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volta ao mundo em três memórias

por jorge c., em 18.09.15

Sayid voltou a perturbar-me o sono. Desta vez apareceu noutro tempo, rodeado por uma dessas felicidades raras da vida. Depois disso, lembro-me apenas de o ver deitado numa camarata, acompanhado de umas dezenas de outros homens, todos vestidos de igual. Ouvia-se música e o som inequívoco de camiões. Ouviu-se também um disparo e um corpo apareceu caído junto de uma cerca. Acordei sem saber se a minha personagem teria morrido. A história de Sayid havia terminado, mas agora surgia algo novo, já sem os outros, num outro cenário. Um sonho tão estranho como aterrador. O despertador ainda não tinha tocado. Talvez aqueles quinze minutos restantes pudessem ter sido fundamentais. Quinze minutos é uma vida nos sonhos. Levantei-me e saí para apanhar o avião para Lisboa, com o possível corpo de Sayid na mente e o trago amargo da cerveja da noite anterior a entupir-me toda a zona respiratória. Voltei a adormecer durante o voo mas julgo não ter sonhado mais. No táxi, num francês enferrujado, o motorista confessa estar triste com o que se passa na Europa. O tema propaga-se por toda a parte como um grande terramoto. É a favor. A favor? Sim, a favor. Há quem seja contra. Contra o quê? Toda esta história de refugiados e migrantes e tragédias. Migrações trágicas. Sabe bem o que isso é. Em 75 veio para Portugal para fugir da morte certa. Não era um regresso, mas antes uma vida nova, um outro cenário. Também havia quem fosse contra. Emocionou-se e forçou-me ao silêncio. A luz de Lisboa preenchia o espaço com a compaixão possível, enquanto o taxímetro marcava a passagem do tempo numa luta clássica entre a melancolia e a urgência do fim do dia. Lembrei-me de Julio Cortázar e da sua breve história porteña. Às vezes o mundo cabe todo numa pequena viagem nos transportes públicos.

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um mundo-cão

por jorge c., em 04.09.15

Sentado numa charmosa esplanada na rue des Abesses, abro sem entusiasmo o Le Figaro, mas não consigo deixar de reparar numa fotografia de dois indivíduos a tentar passar por baixo de uma rede de arame farpado. A imagem tira-me o apetite e resolvo concentrar-me no pequeno grupo que se encontra na mesa do lado: um homem nos seus trinta e poucos, incrivelmente parecido em tudo com Serge Gainsbourg, acompanhado por duas amigas, um pouco mais novas e enérgicas. Enquanto as duas raparigas vão esgrimindo frases espúrias, num duelo de sensibilidades, num contra-relógio pela mais adequada e correcta das ideias conformes ao cânone, o rapaz vai olhando no infinito, fumando em câmara-lenta o cigarro da grande urbanidade. Depois, com um sentido de oportunidade admirável, interrompe-as com comentários despectivos, quase assassinos, que elas recebem com deslumbramento. Não parecem estar autorizadas a utilizar os telemóveis na presença desta ilustre luminária de Montmartre, limitando-se a comentar um artigo no Libération onde o colunista cogita sobre a importância das palavras "refugiado", "migrante", "humanismo", com a assertividade dos profissionais da opinião. A mise-en-scéne fascina-me. Olho-a com uma ternura cínica, ou talvez só com cinismo, e acabo por me rever naquele sósia de Gainsbourg que todos os dias se senta na esplanada do Le Sancerre a pavonear uma atitude snob. E então somos dois snobs na mesma esplanada da rue des Abesses, desprezando as trivialidades das raparigas e das colunas de opinião, desprezando toda a gente que não viu as perseidas da razão e da humanidade, admirados pelo deslumbramento de duas tontinhas que só querem ser úteis à vida, não sabendo bem como. E então já somos quatro, já somos um bistrot inteiro, todo um bairro, uma cidade e um país a tentar ser úteis à vida sem saber como, à procura em desespero, sem saber nada. E então invejo tudo isto. Invejo a admiração pelo Gainsbourg, a inocência das tontinhas, a esplanada do Le Sancerre, o colunista do Libération e um outro do Figaro, o homem que sai do Grenier à Pain com o lanche debaixo do braço, os dois activistas que distribuem panfletos sobre a crise em Calais e sobre o livre-trânsito do grande capital, no outro lado da rua, a família que se apressa para entrar numa pequena sala de teatro de Montmartre e todo este conforto sem culpa que só o cosmopolitanismo consegue oferecer. Invejo a sensação de estar vivo de Sayid, os dilemas de Bassel e o pragmatismo sem fronteiras de Rasul. Certa noite, sonhei com estes homens, atormentado pela culpa, pela impotência e pelo cinismo. Imaginei-lhes o rosto, a pele e o nervo. Mas o meu incómodo era tão cómodo como o de todos os outros que, tal como eu, perdem o apetite com fotografias nos jornais, entre dois copos de vinho e meio maço de cigarros. Pouco antes de chegar a casa, reparei na carruagem de fim-de-tarde com destino a La Défense. Um mundo inteiro lá dentro. Todos os rostos do mundo fechados no seu mundo, como um cão que morde a própria cauda para acabar com a sua inquietação. Vi o meu reflexo na janela e lá estava eu acompanhado por todos esses cães, a morder a minha cauda como se fosse acabar com todas as inquietações do mundo, às voltas. Entrei em casa, deitei-me e não pensei em mais nada.

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um mistério

por jorge c., em 02.09.15

Sayid salvou-me o dia. Faço o caminho contrário à história da sua chegada, em busca da fonte. Falou-me de um homem chamado Bassel. É ele a chave esclarecida que procuro, entre o drama desta gente que espera na vertigem da vida, os meandros do tráfico de pessoas e a origem da tragédia. Sentado junto ao canal, cansado e resignado, o sírio traz no rosto todos esses mistérios - a verdade sobre o mundo. Não o posso ajudar mais. Não posso levá-lo para casa, como quem resgata um cachorrito no canil para se sentir em comunhão com o cosmos. Dois homens olham-me com desconfiança e segredam entre si, deixando bem claro que é de mim que estão a falar. Não lhes faço a desfeita e afasto-me. Procuro mais um testemunho. Encontro um homem do Conselho Belga para os Refugiados, não muito afável. Diz-me umas quantas banalidades e arranja uma desculpa para sair dali. Não parece haver ninguém aqui que não tenha um ar comprometido. Talvez Bassel me ajude a compreender. Irei encontrá-lo em Paris. Prepara-se para embarcar para Berlim, onde a família o aguarda.

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a rede

por jorge c., em 01.09.15

- Se não fosse tão feia, saltava-lhe em cima.

- A tua irmã também é feia e já meia Paris lhe saltou em cima.

- És um cão de merda, Rasul. Já te disse que não te admito que fales da minha irmã.

- Pois sim. Despacha-te mas é a limpar isso e vamos embora. Não fosse esse teu apetite voraz, não tínhamos de estar sempre a mudar de sítio e a justificar estes incidentes ao Belga.

- É um paliativo. Elas vão morrer e vão...

- Um paliativo é quando é consentido, meu animal. Se o gajo nos fecha a porta, a seguir abrem-nos uma cela. E antes de lá entrarmos, apagam-nos. E desliga-me essa merda dessa música.

- Assassin de la police! Uh! Uh!

Dois cadáveres adiados precipitavam-se, agora, para bem longe dali. Apesar de tudo, Johnny mexia-se bem na rede e Rasul ainda ia precisar dele antes de regressar ao norte. Era preciso limpar o desleixo de Bassel com o primo da namoradinha. Depois disso, teria de recuperar o dinheiro perdido na última operação e reconquistar a confiança do Belga. Pela primeira vez, tinha medo. Metera-se demasiado no assunto. Ao início parecia uma coisa simples - fazer meia-dúzia de contactos, arranjar informações, vender informações. Nem precisava de sair da cidade. Tudo sob controlo, até ao dia em que mais gente quis ganhar com isto e começaram a apertar com ele. Agora eram agentes oficiosos de órgãos oficiais: políticos comprometidos; polícia facilitadora ou dificultadora, conforme a recompensa; organizações internacionais; o Belga; e Bassel que, ao ignorar todo este novelo, achava-se Moisés, um herói do seu tempo, investido por uma moral superior que justificaria todos os seus pecados. Por outro lado, havia Johnny, um albanês mercenário a quem os nacionalistas franceses pagavam para criar cenários de criminalidade, ou a quem os grupos terroristas recorriam para recrutar miúdos nos bairros de Paris. Era através desses contactos que Johnny conseguia informações para passar gente nas fronteiras e, por vezes, mais além. Mas, para isso, cobrava um pouco mais, reivindicando os corpos já sem força de mulheres desfeitas pelo terror. "C'est la vie", desdramatizava. Havia que regressar a Calais, pagar ao Belga e pirar-se para Tarifa, destino ao qual acabaria por nunca chegar. 

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bassel

por jorge c., em 31.08.15

Querida Nasmah,

 

Que as minhas palavras não te assustem. É tudo o que desejo. Só agora consigo responder à tua mensagem em segurança. Ficámos retidos em Lens nos últimos dias e se Rasul não se tivesse mexido através da rede ainda lá estaríamos. Alterámos a rota do norte. Calais não é mais seguro. Em Itália já não passa ninguém e na Grécia há milícias organizadas pela extrema-direita que vigiam armadas os pontos possíveis para o desembarque. Assim que as novas rotas são anunciadas nas televisões e nos jornais, como se fossem atracções turísticas, a passagem inviabiliza-se. Há cerca de duas semanas, uma dessas milícias fez-se passar por uma organização de ajuda humanitária e conduziram perto de cem desgraçados para as montanhas. Morreram todos. 

Sayid e os outros já estão a salvo. Por pouco não conseguíamos. Não lhes cobrei nada, não fui capaz. Também não lhe contei da Grécia. Disse-lhe que era tudo mentira. Mas no sítio onde ficaram ninguém me conhece. 

Com estas complicações todas e com os negócios nos Balcãs, talvez a rota do Adriático seja a melhor solução. Falei com Loran. Já não o contactava desde a operação das Raparigas de Trieste. Se lhe transportar dois carregamentos para Tarifa, ele aceita fazer a costa toda com eles. "Sem precalços", garantiu-me. No fundo, garante-me é mais dinheiro. A polícia está mais cara. Os tipos que faziam a rota do leste já foram à vida. E os jornais, coitados, ainda acreditam que "o motorista ainda se encontra em fuga". Quatro camiões na mesma zona, só por mera coincidência. 

Todas as noites, querida Nasmah, quando o medo me perturba o sono, dou por mim a pensar que tudo isto é uma nobre causa, uma ajuda aos irmãos aflitos e desesperados. Mas depois, em cada lugar, lá está a tua terra prometida, essa Europa de que tanto falas e onde não habita senão a miséria do espírito, o lixo das almas, o fanatismo, a corrupção da autoridade, a ajuda só com compensação e o oportunismo dos tipos como eu, que vivem deste caos instalado. Adormeço como um moralista de mim mesmo.

Lembrei-me dos fins de tarde ao sol em Tel-Aviv, antes de Ezra aparecer nas nossas vidas. O mundo era, então, tão grande que nos banhávamos de imensidão. Agora, tudo parece um labirinto de cobaias, estreito e limitado. 

Assim que chegar ao sul volto a escrever-te. Se chegar. Não esperes nada.

 

Bassel

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passagem

por jorge c., em 28.08.15

Depois da queda, levantar de novo, agora encharcado. Os outros já lá vão, um pouco mais à frente. Ali estão. O corpo já se vai habituando a não se erguer demasiado. O que serão aqueles latidos ao longe? Alerta, sempre alerta. O pior já passou. Mais arame, menos arame, vai ficar tudo bem. Aya também ficou para trás. Queixa-se de um tornozelo. Sinto-lhe o sangue e o suor onde antes era só pele, seda e jasmim. Temos de continuar. É preciso evitar a luz. Cada vez menos invisíveis. Continuemos. Limpo-lhe o sangue e guardo o lenço. Dentro de duas horas Bassel estará à nossa espera na outra margem do rio para nos conduzir até ao nosso contacto do sul. Teremos de confiar. Os latidos regressam. Temos de confiar. Precisamos de confiar. Um homem que nos deu comida na última paragem contou-nos que, há umas semanas, apanharam uns tipos do norte que se faziam passar por voluntários de uma organização qualquer. Levaram um grupo para uma zona mais montanhosa e fizeram-nos desaparecer. Ninguém sabe deles. Bassel diz que é mentira, que inventam coisas por causa do medo, que preferem ver o nosso medo e que isso diminui o seu próprio medo. Somos lobos de matilhas diferentes. Uns mais cães do que outros. Não penses nisso agora, não te ergas demasiado, não te insurjas, é preciso continuar. Agora é uma criança a chorar. Uma vontade indomável de a esganar apodera-se de mim. Temos de sobreviver. É preciso continuar para sobreviver. Não te ergas demasiado, não penses na criança. Vai ficar tudo bem. Já falta pouco. Ainda falta tanto.

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