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o boato

por jorge c., em 15.07.14

Depois de uma manhã invulgar, por compromissos médicos inadiáveis, Manel dos Pombos - nome herdado de seu pai por razões que agora não interessam contar - não se encontrou com o grupo habitual no sítio do costume. Porém, para que não julgassem que algum incómodo ou vaidade lhe tivesse assaltado o espírito, engoliu o almoço e arrancou em direcção ao placard dos mortos a fim de saber as novidades. Nada. É certo que é mais raro morrer alguém ao Domingo. A segunda-feira costuma, portanto, ser menos agitada. Do outro lado da rua, protegidos pela sombra, os outros ignoraram-no. O homem aproximou-se, dominado por essa incerteza de quem chega a meio de uma festa para a qual nunca houve convite, ensaiando uma atitude confiante. Mas, por dentro, Manel dos Pombos sentia a angústia de uma possível reprovação dos seus pares. Pelo caminho, havia decidido evitar justificações, decisão esta que, não tendo sido bem acolhida, acabou por gerar um desconforto que o obrigou a retirar-se antes do tempo previsto. No dia seguinte, o boato espalhou-se.

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mulheres e burros

por jorge c., em 24.06.14

Subiram o monte, pela fresca, com a procissão. Carregavam os farnéis nas costas; as mulheres compenetradas na reza ao Senhor Jesus e a rotina dos dias em que o pau não folga nas costas a ficar para trás. Seguiam animados, estrada fora, com os casebres a desaparecer por baixo dos silvedos e, ao passar as águas férreas, libertavam o cansaço das pernas com as judiarias do costume:

- Eh, Chico! Olha q'o barril vai furado.

- N'andasses tu a cheirá-lo desde a madrugada.

- É porque acordei cedo. Quem muito dorme, pouco aprende.

Chegados à romaria, abancaram junto das sombras e, antes de estenderem os ossos nas mantas, entraram na pequena igreja com os bonés na mão, com as mulheres chorosas dos filhos perdidos para os poupar a todos da fome, com a fé inabalável dos inocentes. Perdoai-os, Senhor, que o pecado é a vida possível dos homens. E logo de seguida esqueceram a dor e beberam e dançaram e gargalharam. Homens de rosto rude, com um ar tonto e um passo ébrio; burros de carga das coisas pesadas da vida, sem queixume; mulheres da carga pesada dos burros.

Tristezas à parte. A tarde passou. Ficam agora no cimo dos montes a sentir o desequilíbrio do vinho para equilibrar o espírito ao som da toada da cidade e dos campos. Com a Sua benção.

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o bairro

por jorge c., em 20.06.14

Pelo final do dia, dexei a cidade para trás, entusiasmada com o jogo e na euforia do início de verão. Subi a encosta a cambalear para casa, numa subida espiral e lenta, exausto dos dias e das coisas que os dias trazem, sem encarar os prédios que se erguem esguios como se se estivessem a inclinar para os céus. Os prédios são espinhos no meu cenário e o meu bairro uma nuvem negra sobre a cidade. Pela noite, o silêncio dos montes suspende a fealdade das ruas e a vida adormece proletária. Não havia sentido, até ontem, o coração do bairro. Sentei-me, como sempre, numa cadeira de verga a fumar as horas que faltavam. Pela janela entrou um som até então estranho. Uma mulher dirigiu-se às ruas, da sua janela.

- Mariana, olha as horas!

Eram, agora, 22h30 de uma noite de verão. Cheguei-me à janela e fiquei a olhar para a rua. O bairro acordou do coma e as crianças brincavam cá fora. Mais à frente, dois homens passeavam os cães e ainda se ouvia o ruído do café. O bairro era bairro outra vez, como o fora no tempo das centenas de pessoas que chegavam desnorteadas daquele invernoso retorno e que aqui recomeçaram, para regressar à vida, à tona, para respirar, para voltar a ser gente e ser bairro de gente e de vida que é vida decente. 

Estendi-me na cama e os olhos fecharam-se, suavemente. Acabei por adormecer e pouco me lembro dos sonhos. O dia seguinte começou tranquilo.

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