lá ir. Talvez devesse atender. "Silêncio", pediria. Agora é o estafeta que entra. Contra o silêncio, mete conversa. Não respondo, não me manifesto. Não faço nada. Evito o ruído e, mesmo assim, nada me devolve o silêncio. Morro de um tédio nervoso. 

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o último verão

por jorge c., em 22.07.15

Lembro-me do parque nas tardes de verão, de uma t-shirt de padrões listados muito sóbrios, entre o verde e o castanho, e das calças largas que mantinham a pele fresca e nova. Lembro-me das paixões platónicas, dos namoricos mais e menos sérios, das risadas largas e da melancolia da adolescência como uma rockalhada de querubins. Lembro-me dos patos, das guitarras e do walkman com uma cassete dos Smashing Pumpikns que fazia de julho um mês sem ralações e de todos os dias o melhor dia que tínhamos vivido até então. Há poesia suficiente na juventude para envelhecermos melhor. E vice-versa.

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a grande depressão

por jorge c., em 16.07.15

Na primeira vez que me tentei suicidar não tive coragem, na segunda não houve oportunidade e na terceira faltou-me o engenho. Ainda assim, fiz a barba, tomei banho e saí. Eram já umas três da tarde, desci a rua e parei para um expresso. Buondi, disse. O homem sorriu e voltou a dizer que gostava muito desse trocadilho, mas só se fosse para mim, porque para ele o dia já estava quase a acabar. "Esteve cá uma rapariga a perguntar por si, perguntou por 'aquele rapaz italiano', mas eu não lhe dei conversa." Agradeci o decoro, paguei e segui até à avenida. Lá em baixo, na praça, uma multidão de quinze manifestava-se em solidariedade com a Grécia. Fiquei por ali um pouco, acendi um cigarro e deixei-me estar a ouvir as palavras de ordem, coisas que o Partido repetira tantas vezes, e eles ali tão jovens, tão iguais uns aos outros, as mesmas vestes, as ideias tão soltas. Murmurei a Internazionale e ecoou na minha cabeça um certo cinismo, como se fosse católico. Deus me livre. E então tocaram os sinos e segui para a estação. Um bilhete para Lisboa, Santa Apolónia, onde me esperam para ninguém sabe bem o quê. Recebi uma mensagem: "Esperamos por ti. Depois, ficaremos por cá." E lá seguiu o comboio nesse passo acomodado da linha norte-sul, tão lúcida e imperfeita, tão rude. Em Espinho, uma mulher senta-se à minha frente e diz o meu nome. Nico. Sim, sou eu. Não, não me recordo de ti de Compostela, nem de parte alguma, talvez demasiado vinho, mas lá tive de a ouvir, as palavras quase sempre excessivas, de um dramatismo adolescente, de uma banalidade criminosa. Falou na Grécia, na Europa, no capitalismo, citou uma poeta portuguesa e acabou por me aconselhar um restaurante "onde vai toda a gente". Depois disto iria para Nova Iorque com um amigo que é artista e que eu devia conhecer porque o trabalho dele versa sobre a condição humana num mundo de opressão financeira. Saímos juntos e ela tentou dar-me o número. Desculpa, não tenho bateria, nem sei o meu de cor. Lá fora, Sérgio esperava-me no carro. Apitou e voltei a ouvir o meu nome. Nico. Caía uma chuva ligeira sobre Lisboa e lembrei-me de Génova e de Atenas e de todos os que de manhã também haviam tentado acabar com todas as banalidades, excluindo-se da vida. Entrei no carro, acendi um cigarro e perguntei-lhe para onde íamos. "Para lado nenhum."

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oeste

por jorge c., em 07.07.15

Há guitarras nos passeios de LA que arrastam os dilemas e agonizam prolongando a distorção até ao feedback. E há vozes que se escondem nos efeitos secundários, melancolicamente, vagueando pelas canções à procura da juventude, onde já pouco mais resta para além do pôr-do-sol e da brisa do Pacífico. 

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verão

por jorge c., em 25.06.15

nem toda a sombra é escura

nem todo o raio de sol ilumina

a sombra passa a ser frescura

quando a luz na pele fulmina 

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da cultura

por jorge c., em 23.06.15

Decidi há algum tempo que o meu filme preferido de João César Monteiro é Veredas. Ao longo desta narrativa tão difícil, o país vai surgindo lentamente, entre a autenticidade do folclore, a espiritualidade e a ética da tradição. E é aqui que concluímos que o folclore que se vai transmitindo de geração em geração tem uma nobreza natural que a tradição imposta pelo provincianismo, no pior dos seus sentidos, nunca poderá atingir, pois a sua principal preocupação é devastar tudo em volta, construir sobre a natureza, dominar, restringir, até conseguir, por fim, criar um dogma cultural, uma ilusão a que muitos se submeteram e que deixaram de questionar. Por entre os caminhos inóspitos de um Portugal pouco consciente da sua origem, Veredas é um ensaio idiossincrático que vai à procura da raiz do povo e do seu território através de uma luz e de uma cor que o país reserva apenas para os seus amantes.

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meteo

por jorge c., em 19.06.15

Está calor, todos sabemos, não é novidade que em Junho há calor, muito calor, mas Março parece ter sido ontem, com as reclamações sobre a chuva e o vento e o frio, queixumes, previsões, conversa de corredor entre os colegas na hora do café, que é para não se falar da desgraça que para aí anda, são coisas tão recentes que agora ninguém se atreve a manifestar grande incómodo com o estado do tempo, este calor, tanto calor, que já nem essas conversas alimenta, essas previsões - lá está - do boletim metereológico para a semana que vem, ah! que na quarta-feira já está melhor e no domingo afinal diz que 'tá chuva, é do anticiclone, dizem eles, e lá vai o tempo passando, mas agora ninguém quer mais melhorias do que isto, deixa estar que assim está bem, não vá o diabo tecê-las e a gente depois nem respirar consegue, uma banhoca é que era, na praia, e o fim-de-semana a chegar, as praias à pinha, o rapaz pequeno que quer ir ver não sei o quê, se der tempo, que a casa não se limpa sozinha, para o ano compra-se o ar-condicionado, se der, que já não se aguenta isto e ainda agora começou, mas deixem lá isso, é do tempo. 

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o homem normal

por jorge c., em 19.06.15

Dário Fagundes vive do outro lado da cidade e atravessa todos os dias a grande avenida para chegar ao seu destino. São, neste momento, 15 horas e 33 minutos, numa vida tremendamente aborrecida. Nada mais há a dizer sobre o dia de Dário Fagundes que, dentro de duas horas, abandonará este edifício, regressará a casa e ali permanecerá até às 21 horas, altura em que levará o saco do lixo ao contentor. Aos fins-de-semana, Dário Fagundes come batatas fritas e pouco mais há a apontar, a não ser que não é infeliz, apenas existe sem qualquer interesse e só não acaba com isto porque ninguém lhe garante que do outro lado não será pior.

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a carta

por jorge c., em 15.06.15

Enviei uma carta da qual jamais me poderei arrepender. Quando a iniciei, já poucas dúvidas me restavam sobre a sua oportunidade e, no momento do envio, as certezas eram inequívocas. Durante essa tarde tomei um banho no tanque do quintal e voltei a pensar nela. Era uma carta como todas as outras: tinha morada e data; o tom inicial era cordato e correspondia às melhores práticas protocolares; o texto obedecia às mais elementares regras da lógica, da coerência, e a estrutura gramatical era, na melhor das opiniões, irrepreensível. Eram seis da tarde. Por aquela hora a carta seguira o seu rumo habitual; pela manhã sairia do posto dos correios, onde um funcionário experiente e zeloso entregaria a correspondência ao carteiro que, por sua vez, atravessaria a cidade e a colocaria na morada do destinatário, a qual eu conferira as vezes necessárias de modo a evitar as maçadas do extravio e das moradas inexistentes. Coloquei, aliás, o código postal completo, pois a referência dos últimos três números é fundamental para a eficácia do processo, segundo aquilo que nos é dito nos serviços e, nestas coisas, não devemos ser nós a provocar o problema já que o interesse não é senão nosso. O cumprimento de todas estas regras acabaria por me despertar um sentimento de satisfação serena. Encostei a cabeça na beira do tanque, fechei os olhos e fiquei a ouvir os pássaros a anunciar o crepúsculo. A satisfação transformou-se num imenso bem-estar e acabei por adormecer ao som de junho, sem sequer esperar que a carta chegasse e pudesse, então, ler aquilo que me havia escrito a mim mesmo.

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No balcão peço um Cutty e um Suave. "Suave não temos". Então pode ser um Chesterfield remediado. Há uns anos um amigo dizia-me que Gauloises era tabaco de existencialistas. Nunca gostei de existencialistas e, na verdade, também nunca gostei de realistas, surrealistas, neorrealistas e parvenus em geral. Ando aqui só pelos cigarros - algo sem grandes conotações -, o uísque é só para não cair tudo em seco. Há também este dilema terrível na escolha do lugar indicado para um gajo se sentar. Se se fica ao balcão, sozinho, parece sempre que se anda ao ataque, ou que se está com um pifo tão grande nos cornos que a solidão que a ele deu origem vai procurar abrigo nos braços desinteressados de uma conversa de circunstância. Se se escolhe uma mesa, dá-se aquele ar pretensioso de quem também não tem muito que fazer na vida, ou de parvo que chega sempre antes da hora, esperando infinitamente pela companhia que há-de vir, o que é capaz de ser bem pior. Feitas todas as considerações, escolho passar por parvo na solidão do balcão, dividindo desta forma o mal pelas aldeias. Uma decisão como outra qualquer, sem grandes compromissos. E é no meio de todas estas preocupações excessivas que me vou distraindo sem prestar atenção à música. Primeiro que tudo acalme, ainda reparo numa mesa com dois rapazitos de fatinho, vindos directamente dos escritórios, quem sabe, que vão discutindo o governo, os problemas da esquerda e da direita, a realpolitik e o mercado, tudo isto com os telemóveis e os tablets à disposição. Um like aqui, um tweet acolá - está tudo a acontecer ao mesmo tempo, é preciso não defraudar as expectativas da comunidade online. Dou uma olhadela no telemóvel, sempre me vou sentido integrado e mantendo a sensação de que estou à espera de alguém. Sem qualquer razão abro a caixa de mensagens e vou lendo algumas delas: "Caro cliente, aproveite este fim-de-semana as promoções que preparámos para si. Até dia 4, todos os produtos com 20% de desconto." Simpáticos. Uma outra: "devo interpretar este teu silêncio de alguma forma?" Talvez da mesma forma que os tipos da primeira mensagem - sem dramas. A música não está má. É o free jazz de outras noites, sentado na marquise a ouvir os carros a passar na auto-estrada e o vento a bater nas janelas. Devolvo o telemóvel ao esquecimento e peço mais um. O rapaz é eficiente e parece não querer contribuir para a possível angústia de uma espera. Estamos todos à espera de alguma coisa, não é assim? Um inevitável cliché dos tempos, tão comum como o desaparecimento do free jazz nos bares; dos bares do free jazz; da simples intenção de nos sentarmos ao balcão a pensar no ritmo da cidade e a desfrutar as cores e as sombras dessa luz tépida que esconde os rostos, sem nos deixar irremediavelmente sós numa noite normal de semana, livre de considerações alheias. E com isto, quinze cigarros, quatro ou cinco Cutty's, era a conta, obrigado e bom dia.

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comunicando

por jorge c., em 08.06.15

Entre significado e significante, há palavras que pairam na angústia das intenções, das interpretações caprichosas dos falantes. E a língua perde-se em explicações. E a comunicação parece um conflito armado. Na guerra das palavras, acabamos por sufocar em silêncio.

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o complexo de louçã

por jorge c., em 26.05.15

Dizia o poeta que nenhum homem é uma ilha, como quem diz que só em conjunto se dão passos maiores, como aquele do astronauta americano que pisou a lua em nome da Humanidade. No entanto, nos passos pequenos do expediente nem sempre são precisos dois para dançar o tango. Por vezes, atrapalha. Não é, porém, o perfeccionista que pretendo descrever mas, antes, um homem que, descrente da capacidade de distanciamento dos demais para prosseguir um determinado caminho, sem manifestações subjectivas, se eterniza na liderança do movimento que o próprio criou e cujo ligeiro desvio não é capaz de aceitar. É um medo angustiante que a ideia se desvirtue nas mãos erradas. Ao Complexo de Louçã associa-se umbilicalmente a Síndrome do Sonso; o vírus da subserviência falsa; o inconformismo beato daquele que, assim que lhe derem oportunidade, deixará que a sua opinião se sobreponha ao caminho que foi traçado, não compreendendo que a ética dos meios justifica a moralidade dos fins. 

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ruído

por jorge c., em 20.05.15

Quando o assunto do dia assim o obriga, explode um vulcão de palavras que se agrupam urgentemente, devastando o silêncio e a gramática elementar. Os dedos precipitam-se pelas teclas, num excesso de linguagem, e sente-se o medo de que algo fique por dizer. Já nem as frases respiram e o raciocínio, turvo, é uma mera pretensão. Palavras atrás de palavras. Repetem-se. Redundam. Reinventam significantes e significados. E a ideia apaga-se porque não restam intervalos para respirar. E então, nada.

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lei e poesia

por jorge c., em 20.05.15

A lei e a poesia são sofisticadas. Distinguem os elementos, relacionam possibilidades infinitas, aprofundam a simplicidade e espalham-na em partículas finas de camada quase imperceptível. A lei é poesia e a poesia é tudo. E a isto chamamos, então, civilização.

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as amantes de césar

por jorge c., em 12.05.15

É mais fácil o compromisso com o erro nas cidades pequenas. Por aqui, ninguém gosta de assumir o desconhecimento e todos, à sua maneira, são submetidos ao medo daquilo que julgam ser a ignorância, atirando-se deliciosamente para o abismo da mesma. Entre a estética e a ética, escolhem a primeira sem titubear. Na borda d'água, mais vale parecer do que ser.

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utopia do sossego

por jorge c., em 26.04.15

Lá longe, onde a ambição se transforma em sonho, esse lugar que provoca impressões na barriga e reaviva o bater de perna impaciente de criança, vejo um bosque, tudo verde, talvez mar e rochas e falésias, talvez ilha, talvez monte; vê-se uma casinha e sente-se o cheiro do café da manhã, os cães ou os gatos preguiçosos, os jornais, os livros por começar e os edredons desarrumados, um braço estendido sobre a cama, adormecido, leve, suave, como se todos os dias fossem domingo.

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fadistices

por jorge c., em 22.04.15

A primeira vez que o vi foi numa casa de fados ali na Artilharia 1. Parecia meio deslocado quando chegou, um desgraçado que vinha cantar o fado. Sentou-se ao pé de mim a fumar e pouco falou. Tinha um ar humilde e, de certo modo, subserviente. Confesso que me fez pena. Dava ares de quem trazia fome e que, talvez depois de cantar 3 ou 4 fados, lhe pagariam qualquer coisinha para se aguentar mais 2 ou 3 dias. Ontem vi-o numa capa de revista, com ar de velho do mar, sabido e confiante.. Pousei a revista, sorri para mim mesmo e lembrei-me de uma dessas canções de borda d'água que o tornaram famoso:

 

"Põe o negro xaile

solto nos teus ombros.

Quero ouvir cantar.

Porque em minhas mãos

Há uma guitarra

Pronta p'ra trinar."

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novas oportunidades

por jorge c., em 21.04.15

Pouco depois da intervenção estética em 2002 - restiling, para os mais novos -, o café "Pampilho", propriedade de Zé Alves, vítima de um AVC aos 78 anos, abandonou o seu registo de taberna para dar lugar a uma cafetaria de meia-idade. A filha e o genro, trabalhadores por conta de outrem até então, decidiram pegar no negócio e fazer daquilo uma coisa mais moderna e com asseio. "Não quero cá bêbados e drogados e isto agora é que vai ser uma coisa como deve ser". Mai'nada! Mas foi quando Patrícia começou a trabalhar de empregada de mesa que o Pampilho ganhou prestígio na praça. Experiência na área, bom relacionamento e foco no cliente, tudo características fundamentais para o exercício das funções - o perfil de trabalhador adequado, segundo as melhores revistas da especialidade, todas as quintas-feiras nas bancas com o seu Correio da Manhã. Em breve, o estabelecimento tornar-se-ia um centro de dia, um salão de chá de senhoras com idade para fazer exigências e serem tratadas como marquesas. Patrícia tratava-as com o carinho de uma neta, brincava sem ser inconveniente e por vezes era até irreverente nos comentários. Muito boa rapariga, era a opinião generalizada, não obstante os atrasos, a cabeça sempre noutro lugar, um pouco longe dali, duas linhas de transportes, mais 10 minutos a pé, um namorado que às vezes era, outras não, a cama vazia e os olhos confiantes e sorridentes da tarde transformados numa praia de lágrimas pela noite, até à manhã seguinte, o peso nos olhos que atrasava o despertar e o ar de noites longas aos primeiros cafés da manhã. "Anda nas noitadas" diziam todos os dias, como um mantra de quem reforça uma ideia tantas vezes quantas as possíveis para se esquecerem dos seus próprios pecados. Se era assim tão alegre, não devia ser, porque tanta alegria era tontice ou hipocrisia, dependia para o lado em que estivessem virados - eles, os monstros de Patrícia, na voz dos patrões ou de uma outra velha mais ressentida. No dia em que Patrícia foi encontrada caída na cozinha já não havia grande esperança em lhe provar que o mundo não era só aquilo. 

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um problema de abstracção

por jorge c., em 08.04.15

Estou a sofrer as consequências do Realismo, como quem perde faculdades pelos excessos da vida. As horas passam e a ideia do poema fica a moer no rancor e o poema não floresce, maior do que a vulgaridade, maior do que o ressentimento. Não há imagem para a angústia que não seja somente melancolia banal. Não há nada que transcenda a melancolia e revele a angústia com um rasgo de tragédia. 

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aos poetas e outros artistas

por jorge c., em 08.04.15

Todo o lirismo conhece o seu limite no momento de pagar a Segurança Social.

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o dia da morte de herberto helder

por jorge c., em 24.03.15

Ficámos órfãos de poetas. Restam-nos os livros e os versos latentes que são como uma adição da influência que se perpetua no caminho da nuca para a língua. Perdemos a certeza do corpo presente que guarda a dignidade do mundo - as barbas, os gatos, os olhos das coisas intangíveis, isolados do excesso de tangibilidade de todas as outras coisas. Ficamos agora à superfície, a boiar sobre os abismos, ignorando as suas profundezas e o fogo que nasce dentro da Terra. Enterramo-nos vivos.

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primavera de destroços

por jorge c., em 18.03.15

A flor rebentou nas ameixoeiras nos primeiros dias de calor, como que debutando a Primavera. Mas logo regressou o frio e o céu cobriu-se de uma sombra tão inoportunamente cinzenta que os dias ficaram logo mais curtos e os ossos de novo gelados. À flor da pele tantas outras nuvens, quando por dentro nada floriu, só esta imensa angústia em mangas de camisa, sem um casaquinho pelas costas, exposta assim ao Inverno que ainda tinha algo a acrescentar. Já não vale a pena fazer planos.

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história dos dias tristes

por jorge c., em 05.03.15

Na Borda d'Àgua a realidade está deprimida. Há umas décadas, o rio ainda dava para a sobrevivência, a Lezíria servia de pasto para o gado bravo de uma dezena de ganadarias e, à cidade, chamavam-lhe a Sevilha Portuguesa. As saudades desse tempo inventam memórias tão conservadoras quanto o pessimismo dos seus cultores. Tirando o primeiro cheiro da Primavera, não restam muitos motivos para a felicidade quotidiana enquanto durar o Inverno. 

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vai passar

por jorge c., em 16.02.15

Pelas duas da tarde o sol escondera-se por detrás das nuvens, deixando o frio à solta pelas ruas vazias, no meio do comércio encerrado para férias de Carnaval ou à espera de nova gerência, num silêncio apocalíptico. Enfiadas em fatiotas com um brilho sintético e áspero, as crianças seguem animadas, vestidas de ícone da moda ou com trajes consagrados pelo tempo, subvertendo a autenticidade do disfarce com meias de lã, sapatos de fivela e camisolas interiores para as proteger do frio de Fevereiro. Seguem para o desfile que se vai compondo timidamente com meia dúzia de atrelados puxados por tractores, transportando raparigas semi-nuas que dançam arrepiadas numa folia calculada, numa irreverência forçada pelo som desadequado de um Trio Eléctrico, sem uma alegoria suficiente que lhes devolva o espírito. Vai passar o Carnaval dos conformados, dos sem imaginação, daqueles a quem tiraram o brilho original, atirados para uma eterna quarta-feira de cinzas. 

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sam & julia

por jorge c., em 09.02.15

Numa das mais amenas tardes de Maio, sem que as sombras provocassem um desses arrepios desconfortáveis, Sam e Julia caminharam pelas vielas da cidade com a mesma frescura dos vinte anos: as palavras trocadas como uma sinfonia de Ellington, os gestos fluidos de ambos a convergir numa dança, como se os seus corpos se tocassem, sem se tocar. E nesse mesmo compasso, olharam o céu sobre as casas da cidade e viram o dia passar como um fôlego infinito.

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frame

por jorge c., em 28.01.15

Dois homens moderados, parados numa longa avenida, conversam sob um céu de azul plácido. Os prédios reflectem a luz tépida do sol do crepúsculo. É o fim de janeiro e dois homens moderados conversam entusiasmados sob o olhar apressado dos carros. Nos prédios da longa avenida não se vê ninguém, só a luz tépida do sol do crespúsculo a reflectir nas janelas, como se fosse uma manhã de junho. 

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