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a rede

por jorge c., em 01.09.15

- Se não fosse tão feia, saltava-lhe em cima.

- A tua irmã também é feia e já meia Paris lhe saltou em cima.

- És um cão de merda, Rasul. Já te disse que não te admito que fales da minha irmã.

- Pois sim. Despacha-te mas é a limpar isso e vamos embora. Não fosse esse teu apetite voraz, não tínhamos de estar sempre a mudar de sítio e a justificar estes incidentes ao Belga.

- É um paliativo. Elas vão morrer e vão...

- Um paliativo é quando é consentido, meu animal. Se o gajo nos fecha a porta, a seguir abrem-nos uma cela. E antes de lá entrarmos, apagam-nos. E desliga-me essa merda dessa música.

- Assassin de la police! Uh! Uh!

Dois cadáveres adiados precipitavam-se, agora, para bem longe dali. Apesar de tudo, Johnny mexia-se bem na rede e Rasul ainda ia precisar dele antes de regressar ao norte. Era preciso limpar o desleixo de Bassel com o primo da namoradinha. Depois disso, teria de recuperar o dinheiro perdido na última operação e reconquistar a confiança do Belga. Pela primeira vez, tinha medo. Metera-se demasiado no assunto. Ao início parecia uma coisa simples - fazer meia-dúzia de contactos, arranjar informações, vender informações. Nem precisava de sair da cidade. Tudo sob controlo, até ao dia em que mais gente quis ganhar com isto e começaram a apertar com ele. Agora eram agentes oficiosos de órgãos oficiais: políticos comprometidos; polícia facilitadora ou dificultadora, conforme a recompensa; organizações internacionais; o Belga; e Bassel que, ao ignorar todo este novelo, achava-se Moisés, um herói do seu tempo, investido por uma moral superior que justificaria todos os seus pecados. Por outro lado, havia Johnny, um albanês mercenário a quem os nacionalistas franceses pagavam para criar cenários de criminalidade, ou a quem os grupos terroristas recorriam para recrutar miúdos nos bairros de Paris. Era através desses contactos que Johnny conseguia informações para passar gente nas fronteiras e, por vezes, mais além. Mas, para isso, cobrava um pouco mais, reivindicando os corpos já sem força de mulheres desfeitas pelo terror. "C'est la vie", desdramatizava. Havia que regressar a Calais, pagar ao Belga e pirar-se para Tarifa, destino ao qual acabaria por nunca chegar. 

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