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No balcão peço um Cutty e um Suave. "Suave não temos". Então pode ser um Chesterfield remediado. Há uns anos um amigo dizia-me que Gauloises era tabaco de existencialistas. Nunca gostei de existencialistas e, na verdade, também nunca gostei de realistas, surrealistas, neorrealistas e parvenus em geral. Ando aqui só pelos cigarros - algo sem grandes conotações -, o uísque é só para não cair tudo em seco. Há também este dilema terrível na escolha do lugar indicado para um gajo se sentar. Se se fica ao balcão, sozinho, parece sempre que se anda ao ataque, ou que se está com um pifo tão grande nos cornos que a solidão que a ele deu origem vai procurar abrigo nos braços desinteressados de uma conversa de circunstância. Se se escolhe uma mesa, dá-se aquele ar pretensioso de quem também não tem muito que fazer na vida, ou de parvo que chega sempre antes da hora, esperando infinitamente pela companhia que há-de vir, o que é capaz de ser bem pior. Feitas todas as considerações, escolho passar por parvo na solidão do balcão, dividindo desta forma o mal pelas aldeias. Uma decisão como outra qualquer, sem grandes compromissos. E é no meio de todas estas preocupações excessivas que me vou distraindo sem prestar atenção à música. Primeiro que tudo acalme, ainda reparo numa mesa com dois rapazitos de fatinho, vindos directamente dos escritórios, quem sabe, que vão discutindo o governo, os problemas da esquerda e da direita, a realpolitik e o mercado, tudo isto com os telemóveis e os tablets à disposição. Um like aqui, um tweet acolá - está tudo a acontecer ao mesmo tempo, é preciso não defraudar as expectativas da comunidade online. Dou uma olhadela no telemóvel, sempre me vou sentido integrado e mantendo a sensação de que estou à espera de alguém. Sem qualquer razão abro a caixa de mensagens e vou lendo algumas delas: "Caro cliente, aproveite este fim-de-semana as promoções que preparámos para si. Até dia 4, todos os produtos com 20% de desconto." Simpáticos. Uma outra: "devo interpretar este teu silêncio de alguma forma?" Talvez da mesma forma que os tipos da primeira mensagem - sem dramas. A música não está má. É o free jazz de outras noites, sentado na marquise a ouvir os carros a passar na auto-estrada e o vento a bater nas janelas. Devolvo o telemóvel ao esquecimento e peço mais um. O rapaz é eficiente e parece não querer contribuir para a possível angústia de uma espera. Estamos todos à espera de alguma coisa, não é assim? Um inevitável cliché dos tempos, tão comum como o desaparecimento do free jazz nos bares; dos bares do free jazz; da simples intenção de nos sentarmos ao balcão a pensar no ritmo da cidade e a desfrutar as cores e as sombras dessa luz tépida que esconde os rostos, sem nos deixar irremediavelmente sós numa noite normal de semana, livre de considerações alheias. E com isto, quinze cigarros, quatro ou cinco Cutty's, era a conta, obrigado e bom dia.

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